Entrevista

Workaholic, Marcos Veras está com peça bombada e fará novela

Marcos Veras em "Falando a Veras" (Foto: Edu Tarran )

Marcos Veras em “Falando a Veras” (Foto: Edu Tarran )

Marcos Veras está na TV, no rádio, no cinema, na Internet e no teatro. E também no outdoor, no ponto de ônibus, na estação de metrô, e na filipeta que te entregam no restaurante. É difícil um carioca não esbarrar com o rosto dele em alguma parte do dia. Com tanta visibilidade, seu espetáculo “Falando a Veras” tem lotado todas as sessões de sua temporada no Teatro Miguel Falabella, no Cachambi. Nas quintas, ainda dá para comprar na hora. Mas, na sexta, os ingressos esgotam-se para o fim de semana inteiro, e uma fila grande se forma para adquirir os antecipados do fim de semana seguinte. “A gente estava aqui contando dinheiro quando você entrou”, o ator brinca com o editor do Teatro em Cena, no camarim do local, 20 minutos antes da sessão de sexta. Aliás, é brincadeira mesmo? Vai saber. A temporada, de fato, é um sucesso de bilheteria. “A gente estava há um tempão querendo vir para cá, e esse teatro é muito disputado pelos artistas e pelas peças. Consegui vir em uma fase ótima da minha carreira, e dá vontade de não sair mais, por vários motivos, principalmente pela quantidade de gente que está vindo”.

“Falando a Veras” existe desde 2008, mas com constantes mudanças. O espetáculo chegou a ficar disponível no Netflix (não está mais),e o que se via online é completamente diferente do que se assiste atualmente no teatro. Veras investiu mais na parte stand up, e cortou os personagens que fazia em cena. “Tenho essa liberdade de tirar coisa e colocar coisa. Acho que é um dos segredos do espetáculo”. No seu show de humor, como ele define, o comediante faz piadas sobre assuntos do cotidiano, casamento, publicidade e música. Muita música. Canta e tira sarro de duplas sertanejas, Caetano Veloso e Martinho da Vila, só para citar alguns. Mas tudo de uma maneira leve, nada ofensiva. “Estou mais preocupado com a piada do que com a possibilidade de parecer um xingamento. Tomo cuidado, porque sou fã, mesmo, de todos os artistas que cito: do Luan Santana ao Lulu Santos e o Ed Motta”, comenta o artista, que nunca foi processado por ninguém, apesar de brincar com todo mundo. “Já tive a oportunidade de fazer na frente deles, de cantar com eles, de encontrar em programas e eles curtem. É uma homenagem. Tanto é que não me considero imitador. Eu exagero, faço uma caricatura em cima de uma característica deles”. A sátira mais conhecida, a do Luan Santana, por exemplo, aposta na suposta vesguice do cantor, e os dois já gravaram juntos o programa “Altas Horas”.

Na paz: Luan Santana abraçou Marcos Veras quando o conheceu (Foto: Divulgação / TV Globo)

Na paz: Luan Santana abraçou Marcos Veras quando o conheceu (Foto: Divulgação / TV Globo)

Workaholic confesso, o ator atualmente se divide entre a peça, seu programa de rádio, o “Encontro com Fátima Bernardes”, os esquetes do Porta dos Fundos, e eventuais filmagens de comédias para o cinema. Neste ano, lançou “Copa de Elite” e “Vestido Pra Casar”. Em 2015, estreará “Estrada do Diabo” (como o vilão, em um papel não-cômico) e “Entre Abelhas”. Do humorístico “Zorra Total”, se afastou após cinco anos de trabalho, porque queria mudar de rumo. Mas não critica o programa, ao contrário de outros colegas de profissão. “Dos comediantes que dizem que nunca fariam o ‘Zorra’, metade faria sim, e a outra metade já fez”, ele ri. “O ‘Zorra’ é uma ótima escola, porque mistura várias gerações. Trabalhar com Paulo Silvino, Agildo Ribeiro, José Santa Cruz e Orlando Drummond não tem preço”. Mas ele entende as críticas ao formato – engessado. Mesmo assim, acha que há espaço para todo tipo de humor. O problema, na opinião dele, é que só tem o “Zorra Total”. Veras torce para que o “Tá no Ar”, por exemplo, se torne fixo na grade da TV Globo.

No teatro, Marcos Veras tem visto boas comédias: saiba quais

No Teatro Miguel Falabella, ao contrário, só há comédias em cartaz, com exceção de um infantil. “Falando a Veras” é apresentada entre duas – “Rodízio da Comédia” e “Terapia do Riso 3” – e o ator acredita que isso é reflexo da busca do público por uma válvula de escape. “O mundo está muito esquisito, já há algum tempo, com muita tragédia, muito drama, muita coisa ruim, e as pessoas querem rir, querem se divertir, se esquecer do trabalho, do trânsito, do hospital público. Rir de si mesmo é um segredo da comédia e do brasileiro também”, analisa Marcos Veras, que tem sua válvula de escape em casa. Ele é casado com a comediante Júlia Rabello, com quem dividiu trabalhos recentes, como o Porta dos Fundos, os dois filmes lançados e a peça “Atreva-se”, dirigida por Jô Soares. Em uma entrevista de dezembro de 2013, a atriz disse que pretendia engravidar neste ano. Não aconteceu e, pelo andar da carruagem, o projeto ficará adiado. Ela tem muitos trabalhos, e ele nem se fala.

Marcos Veras e Júlia Rabello na estreia de "Copa de Elite": parceria em casa e no trabalho (Foto: Reprodução /Internet)

Marcos Veras e Júlia Rabello na estreia de “Copa de Elite”: parceria em casa e no trabalho (Foto: Reprodução /Internet)

Veras está escalado para a próxima novela das 21h – “Rio Babilônia”, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares – e começará a gravar em dezembro. Vai se dividir entre a trama e o programa da Fátima. “Pretendo me dedicar a esses dois projetos, porque mais do que isso, eu vou parar no [hospital] Barra D’or”, faz graça o carioca, que também é formado em Publicidade, embora nunca tenha exercido a profissão. Ele cursou a graduação quando já trabalhava como ator. “Meu intuito era que, se um dia fosse preso, ficaria em uma cela especial”. Piadas à parte, ele diz-se movido pelo desafio. Gosta de sair da zona de conforto, e fazer mais de uma atividade ao mesmo tempo. “O que me instiga é a versatilidade dos projetos. Pode ser que, quando tenha 80 anos, seja obrigado a fazer uma coisa só, porque não vou aguentar fazer duas. Mas, enquanto tiver disposição e oportunidade…”.

Com essa filosofia, Marcos Veras já fez de tudo um pouco. Começou a trabalhar aos 16 anos, como vendedor de loja de roupas masculinas. Depois, pediu demissão para se dedicar à carreira artística. Já teve banda cover dos Beatles, atuou em peças infantis, deu aula de teatro, e fez participações no “Xuxa no Mundo da Imaginação” e no “Linha Direta”. No espetáculo que está em cartaz, aliás, ele brinca com uma ponta que fez no “Sítio do Picapau Amarelo”, no qual aparecia mascarado, no início da carreira. Ele não é de negar trabalho. “Profissão: cara de pau. O artista não tem que ter pudor, e eu não tenho pudor de fazer nada. Não negaria nenhum trabalho, se ele fosse comprovadamente artístico, e principalmente se fosse divertido”, afirma seriamente. “A profissão está longe de ser só glamour, mas o trabalho tem que ser divertido. Acho que é uma premissa de qualquer profissão, seja médico, advogado ou artista”.

"Encontro com Fátima Bernardes": Marcos Veras diariamante na TV (Foto: Globo / Estevam Avellar)

“Encontro com Fátima Bernardes”: Marcos Veras diariamante na TV (Foto: Globo / Estevam Avellar)

Assim, ele foi construindo sua carreira aos poucos, sem um grande estouro. Todo mundo conhece Marcos Veras, mas é difícil apontar desde quando. O ator tem uma trajetória linear, em constante ascensão, mas linear. “Tenho muito medo da carreira do cara que estoura, porque o sucesso pira se você não tiver uma base”, opina o ator, que, pode-se dizer, está em seu auge aos 34 anos de idade. “Sempre tive meus trabalhos. Depois que comecei, nunca mais parei. É claro que o ‘Zorra’ me deu visibilidade, mas não sei se foi um boom. O programa da Fátima, por exemplo, me trouxe outra coisa: meu nome dito no ar, diariamente, comigo de cara limpa, então a visibilidade aumenta muito. A exposição na TV Globo é enorme”. Em parte graças a isso, o ator tem um público que vai de crianças e adolescentes a senhores. Na plateia do “Falando a Veras”, há de todas as faixas etárias. “Isso resume muito meu tipo de humor”.

Resumir o tipo de humor de um ator presente em todas as plataformas, com diferentes trabalhos, não é exatamente fácil. Com histórico no “Zorra Total” e no Porta dos Fundos, é possível dizer que ele passeia por diferentes vertentes. Mas Veras consegue ser bastante claro quanto ao seu material. Evita, por exemplo, polêmicas. “Odeio chamar a atenção por algo que não seja pelo meu trabalho”. Apesar disso, não foge de temas delicados. Acredita que a comédia existe justamente para denunciar e ser do contra. “O que é bom senso para você pode não ser para mim. Acho que o Fernando Ceylão falou isso uma vez e vou parafraseá-lo: “o humor não tem limite, o que tem limite é o que é humor’”. A Internet, na opinião dele, deu voz a muita gente que não tem o que falar, e se acha engraçada. Algumas chegaram a ganhar os palcos, mas não vingaram. “O comediante tem que se reinventar o tempo todo. O stand up é apenas um braço da comédia. Quem é bom, como Fábio Porchat, Paulo Gustavo, Leandro Hassum, Danilo Gentilli, Rafinha Bastos e Diogo Portugal, ficou. Quem era aventureiro voltou para algum lugar… de onde não deveria ter saído, talvez”, brinca.

E Marcos Veras ficou. No Teatro Miguel Falabella, no caso, fica até 2 de novembro, com sessões de quinta a sábado às 21h e domingo às 20h. Os ingressos custam R$ 60 quintas e sextas e R$ 70 sábados e domingos.

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