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Vestido de princesa, performer trata da resistência da bicha efeminada

(Foto: Francisco Costa)

(Foto: Francisco Costa)

A resistência da bicha efeminada. Esse é um dos termos utilizados no material de divulgação do espetáculo “Sonho Alterosa”, em cartaz no Reduto, em Botafogo, no finzinho de sua curta temporada, com entrada franca. Na performance, Caio Riscado (diretor e idealizador de “Couve-Flor”) aparece em cena de barba cheia, pernas cabeludas e vestido de princesa rosa de conto de fadas, com direito a coroa delicada na cabeça, como na foto ao lado. Como um Dzi Croquette com mais roupa. Ele diz que é um acerto de contas com o passado, sua infância. Em uma perspectiva mais ampla, o objetivo é criticar a heteronormatividade cultural compulsória.

Heteronormatividade não é sinônimo de heterossexualidade, mas tem a ver. Segundo o pesquisador Leandro Colling, autor de vários artigos sobre a representação LGBT na mídia, homossexuais também reproduzem a heteronormatividade. Esse conceito trata da consideração geral das relações heterossexuais como norma, deixando todas as outras expressões como desvios dessa norma. O descasamento entre órgão sexual e o gênero, caso das pessoas trans, seria portanto um desvio dessa heteronormatividade, que vem sendo cada vez mais refletida, questionada e discutida. A heteronormatividade é o que diz que rosa é cor de menina e que bola é brinquedo de menino. É também o que torna mais fácil a aceitação de um gay masculinizado, casado com outro homem e com filhos adotados, do que… um performer vestido de princesa e questionando esses padrões culturais. É o que faz gays repetirem que algo ou alguém é “gay demais”.

– “Sonho Alterosa” é um elogio ao corpo efeminado, a bicha lacrativa, que da e vai continuar dando close por aí. Close na imagem, close na linguagem, no tempo e no espaço. O projeto é de afirmação da diferença na luta por um processo de transformação do social que reconheça o outro como parte integrante da formação de si. – Caio Riscado, também diretor da peça, diz ao Teatro em Cena. – A história é a mesma já contada por muitos. Da proibição de determinadas atividades ditas de menina e do cerceamento da liberdade e desejo. A princesa é um dispositivo, um imaginário escolhido para detonar as questões apresentadas pelo espetáculo – algumas oriundas da minha história pessoal e outras não.

(Foto: Francisco Costa)

(Foto: Francisco Costa)

(Foto: Francisco Costa)

(Foto: Francisco Costa)

Influenciado pela Cinderela, a Branca de Neve, a Bela Adormecida e a Bela da Fera, Caio um dia sonhou que queria ser uma princesa, e logo o mundo lhe mostrou a impossibilidade: “meninos não são princesas”. Por isso, o espetáculo faz as pazes com seu sonho infantil. “Ser uma princesa hoje é tão importante quanto ser uma pessoa qualquer. Trata-se de erguer castelos internos, lutar pela riqueza de imaginário e defender os diferentes modos de ser e estar no mundo”. O universo da Disney, que moldou seu sonho de menino, também é questionado a partir dos valores morais e sociais transmitidos por suas histórias – em suma, heteronormativas.

O ator é doutorando em performance na UNIRIO e desenvolve pesquisa sobre a apropriação cênica dos conceitos da teoria queer. “Sonho Alterosa” nasceu dessa pesquisa acadêmica, iniciada no mestrado. Em seu discurso, Riscado cita Deleuze, Guattari e Foucault. Criador do grupo MIÚDA, ele já investiga esse tema da heteronormatividade há anos. Em outro trabalho, a performance audiovisual “Manoelcarlismos”, propôs um olhar sobre a representação dos personagens “sexodiversos” na TV, o que vai ao encontro da performance atual, tratando dos contos de fadas disseminados pela Disney.

“Manoelcarlismos” está disponível na Internet:

Questionado sobre transformações sociais recentes, como a entrada do “beijo gay” nas novelas e a vinculação de um comercial da Barbie com um menino, Caio revela seu olhar crítico. Segundo ele, deve-se ressaltar que as conquistas são todas do movimento de luta pelos direitos LGBTQ. A indústria de entretenimento estaria apenas seguindo uma tendência mercadológica, ao identificar um nicho de consumo.

– Depois de tantas lutas e conquistas, quando a sociedade passa a ter uma aceitação um pouco melhor das questões LGBTQ, por exemplo, o mercado apenas se aproveita disso. Duvido que a empresa que fabricou a Barbie para meninos faria isso há 30 anos atrás. Mas é óbvio também que é importante ter uma Barbie para meninos, é simbólico e político, mas vejo isso como mais um reflexo das conquistas do movimento. O estado de vigília quanto a essas questões deve ser constante, para que não nos deixemos ser fagocitados por interesses que estão no lado contrário da nossa luta.

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SERVIÇO: sáb a seg, 20h. Entrada franca. Classificação: 18 anos. Até 14 de dezembro. Reduto – Rua Conde de Irajá, 90 – Botafogo. Tel: 3797-0100.

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