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Vitória da Beija-Flor é a vitória do teatro na Sapucaí

(Foto: Sambarazzo)

Para os torcedores, uma alegria. Para os detratores, uma marmelada. Para muitos, a vitória de um protesto. Para outros, de um grito de socorro. A vitória da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis no Carnaval de 2018 do Rio de Janeiro tem mesmo muitos significados. O que a torna assunto aqui é sua grande dramatização. O 14º título da azul-e-branco foi conquistado embasado principalmente na força do teatro. Entre 120 e 150 atores foram contratados para o desfile e apareceram entre membros da comunidade, musas e celebridades. Tal escalação rendeu cenas memoráveis como a da mãe chorando a morte do filho policial ou dos estudantes confrontados com a violência dentro de sala de aula. O “maior show da Terra”, como é tido o Carnaval da Sapucaí, investiu pesado na dramaturgia, mais do que nunca.

A professora e crítica teatral Tânia Brandão escreveu em seu blog que o desfile da Beija-Flor foi inovador, ousado, forte e uma virada no modus operandi do que se entende por um desfile carnavalesco. “A aproximação entre carnaval e teatro, revolucionária, permite o pensamento e a exploração de caminhos totalmente novos para o desfile”, sublinhou. Há pontos evidentes: neste ano, a escola subverteu a divisão em alas, trocando-as por “atos”. Da comissão de frete até o último ato, uma grande narrativa foi encenada em comunhão entre as artes. Um ato puxou o outro. Isto também implicou mudanças nos carros alegóricos: em vez de dezenas de destaques com plumas, paetês, sorrisos na cara e samba no pé, havia um elenco enxuto (e muitas vezes em lágrimas!) – o estritamente necessário para construir uma cena dramática. Até mesmo Pabllo Vittar estava onde estava por sua simbologia dentro do enredo. Em resumo, a extravagância deu lugar a interpretações realistas. Na última ala, coreografada por Jan Oliveira, pivetes corriam entre figuras do povo, fazendo seus assaltos.

Carro do prédio da Petrobrás corroído e transformado em favela (Foto: Carnavalesco)

Um dos nomes por trás das inovações é Marcelo Misailidis, consagrado primeiro bailarino do Theatro Municipal. Como todo bom artista, sabe que o encantamento e o fascínio são apenas algumas das sensações possíveis de suscitar no espectador. Creditado na ficha técnica pela concepção cênica do desfile de 2018, Marcelo escreveu o enredo “Monstro É Aquele Que Não Sabe Amar” e ficou responsável pela comissão de frente e pelas concepções alegóricas. Foi dele a ideia de investir na dramaturgia. O idealizador garante que a opção não se deveu à falta de orçamento – um ponto que por si só já sacudiu os processos criativos dos carnavalescos no último ano. “A ideia tem a ver com meu universo profissional. Você trabalha com a sua linguagem”, Marcelo diz ao Teatro em Cena, “honestamente, não esperava toda essa repercussão, mas fico feliz com o resultado”. O júri conferiu 9,9 à escola na categoria enredo, que avalia se a história foi bem contada na Sapucaí. Nada mal diante de tantos tensionamentos.

As opções cênicas levantaram discussões e resistência dentro da própria escola. A Beija-Flor sempre foi conhecida por seu luxo e perfeccionismo nos critérios técnicos sujeitos à avaliação do júri. Neste ano, muito do que propôs poderia prejudicar suas notas em alegorias e figurinos. Qual a nota do realismo na Sapucaí? Não dá para glamorizar esteticamente bandidos, policiais, miseráveis, políticos e empreiteiros. Por outro lado, será que as encenações seriam valorizadas? Tudo era um risco. O povo comprou a proposta, entoou o samba-enredo e se uniu à escola ao fim do último ato, deixando cheia a Avenida Marquês de Sapucaí. Mas era mistério como o júri olharia para a transformação na escola. Ao fim do desfile, o jornalista e jurado do Estandarte de Ouro Leonardo Bruno se disse decepcionado e triste com a “estética diferente, mas mal executada e concebida”. Para ele, a escola estava “desfigurada” e confusa em sua narrativa. “Eu espero sinceramente que a Beija-Flor não siga esse caminho”, disse.

Marcelo Misailidis e Gabriel David: idealizadores do enredo e das transformações na avenida (Foto: Sambarazzo)

Marcelo Misailidis é vencedor de quatro Estandartes de Ouro por seu trabalho em comissão de frente, e está com a Beija-Flor desde 2012. Só neste ano, no entanto, pôde participar da concepção do desfile inteiro. Um bailarino do Municipal entre a comissão de carnavalescos. “Isso é mérito também do Gabriel David, que aposta em buscar um novo horizonte para rejuvenescer a escola”. Gabriel é o filho de apenas 20 aos de Aniz Abrahão David, o Anízio, patrono da agremiação (em bom português: o mandachuva). Ele agora exerce a função de conselheiro da escola. À revista Veja Rio, o jovem disse: “entramos na avenida para ganhar, claro. Mas o nosso objetivo maior era chamar a atenção do público. Não dá para ficar uma hora e meia assistindo ao mesmo desfile. O mundo hoje é outro e a Beija-Flor e o Carnaval precisam se modernizar”. A mensagem é clara: há um novo caminho a ser percorrido.

O conceito de alas, consagrado no Carnaval, se refere à simbolização de um tópico do enredo por meio de um grupo de pessoas fantasiadas. A União da Ilha, por exemplo, falou sobre culinária em seu desfile e apresentou uma ala de bananas e outra de caipirinhas. Ao apostar em atos, a Beija-Flor deu movimento ao jogo, com a atuação e às vezes a quebra da uniformidade. A grande questão para os atores, tanto no chão quanto nos carros, era: atuar ininterruptamente para um público que mudava conforme a escola evoluía. São cenas sem finitude, cíclicas, porque quem vê no Setor 10 não viu no Setor 1. “Essa que foi a sacada da Beija-Flor: pensar sob esse prisma. O projeto começou assim, nasceu para ser dessa forma. Não foi uma coisa que foi se descobrir lá na frente. Já começou assim, com essa ideia, com esse conceito”, explica Marcelo. Para dar conta do trabalho, os atores, escolhidos em audições, ensaiaram no regime de duas vezes por semana ao longo de três meses. Por conta das limitações do prefeito Marcelo Crivella, não puderam fazer um ensaio-técnico na avenida. De certa forma, isso impulsionou o fator-surpresa, sacudindo com todas as agremiações.

Se a dramatização vai ser uma tendência nos próximos Carnavais? “Eu não acredito que vá virar uma coisa que todo mundo sairá copiando”, diz Marcelo, “cada um entende o Carnaval de um jeito. Algumas coisas eventualmente são absorvidas, outras não”. O impacto do desfile de 2018 da Beija-Flor só será sentido nos próximos anos. Caso a dramatização se consolide como elemento importante no Carnaval carioca, as audições de atores para desfiles do grupo especial tenderão a ser disputadas, como um novo segmento de mercado de trabalho. E, futuramente, as categorias de avaliação da Liesa se adaptarão para comportar a nova faceta dos desfiles.

(Foto: Carnavalesco)

(Foto: UOL)

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