Premiações

Você precisa ver o discurso de Guida Vianna no Prêmio Cesgranrio. É sério.

Premiada pelo papel protagonista de “Agosto”, Guida Vianna roubou a cena da 5ª edição do Prêmio Cesgranrio de Teatro na terça (30/1) no Copacabana Palace. Ao subir no palco do Golden Room para o discurso de agradecimento, ela falou por 11 minutos, enfileirou mazelas do ofício e desmistificou a profissão para quem ainda se iludia com a ideia de glamour. Foi ovacionada pelo público presente, formado por veteranos e iniciantes do fazer teatral, além de fotógrafos e jornalistas. Ela fez questão de frizar que existem realidades muito díspares na classe.

– Eu recebo esse prêmio em nome de todos meus amigos, companheiros, que fazemos aquele teatro que faz o circuito Sesc, o circuito Sesi, o Palco Giratório, as lonas culturais… A gente fica oito horas por dia em uma sala de ensaio, todos nós somos professores, temos outros empregos para poder continuar fazendo teatro. Eu adoraria, [Antônio] Fagundes, ser você, mas eu não sou. Eu não ponho 700 mil pessoas em uma temporada. A gente trabalha em salas de 80 lugares e às vezes a gente sua… Na semana passada, eu estava no metrô filipetando para conseguir lotar o Teatro Sesi, no centro da cidade! Nós somos fortes, somos resilientes, nós temos força, nós temos paixão, porque a gente nunca traiu o nosso primeiro amor, que era o palco.

Guida Vianna caracterizada em “Agosto” (Foto: Silvana Marques)

PREFEITURA X CULTURA

A atriz de 63 anos de idade se posicionou com relação ao descaso da Prefeitura do Rio com o setor cultural. “Nós vamos ter mais três anos de Crivella e mais um de Pezão”. Ela ressaltou que não há editais à vista para a cultura e produções independentes têm que viver de crowdfunding (que também não dá mais resultado, como foi noticiado aqui). “Estamos vivendo de vaquinha mesmo. Eu peço empréstimo para fazer as minhas peças, mas o máximo que o Itaú me dá é R$ 30 mil e tenho que ir lá pagar mensalmente”. Pediu que os atores agraciados com sucesso e bons salários não se esqueçam dos colegas e contribuam nas vaquinhas

– A Prefeitura não dá a mínima para a cultura, retirou todos os editais. Eu adoraria também, Fagundes, não precisar pedir patrocínio, mas eu preciso. Esse prêmio que vou receber hoje equivale ao salário que ganhei para dois meses de ensaio e quatro de temporada. São seis meses de trabalho! – compartilhou, arrancando aplausos de pé na premiação.

Guida Vianna e Roberto Guimarães (Foto: Leonardo Torres)

SEGUIDORES COMO CRITÉRIO DE ESCALAÇÃO

Guida fez várias alfinetadas em seu discurso. Falou por exemplo sobre as recentes controvérsias em torno de escalações de atores baseadas em número de seguidores nas redes sociais. Ela ficou feliz do Oi Futuro ter aceitado seu nome para protagonizar “Agosto”, apesar da pouca popularidade na Internet. “Tinha que ter um nome para a cabeça de elenco e o Roberto Guimarães, do Oi Futuro, disse: ‘é a Guida? Pode ser’. Aceitou meu nome, e eu não tenho 12 milhões de seguidores no Instagram, mas estou aqui no palco há 42 anos”. Para quem não sabe, durante os três anos em que o projeto de “Agosto” peregrinou, as atrizes Vera Holtz (de “Timon de Atenas”) e Marieta Severo (de “Incêdios”) foram anunciadas previamente como protagonistas, o que acabou não acontecendo.

LUGAR DE FALA

A veterana também criticou os movimentos de minorias que pedem representatividade e respeito ao lugar de fala na arte – provavelmente se referindo ao recente caso de “Gisberta”, criticado por ativistas em Belo Horizonte porque trata da temática trans com um ator cisgênero (Luis Lobianco). “O teatro nos educa para a vida, para o mundo, nos livra dos preconceitos. O teatro não é um lugar de fala, é um lugar de todas as falas. E essa coisa que existe agora – que eu sou mulher e não posso fazer um homem, um homem não pode fazer a trans, a trans não pode fazer… Isso é de uma bobagem que não existe”, defendeu sua opinião.

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