Violência e poesia: ator dá vida ao cangaceiro Volta Seca – Teatro em Cena
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Violência e poesia: ator dá vida ao cangaceiro Volta Seca

Alan Pellegrino em cena de “Volta Seca” (Foto: Carol Nunes)

Por um lado, um dos cangaceiros mais míticos do bando de Lampião. Condenado inicialmente a mais de 100 anos de prisão. Por outro lado, um poeta. Até lançou um disco, como cantor. Assim foi a vida de Volta Seca, paradoxal, com o que há mais de mais violento e de mais sensível em uma mesma pessoa. A biografia encantou o ator Alan Pellegrino (de “Hotel Brasil”), que vem resgatando a memória do cangaceiro no solo “Volta Seca”, em cartaz no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, no Humaitá. Alan se arriscou como dramaturgo só para poder compartilhar essa história.

Ele descobriu a afinidade de Volta Seca com a poesia e a música ao ler o livro “Estrelas de Couro: a Estética do Cangaço” (do historiador Frederico Pernambucano de Mello) há cerca de um ano. Deu o clique. O personagem saltou à sua vista, afinal era um menino no meio do cangaço, onde a regra era matar ou morrer. Volta Seca entrou para o bando de Lampião aos 11 anos, após fugir de casa por causa da violência da madrasta. Descobriu, assim, a violência do mundo. “Comecei a imaginar esse menino de onze anos tentando sobreviver em uma época onde se matava por qualquer coisa, e ao mesmo tempo pensar o olhar poético que ele tinha sobre aqueles homens e aquela vida dura no sertão”, o ator diz ao Teatro em Cena, “me coloquei no lugar dele por um segundo e logo vi que deveria escrever sobre ele”.

Para escrever, Alan foi fazer um curso de dramaturgia com Pedro Brício (de “Nu de Botas”). “Nunca tinha escrito para teatro”. Decidiu ambientar a peça dentro da cela da prisão, no dia da libertação de Volta Seca, explorando suas memórias. O biografado foi preso aos 14 anos e passou a juventude inteira atrás das grades em Salvador. Ótimo contador de histórias, alimentou mitos sobre si e a peça traz esses causos. “A memória foi algo determinante”, afirma o ator e autor. Sua preparação também envolveu aulas de canto com Jorge Maya (de “O Homem de la Mancha”), fora dois meses de ensaios com o diretor Joelson Gusson (de “Hotel Brasil”). Era algo que Alan queria muito fazer.

– O que mais me interessa, primeiramente, é o olhar poético. Ele compunha suas canções de cabeça e descrevia de forma sútil a vida, a dor e a beleza sertaneja. Depois, a forma involuntária como ele entrou para o cangaço, que me faz pensar em qualquer jovem hoje nas comunidades do Brasil.

(Foto; Alberto Maurício)

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SERVIÇO: sáb a seg, 20h30. R$ 30. 60 min. Classificação: 12 anos. Até 30 de julho. Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto – Galeria Mercantônio Villaça 1 – Rua Visconde Silva, s/n – Humaitá. Tel: 2535-3846 e 2535-3927.

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