PORTO ALEGRE – Na noite do último sábado, dia 24 de março, a classe teatral porto-alegrense estava reunida para a tradicional entrega do 41º Prêmio Açorianos de Teatro Adulto e 37º Prêmio Tibicuera de Teatro para Crianças. Tratam-se das duas maiores honrarias das artes cênicas no sul do país e que, diferente do que acontece no Rio de Janeiro e em São Paulo, não são concedidas por alguma entidade, mas pela Prefeitura da Cidade através da Secretaria Municipal de Cultura. Desde o ano passado, o prefeito de Porto Alegre é o senhor Nelson Marchezan Júnior (do PSDB) e o secretário é o Comendador Luciano Alabarse, muito conhecido por ter sido, durante mais de duas décadas, o coordenador geral do Festival Internacional Porto Alegre em Cena.

O que se viu foi inexplicável: uma ofensa à classe artística, uma ofensa ao prêmio, uma ode ao mau gosto. Nunca se ouviu falar de que alguma classe artística jamais tenha passado por tamanha vergonha no país. Abaixo, com base nos depoimentos de dezenas de profissionais das artes cênicas do Rio Grande do Sul, vem a descrição do momento.

O convite: uma promessa pouco clara

Durante décadas, os Prêmios Açorianos e Tibicuera foram entregues em cerimônia especial dentro do Teatro Renascença, uma sala de espetáculos do Município de Porto Alegre relativamente grande e confortável. (Deveria ser no Theatro São Pedro, que também é público, porque esse é maior, mais bem estruturado e muito mais condizente com a nobreza da classe artística gaúcha.) Sempre foi, como em qualquer lugar do mundo, um momento especial para a classe artística festejar, rever os amigos e colegas, celebrar o ano e conhecer os destaques da temporada na opinião dos jurados.

Nesse ano, a classe foi surpreendida com um convite diferente. O evento recebeu o nome de “Festa das Artes”, uma atividade aberta ao público em geral. Nele haveria a entrega dos dois prêmios de teatro, mas também o 11º Prêmio Açorianos de Artes Visuais. No convite, veio uma frase enigmática: “em cerimônia que pretende brincar com limites estéticos e a experimentação contemporânea”.

Dentro da programação do aniversário de 246 anos de Porto Alegre, a tal “festa” teria, além de DJs, um quadro vivo da obra “Os caciques”, de Carybé, ao som de trechos de “Navio negreiro”, de Castro Alves, e da música “Índio”, de Caetano Veloso. Uma performance chamada “Cabeça de terra” e a exibição de um vídeo chamado “Como matar um artista” também foram anunciados como parte da noite. A entrega dos prêmios seria às 18h30 e a festa começaria às 21h segundo o convite, tudo acontecendo no pátio do Centro Municipal de Cultura, onde ficam o Teatro Renascença, a Sala Álvaro Moreyra e o Ateliê Livre de Porto Alegre.

Alguns dos premiados da noite (Foto: Arquivo Pessoal)

Uma noite de horror

Choveu em Porto Alegre como há dois dias a previsão do tempo avisou que aconteceria. Não havia, porém, qualquer plano B. Esmagada dentro do saguão, a classe artística esperou por uma trégua no aguaceiro sem saber exatamente o que aconteceria. Como qualquer pessoa imaginaria, não apareceu ninguém que não fosse da classe, salvo os convidados dos indicados que estavam ali para festejar com os prováveis vencedores.

Perto das 19h30, após uma hora de atraso, uma voz em off começou a ser ouvida, indicando que talvez alguma coisa estava acontecendo. Havia, no local, dois telões armados para exibição de vídeos: um ficava do lado de fora do prédio, colocado como se fosse um toldo de maneira em que, para assistir às projeções, era preciso olhar para cima; o outro ficava dentro do saguão, pendurado sem qualquer requinte. Ali a gravação em off e as imagens exibidas começaram a anunciar os prêmios e seus vencedores categoria por categoria, sem citar os indicados e com extrema velocidade.

Sem qualquer Mestre de Cerimônias, sem apresentador, sem qualquer ritual, o maior prêmio das artes cênicas e plásticas do Estado do Rio Grande do Sul foi entregue por meio de uma voz sem corpo, vinda de uma caixa de som. Sem cumprimentos, sem discursos, sem agradecimentos, sem fotos oficiais, sem qualquer prestígio. Os troféus estavam sobre uma mesa, jogados a um canto. Os vencedores iam pessoalmente a essa mesa e pegavam eles próprios o seu prêmio. Como foram feitas na última hora, as estatuetas ainda estavam sujas de graxa. E nenhum prêmio veio acompanhado de algum valor em dinheiro.

A comemoração?

Por causa do mau tempo anunciado, pouca gente conseguiu assistir ao quadro vivo que um grupo de atores apresentou por contratação da Secretaria de Cultura. A performance se resumiu a uma artista desfilando pelo público com a cabeça coberta. O vídeo exibido trazia uma pessoa escrevendo a palavra ARTE em várias línguas sobre um intenso tráfego de carros em zonas urbanas. Como era de se esperar, ninguém teve condições de apreciar essas três obras devido ao contexto em que elas foram envolvidas.

O clima era de desgosto. A banalidade da cerimônia e, através dela, do próprio ofício dos artistas premiados era tamanha que foi quase uma vergonha ter sido citado. Os indicados, que deveriam ter ficado felizes pela nomeação, se tornaram personagens anônimos. Não foi uma festa, mas um enterro das artes cênicas regado à água quente, pois o chopp e o crepe estavam sendo vendidos.

Fernando Zugno e Luciano Alabarse, em outro evento (Foto: Divulgação)

A repercussão negativa

Pessoalmente e nas redes sociais, a classe artística gaúcha está indignada. Em primeiro lugar, o conjunto de medidas que pontuam o sucateamento do prêmio levam à decepção e à tristeza. Depois, dentro do contexto anterior, a estrema frieza da sessão também gerou choque. A cerimônia não tinha cara, nem voz, nem corpo. O secretário de cultura Luciano Alabarse estava presente, como também Fernando Zugno, coordenador de Artes Cênicas e responsável pelo evento. Nenhum dos dois, porém, se manifestou, mantendo inabalável o silêncio que vêm praticando diante das inúmeras críticas que o governo vem recebendo a cada nova medida tomada sem diálogo com a classe e com a população. Por fim, a não abertura de microfone para os artistas naquela que deveria ser a sua festa foi o pior de tudo.

Quando cerimônias como essa são televisionadas – em Porto Alegre, a RBS-TV transmitiu o evento pela TV-Com algumas vezes no passado -, o tempo limitado torna-se uma exigência. Não foi o caso desse ano. Sem motivo, a velocidade do anúncio dos indicados, atravessando qualquer aplauso ou manifestação, foi um trator sobre o que se chamou “Festas das Artes”. Na boca de todo mundo, ficaram engasgados os discursos de repúdio à atual situação política do país, do estado, da cidade e sobretudo do campo das artes cênicas.

As redes sociais, no entanto, não estão caladas. Todo o teatro gaúcho está se manifestando, pondo em cheque uma secretaria de cultura e uma coordenação de artes cênicas que se mostra repressora ao invés de parceira. Enquanto tentam, em vão, blindar Michel Temer, José Ivo Sartori e Marchezan Júnior, Alabarse e Zugno colocam suas carreiras em risco, colocam suas histórias no Porto Alegre em Cena na berlinda e se condenam ao ostracismo quando tudo isso passar.

Triste e revoltante

Sabe-se que a situação das contas da Secretaria de Cultura de Porto Alegre é horrível, tendo acumulado muitas dívidas ao longo dos anos. E que Luciano Alabarse tem se dedicado a organizar os pagamentos a fim de, do ponto de vista financeiro, construir um futuro melhor. No entanto, os tempos difíceis não precisavam se tornar terríveis com ações destruidoras como essa que se viu no Prêmio Açorianos e Tibicuera nesse último dia 24 de março, às vésperas do Dia Internacional do Teatro. Foi mais um tiro no pé tratar o Prêmio Açorianos como se fosse lixo, os artistas como se fossem indignos e o teatro como se fosse uma bobagem qualquer.

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Lista dos vencedores do Prêmio Tibicuera de Teatro para Crianças

Figurino: Daniel Lion, por Chapeuzinho Vermelho
Iluminação: Lucca Simas e Bruna Immich, por Plugue: um desvio imaginativo
Trilha Sonora: Álvaro RosaCosta, por Chapeuzinho Vermelho
Produção: Primeira Fila Produções, por A Arca de Noé
Dramaturgia: Fábio Castilhos, por Viajante das Galáxias
Atriz coadjuvante: Juliana Wolkmer, por O Mirabolante Rei das Tretas
Ator Coadjuvante: Gustavo Dienstmann, por Plugue: um desvio imaginativo
Ator: Guilherme Ferreira, por Chapeuzinho Vermelho
Atriz: Nora Prado, por Tem Gato na Tuba
Direção: Camila Bauer, por Chapeuzinho Vermelho
Espetáculo + Prêmio RBS TV: Chapeuzinho Vermelho

Guilherme Ferreira em “Chapeuzinho Vermelho” (Foto: Divulgação)

Lista dos vencedores do Prêmio Açorianos de Teatro Adulto

Atriz Revelação: Dani Reis por Vermelho Esperança
Ator Revelação: Lauro Fagundes por GRANDES bênçãos/daDIVAS preciosas
Diretor Revelação: Anita Coronel por Vermelho Esperança
Espetáculo Revelação + Prêmio RBS TV: Família Labdácidas
Prêmio Tibicuera de Artes Cênicas – Cenografia: Margarida Rache, por Plugue: um desvio imaginativo
Cenografia: Rodrigo Shalako por Imobilhados
Figurino: Daniel Lion por Chapeuzinho Vermelho
Iluminação: Guto Grecca por Valsa #6
Trilha Sonora: Leonardo Machado, Priscilla Colombi e grupo por Fala do Silêncio
Produção: grupo Máscara EnCena por Imobilhados
Dramaturgia: Luciano Mallamann por Ícaro
Atriz Coadjuvante: Ângela Spiazzi por Bernarda
Ator coadjuvante: Henrique Gonçalves por Chapeuzinho Vermelho
Atriz: Denizeli Cardoso por Nas Sombras do Coração
Ator: Andrew Tassinari por Prata Paraíso
Direção: Liane Venturella por Imobilhados
Espetáculo + Prêmio RBS TV: Prata Paraíso

Andrew Tassinari em “Prata Paraíso” (Foto: Divulgação)