(Foto: Divulgação)
Os ouvidos atentos do público

Há poucos anos, eu decidi produzir um CD. Algo que mostrasse, além do lado cantor, meus trabalhos de composição, arranjo e direção musical. Seria, na minha cabeça, um álbum (me agrada bem mais a palavra “disco” mas parece que já não se usa…) do jeito que eu acredito. Aquele disco! Música feita do jeito que eu gostaria de ouvir, enquanto consumidor de discos, álbuns ou o que seja. A única forma de conseguir realizar algo assim, com essa autonomia, é colocar uma das mãos na massa e a outra no bolso. Com uma terceira mão, uma mão surpresa, uma mão que a natureza dá de presente pra todo e qualquer artista que decide caminhar e fazer seu caminho, eu acenei convidando amigos queridos pra serem cúmplices no meu intento.

Os amigos vieram, o CD ficou exatamente como eu quis, sonhei e planejei, mas precisou ficar na gaveta por algum tempo. Tempo demais? O tempo certo? Não importa. Se ficou pronto e precisa ser lançado, é esse o tempo.

Dos meus braços, carinhosamente, para os ouvidos atentos do público!

Acontece que, de uns dias pra cá, tenho refletido muitíssimo sobre uma questão: eu tenho um público?

Vou explicar.

Venho trabalhando quase que exclusivamente em teatro e isso já faz alguns bons anos. Foram espetáculos, muitos deles, bem falados pelas plateias, críticos e pelos colegas. Tenho tido desde o início a chance de integrar bons elencos e ser dirigido por profissionais de renome. Não raramente sou parado na rua por pessoas que assistiram a espetáculos onde tomei parte, o que naturalmente sempre me enche de orgulho e alegria.

Orgulho por ser notado. Lembrado pelo meu trabalho.

Alegria sincera por saber que os teatros vêm sendo visitados, o que é sempre muito bom pra todo mundo.

Há, sem qualquer dúvida, um público interessado nos espetáculos dos quais participo, e, conquistado pelo trabalho que apresento. Mas como fazer pra atrair a atenção desse mesmo público para um projeto novo, pessoal, autoral, me colocando, na cara e na coragem, como o nome no centro do cartaz?

Em qual momento da vida de um artista se dá aquele instante mágico em que as pessoas saem de casa, enfrentam trânsito, pagam estacionamento, compram ingresso e se sentam num teatro aguardando ele, aquele artista, aparecer no palco? Onde está escrito de que maneira o artista deve proceder quando chega aquele inevitável dia onde ele tem algo a dizer, e dizer à sua maneira e sente uma necessidade vital, diria visceral de ser ouvido? Uma imperiosa necessidade de se comunicar com o público… que público?

Não falo de grande público, festa do peão, ou algo que o valha. Sou artista de teatro e já fiz ótimas peças onde tinha mais gente encarnada no palco do que na plateia. Falo é da minha necessidade de atenção. Pulsa, ferve dentro do artista, mais que tudo, o desejo de ser ouvido. Mais que ser amado, mais que ser bem remunerado.

Acontece que o artista ama o que faz. É sempre apaixonado por seu ofício. Não que ele se baste. Nunca! Ele não sobrevive sem companhia.

Mas existe, para o artista, o prazer de cantar para o próximo e o prazer de simplesmente cantar.

A gente chama o público. Se ele vem, a gente canta. Se ele não vem, a gente canta. Porque a gente, sempre canta! A gente sempre canta e sempre fala! Isso é praticamente tudo o que a gente tem. É de onde vieram e vão vir todas as coisas que somos, queremos e podemos ser.

O desejo de ser ouvido, na estranhíssima cabeça de um artista, é sempre infinitamente mais imenso que qualquer tamanho de incerteza.

O público não é meu. Não precisa ser meu. Desde que venha, e, que venha disposto a ouvir o melhor de mim.

E se ele vier me ouvir, o público, garanto não vou decepcionar.

Porque a gente sempre canta, a gente sempre canta e sempre fala…

Wladimir Pinheiro é ator, músico, cantor e compositor.

O artista faz show de lançamento do álbum “Basta Acenar” no dia 27 de novembro no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes. R$ 40.