Diogo Monteiro e Isabella Santoni: Léo e Bia da nova montagem da peça de “Léo e Bia” (Foto: Divulgação)
Isabella Santoni passou um dia trabalhando por 17 horas na última semana. E está feliz com isso. O dia puxado significou gravações da reta final de sua primeira novela das 21h na TV Globo, “A Lei do Amor”, e ensaios madrugada adentro para seu segundo espetáculo teatral, “Léo e Bia”, com a Cia. Os Insubmissos. Ela chegou em casa às 7h30, com o sol nascendo. “A sensação que eu tenho é que o mundo para quando a gente está dentro da sala de ensaio”, diz a atriz de 21 anos, queridíssima do público jovem: são 5,7 milhões de seguidores no Instagram. Apontada pela Forbes como um dos 91 maiores influenciadores do Brasil com menos de 30 anos, Isabella retorna aos palcos neste domingo (19/3), no Teatro Fashion Mall. É a protagonista feminina da montagem, dirigida por Leonardo Talarico (de “Amor e Ódio em Sonata”).

Estudante de Artes Cênicas na UNIRIO, a garota se tornou conhecida e ganhou fã-clubes em 2014, ao roubar a cena em “Malhação”. Karina, sua personagem, era a irmã da mocinha da temporada, mas foi Isabella quem chamou a atenção do público e da mídia. Foi eleita a revelação do ano no “Melhores do Ano”, da própria emissora, e também no “Troféu Imprensa”, no SBT. Emendou a minissérie “Ligações Perigosas” e a novela “A Lei do Amor”, além de ter aceitado os primeiros convites para fazer teatro. Fez “Cinco Júlias” (2016), do dramaturgo-cineasta Matheus Souza, interpretando uma adolescente lésbica que decide se suicidar por problemas com a mãe, e iniciou o processo de “Léo e Bia”, que durou um ano e meio. Bia é uma jovem que desiste do sonho de viver pela arte com seu grupo de amigos pela opressão da mãe, que representa a ditadura na peça.

– É sempre a história da personagem que me motiva. Em “Cinco Júlias”, fiquei muito apaixonada pelo roteiro. Eu acreditava muito na história. Acho que teatro é isso: tem que fazer pensando no que aquela peça tem para dizer e na mensagem que ela está passando. “Léo e Bia”, eu escolhi também por conta do processo. Estou há dois meses ensaiando a Bia e há um ano e meio no processo da companhia, que é um processo muito colaborativo. Eu estava ensaiando outra personagem e acabei mudando. Acho que o processo é o mais importante: o pensar sobre, criar junto. – Isabella conta ao Teatro em Cena, nas vésperas da estreia.

(Foto: Leonardo Talarico)

O longo processo envolveu ver e discutir filmes, ler muita poesia e aprimorar as técnicas de atuação. “Foi um ano que me amadureceu muito como atriz e como pessoa também”. “Léo e Bia” é um dos sucessos da carreira do músico Oswaldo Montenegro: a história é inspirada em sua juventude e acompanha um grupo de sete jovens tentando viver de arte em plena ditadura, em Brasília. Já teve montagens em 1984, 1998 e 2005, e virou filme em 2010 – longa-metragem que Isabella assistiu, mas se sentiu livre para fazer sua própria criação. Tão livre que até mudou uma fala da peça, até que Oswaldo fosse assistir a um ensaio. É a primeira montagem do espetáculo que ele não dirige.

– A gente encontrou com ele no show no Vivo Rio, e ele também já assistiu à peça em um ensaio aberto. Ele estava superansioso para ver. Ele adorou o espetáculo! A única coisa que ele pediu para mudar é que, numa última fala, eu tinha mudado o texto. O Léo falava para Bia “eu não tenho culpa da sua mãe ser assim”, e eu botei a Bia falando “nem eu”, só que a fala original é “mas eu tenho”. Ele me falou que a Bia se sente culpada. Eu estava levando mais para o lado da responsabilidade com a mãe, e ele a coloca nesse lugar da culpa. Da peça toda, a única observação dele foi essa. Ele falou “a Bia se sente culpada pela mãe, e é por isso que ela fica”.

TEATRO EM CENA: Tem visões que só o autor para passar, né?
ISABELLA – É! Sobre a Encrenca, que é feita pela Carol Garcia, por exemplo, ele falou: “nossa! A Encrenca que eu escrevi era muito fria e a que você está fazendo tem muito calor. Tá lindo! Adorei! Que bom ver assim esse outro lado da personagem! Nunca tinha pensado assim!”. Ele elogiou várias mudanças. Só ponderou isso para mim.

Como você conheceu o trabalho da Cia. Os Insubmissos e entrou para “Léo e Bia”?
Eu conheci através do Rodolfo Carvalho, que é um amigo desde a primeira escola de teatro que me formei. Ele está comigo há muito tempo, estava fazendo aulas na cia., e me sugeriu para fazer o espetáculo. O Rodolfo está comigo desde os 16 anos: a gente fez o primeiro curso técnico juntos, entramos na UNIRIO juntos…

Elenco e equipe com Oswaldo Montenegro (Foto: Reprodução / Instagram)

A preparação para essa peça levou mais de um ano. Para você, que está mais acostumada com a rapidez da TV, como foi mergulhar nesse processo longo?
Eu aprendi muita coisa nesse processo. Hoje em dia, tenho uma noção mais técnica de coisas que eu fazia muito instintivamente. O Leonardo Talarico, o diretor, acredita muito no teatro minimalista, no teatro de ator. Tem uns termos, que não sei se vou saber me expressar bem aqui. A gente trabalha muito em cima de verbo, tem a Gestalt da palavra, o trabalho de pertencimento, de ambiência. O Léo acredita muito que a compreensão vem através do texto, que a gente precisa compreender o que a gente fala. Muitas vezes a gente decora o texto como uma forma, uma métrica, e nesse processo eu aprendi a ter um pertencimento maior ainda do texto e da personagem. O Léo foi meu coach durante um tempo também, né. Além do trabalho da cia. que a gente se encontrava aos domingos, eu ia às segundas às aulas de teatro dele no próprio Fashion Mall, e se encontrava às vezes na semana porque estava fazendo um processo de desenvolvimento de atriz.

Você ensaiou a peça gravando a novela. Como funcionou essa logística?
Nesses últimos dois meses, que a gente fechou o elenco e definiu que eu ia fazer a Bia, a gente ensaiou todos os domingos e em todas as minhas folgas das gravações, que não são muitas. Geralmente, eu não tenho folga durante a semana. Mas se eu saio das gravações às 15h e só pego no dia seguinte às 13h, a gente pega ensaio no período da noite. A cada semana a gente encaixava conforme os horários da novela.

Você inicialmente não seria a Bia, personagem-título…
Na verdade, na primeira vez que entrei nesse processo, eu entrei para fazer a Bia, só que a novela ia estrear em novembro do retrasado. Entrei, fiquei sabendo da novela, e falei: “gente, eu não vou dar conta de construir duas personagens ao mesmo tempo. Eu vou sair”. Eu saí do processo, e a novela adiou. Quando eu soube, pedi para voltar, e a Bia Arantes já estava fazendo a Bia. Aí eu entrei fazendo outra personagem, que era a Encrenca. Mas acabou que o elenco mudou todo, teve a saída da Bia Arantes… Acho que um processo longo exige muito e a gente não está acostumado com processo, a gente está acostumado com montagem. Acabam surgindo outros compromissos, as pessoas vão saindo, ou se desestimulam… O Léo usa uma metáfora muito boa: tem um tronco de árvore, você sacode, o que ficar é o que tem que ficar mesmo, então acho que a gente está com o elenco certo. Depois de todos os elencos que já passaram… até eu mesma. Hoje, me sinto muito mais à vontade e com muito mais pertencimento fazendo a Bia. Tem muito mais a ver comigo.

Isabella Santoni, Diogo Monteiro, Guilherme Hamacek e Juliana Weinem: parte do elenco (Foto: Leonardo Talarico)

Várias atrizes já viveram a Bia. Você assistiu a esse material?
Eu vi o filme. As montagens, não consegui ter acesso porque são muito antigas. Mas as personagens estão um pouco diferentes, por mais que seja a mesma história. Principalmente a Bia. A Bia sempre foi montada de maneira frágil, como vítima. A Bia do filme é assim. E a nossa Bia é uma heroína. A gente trouxe força para a Bia. Ela abre mão do sonho por uma escolha, por ser responsável, e não fica se vitimando ou culpando as pessoas. A gente fez algumas mudanças para deixar a história mais interessante, conforme a gente enxergava.

A repressão da ditadura, que é o contexto da história, é materializada na mãe opressora e controladora dela. Você já viveu algo assim?
A mãe da Bia é a representação da ditadura na peça. Eu acho que algo tão sério como a mãe da Bia – porque ela realmente torturava a filha fisicamente – nunca aconteceu comigo. Nunca passei nem presenciei uma situação dessas, graças a Deus. Mas acho que a gente acaba passando por censuras. A gente vive em sociedade, então tem coisas que a gente tem que tomar cuidado para falar, como falar. Rola uma censura mais – vamos dizer – turva. Não é algo como a mãe da Bia, que era uma coisa muito direta e obsessiva.

“Léo e Bia” trata principalmente de resistência, a partir desse grupo de artistas em plena ditadura. De que modo você acredita que vive essa resistência hoje em dia?
Essa resistência, acho que está muito nas redes sociais. Vejo meus amigos se mobilizando, se unindo por causas, então acho que a galera está se unindo aí. Acho importante a gente fazer teatro também. É um contato muito direto com o público, e muito artesanal. A gente está muito acostumado ao virtual da Internet, do Instagram, da televisão. Acho que esse contato do humano sensibiliza muito as pessoas. Eu espero que a gente consiga rodar a peça pelo Brasil, porque meu último espetáculo eu não consegui rodar. Esse é um espetáculo que acredito muito. Fala de temas que, para mim, são muito pertinentes e eu quero poder contar essa história para muita gente. Tomara que a gente consiga rodar o Brasil. Esse contato com o fã, com o público, é muito importante.

O que mais te atrai nessa peça?
Eu não posso nem falar a luta pelo sonho, porque a Bia abre mão do sonho dela… Mas o que me atrai na peça é o grupo, né. Até postei uma foto falando disso. Eu escrevi que a galera é muito doida e o que une a gente é o amor pela arte, a vontade de fazer. Eu não consigo nem explicar para alguém o que acontece quando a gente está junto. Acho que é todo mundo tão apaixonado pelo ofício e por contar uma história, que a sensação que eu tenho é que o mundo para quando a gente está dentro da sala de ensaio.

Você fez “Cinco Júlias” e agora “Léo e Bia”. Qual a importância do teatro na sua recente carreira?
É minha segunda peça, e vai ser a primeira vez que vou ficar em cartaz sexta, sábado e domingo. Acho que “Cinco Júlias” foi um primeiro passinho no âmbito do teatro. Para mim, o contato com o público conta muito. Poder ver o rosto de quem está me assistindo e poder conversar com as pessoas depois do espetáculo. É muito importante saber o que elas pensam, e é tão gratificante. Em “Cinco Júlias”, eu ouvia muito “me reconheço na sua personagem”, “tenho uma relação difícil com as minha mãe”. As pessoas se abrirem com você é tão bonito, esse lugar sensível e humano. E, pra mim, como atriz, estou me descobrindo cada vez mais em relação à técnica, ao corpo. O teatro tem outra exigência da gente. Não tem comparação teatro com televisão: é uma outra energia. E meu amadurecimento como atriz no teatro tem me ajudado muito também na TV. Estou cada vez mais consciente das minhas escolhas em cena.

(Foto: Flora Negri)

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SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 20h. R$ 60 (sex) e R$ 80 (sáb e dom). Classificação: 12 anos. De 19 de março até 7 de maio. Teatro Fashion Mall – Estrada da Gávea, 899 – São Conrado. Tel: 2422-9800.