(Foto: Annelize Tozetto)

A convite do Festival de Curitiba, quatro artistas que foram centro de polêmicas em 2017 se reuniram para criar uma obra inédita, chamada “Domínio Público” e apresentada na última semana no Teatro da Reitoria. A expectativa era enorme: como o “nu da bolha”, o “nu do MAM”, a “mãe da menina do MAM” e “a travesti que interpreta Jesus” responderiam artísticamente aos ataques recebidos e, principalmente à ameaça à liberdade de expressão? O resultado dividiu opiniões e não correspondeu às expectativas de quem esperava mais furor ou ousadia. Para começar, os quatro, no geral atacados por narrativas referentes ao corpo, permaneceram completamente vestidos todo o tempo: um choque inverso, talvez? O espetáculo, uma espécie de palestra sobre “Mona Lisa”, a pintura de Leonardo da Vinci, não tem nada a ver com os episódios que os marcaram. E, ao mesmo tempo, tudo a ver. Com a “aula” que forncem para a plateia, Maikon K, Wagner Schwartz, Elisabete Finger e Renata Carvalho mostram como histórias externas à obra podem alterá-la definitivamente: “Mona Lisa” seria tão icônica se não tivesse sido roubada em 1911 e trouxesse marcas de agressão? Eles defendem, em resumo, que o assalto alterou para sempre o fluxo da história, concedendo o caráter célebre da pintura, que atrai aglomerações de turistas diariamente no Museu do Louvre.

Corta para 2017. Wagner Schwartz faz mais uma apresentação da performance “La Bête” no MAM de São Paulo: o performer convida o público a usar seu corpo nu como um dos objetos da série “Bichos” (apresentada por Lygia Clark em 1960), que permitiam manipulação manual. A coreógrafa Elisabete Finger assiste à performance, acompanhada da filha pequena, e a menina mexe no pé de Wagner. Alguém filma e o vídeo, retirado de contexto, levanta uma discussão sobre pedofilia, irresponsabilidade materna e censura à arte. Wagner recebe ameaças de morte e, mais tarde, espalham o rumor de que realmente morreu. No mesmo ano, Maikon K foi detido por se apresentar nu, dentro de uma bolha, em frente ao Museu Nacional, em Brasília, como parte do festival Palco Giratório. Sua performance “DNA de Dan” foi acusada de “ato obsceno”. Já o caso da atriz Renata Carvalho realmente foi parar na Justiça: o monólogo “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, apresentado por ela, teve a sessão cancelada no Sesc Jundiaí porque o juiz Luiz Antonio de Campos Júnior entendeu que ela ridicularizava objetos sagrados e a dignidade cristã. O motivo: ela ser uma travesti interpretando Jesus. O interessante: “La Bête”, “DNA de Dan” e “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” já existiam, já tinham feito apresentações sem qualquer balbúrdia, e só ganharam notoriedade por conta de… fatos externos à obra.

Elisabete Finger e a filha interagindo com a performance de Wagner Schwartz: escândalo na Internet (Foto: Reprodução)
“DNA de Dan”: acusado de ato obsceno, performer recebeu pedido de desculpas do governador de Brasília após protesto de 115 artistas, também nus (Foto: Foto: Faetusa Tezelli/Divulgação)
“O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”:
espetáculo censurado em Jundiaí por pressão religiosa (Foto: Ligia Jardim)

Volta pra 2018. No site do festival, a sinopse de “Domínio Público” diz: “nesta peça, os quatro se colocam diante do público – sem a intermediação de plataformas digitais, telas de computador ou telefones celulares – com microfones abertos para amplificar o que sabemos sobre aquilo que pensamos”. Por que, então, eles não usaram o espetáculo para responder diretamente ao confronto ao qual foram lançados? “A timeline muda muito rápido”, disse Maikon K no debate que sucedeu a estreia. Para ele, a controvérsia esfriou. Faz sentido: as pessoas que ameaçaram Wagner de morte e os religiosos ofendidos com o trabalho de Renata não estavam na porta do teatro fazendo quaisquer protestos desta vez. É outro ponto: fake news podem destruir uma vida, mas logo são substituídas por outras mais quentes e recentes. “Debatemos como se criam as ficções e como as pessoas aderem a elas. Qual a sua responsabilidade quando lança a versão de uma história na internet?”, provoca Maikon. Outro ponto: a maior parte das críticas e ataques com os quais tiveram que lidar veio de pessoas que nunca assistiram às suas apresentações.

– Tudo o que aconteceu doeu muito para os quatro. Durante os ataques, ficamos em silêncio. Eu recebi 150 mensagens me ameaçando de morte, queria uma parede blindada no teatro, achava que alguém poderia me dar um tiro. – compartilha Wagner – Repensei em tudo que me aconteceu. A ideia era falarmos de nós mesmos, mudando de assunto.

(Foto: Humberto Araujo)

O que se viu no Teatro da Reitoria – sem cenários, figurinos, iluminação elaborada, e muito menos personagens – foi o resultado de um mês de criação, bom para os artistas externarem seus remorsos, ainda que o público pouco tenha acesso a isso na apresentação final. Segundo Renata, eles estavam adoecidos e com medo de se expor durante o processo criativo do espetáculo encomendado. “Foi nessa junção dos quatro que a gente começou a falar”, diz. Elisabete, principalmente, tinha mais resistência. Ela foi alvo de todo tipo de especulação e julgada por pessoas que não sabiam nada de sua vida ou da sua filha. Sua autoridade como mãe foi questionada em mesas redondas e fóruns online. “O teatro é o meu lugar de fala. Para mim, que estava lá [na sessão de ‘La Bête’] como público, é muito difícil aceitar que eu precise me justificar sobre isso”, explica, “debatemos muito o que a gente iria falar depois que tanta coisa já foi dita. E, ao mesmo tempo, esse discurso parece ter sido muito esvaziado”.

— Na peça, enfim, há a nossa versão, o olhar de cada um sobre os ataques que sofremos, assim como o olhar coletivo que construímos ao longo do processo sobre tudo que vivemos — Renata Carvalho diz em entrevista ao jornal O Globo — Falo sobre corpos dissidentes, machismo e patriarcado porque sentimos que precisamos balançar essas estruturas, mas do nosso jeito. E o que a gente está fazendo aqui é balançar tudo isso por debaixo da Terra, nas entranhas, falando, por exemplo, da origem e da história por trás dos ataques à arte e aos artistas.

(Foto: Annelize Tozetto)