Não por acaso, eu que sou extremamente observador, acabei fazendo carreira numa profissão em que o ser humano é matéria-prima principal. Sim, eu trabalho com pessoas, para as pessoas e acho isso um grande barato, porque estar próximo de vários universos pessoais é, no mínimo, curioso e divertido. As pessoas são muito diferentes entre si, mas o que é mais surpreendente, e eu não sei exatamente por qual motivo, é que elas têm me parecido quererem ser uma mesma pessoa.

O mundo tem nos ampliado os horizontes. Cada vez fica mais fácil conhecer e saber o que anda acontecendo no outro lado do planeta, ou apenas no vizinho. Essa exposição a tudo e a todos faz a gente perceber como o mundo é tão diverso e, por isso, interessante. Mas, ao contrário de usufruir dessa diferença como combustível para uma produção artística mais variada e complexa, tenho percebido que as escolhas ficam restritas aos modelos do que “funciona”, tornando-se únicas verdades e restringindo as possibilidades no que diz respeito à prática. Tudo vira a mesma vontade, o mesmo gosto, o mesmo sonho. As pessoas deixam de querer o que é bom para si, para ter a vontade do outro.

É natural que as inspirações venham dos exemplos do que deu certo ou do que se admira, mas essas deveriam ser apenas o ponto de partida e não o objetivo final. Eu comecei a atestar essa padronização de comportamento, quando um amigo, que não é brasileiro, me chamou a atenção ao assunto e me perguntou porque é que no Brasil todas as atrizes de novela pareciam a mesma pessoa? Com o mesmo cabelo, tom de pele, maquiagem… Eu nunca tinha parado para reparar – até porque isso é uma bobagem -, mas percebi, que não é que funciona um pouco assim mesmo?! O time que está ganhando, vai dando certo, ganha espaço, repetidores e, quando se vê, está instalada a monotonia.

Tá certo que o mercado costuma exigir das pessoas o que se considera “padrão de qualidade”, e os aspirantes, claro, buscam atender a essa demanda para conseguir uma colocação ou sobrevivência nele. E é aí que a referência ganha força mesmo! Todos buscam se igualar ao que está em destaque e, por ora, em evidência de sucesso. Contudo, observando o comportamento de muita gente, eu tendo a pensar que as exigências do mercado não são responsáveis por isso, mas o fato de que as pessoas deixaram de se admirar como universo singular, que a individualidade foi colocada à prova, a diversidade subjugada e todos parecem buscar a mesma coisa. Ao invés de buscar os caminhos que lhes poderiam levar ao aperfeiçoamento individual, as pessoas preferem se lançar na expectativa de alcançarem o que, à primeira vista, é o mais desejado pelo grupo no qual está inserido, ou seja, o sonho do outro.

Não é porque fazemos parte da mesma profissão, da mesma área, da mesma cidade e temos a mesma idade, que precisamos ser a mesma pessoa. Cada vida é construída a partir de vivências muito individuais, com cargas emocionais distintas. Eu não acredito que os sonhos e os anseios de cada integrante dos grupos possam ser os mesmos. Pelo contrário. Eu acredito que as histórias de sucesso devem ser admiradas, sim, e servirem de inspiração e motivação para que cada um conte e escreva a sua própria narrativa.

Como artistas, precisamos enaltecer que a multiplicidade das pessoas é o que nos enriquece. Precisamos ser contra a padronização das pessoas. Individualmente construir nosso próprio selo de qualidade e mostrar que a diferença constrói um mundo mais interessante e diverso. Em um tempo em que a exposição da figura e das opiniões é senso comum através das redes sociais, eu, particularmente, desejo que as pessoas tenham coragem de inovar, de subverter e de não se copiarem. Que os sonhos sejam individualmente próprios e não de um grupo, que a referência admirada não seja o objetivo final e que através da arte, que é o canal ideal para isso, a gente prove que para dar certo não precisa ser igual, precisa ser bom!

Diego Morais é diretor.