Há oito anos responsável pela festa “Chá da Alice”, o ator Pablo Falcão (de “Gato Branco”) acabou se afastando dos palcos para trabalhar nos bastidores, conforme o “Chá” cresceu e se tornou uma marca para shows de Anitta, Ivete Sangalo e Xuxa, entre outros. Mas ele quebrou seu hiato cênico, finalmente. De volta aos palcos, ele apresenta, com o Coletivo dos Vagabundos, o espetáculo “Eles Eram Muitos Cavalos”, em cartaz no Teatro Serrador, no Centro. A montagem é uma adaptação coletiva para o livro homônimo do escritor Luiz Ruffato, vencedor dos prêmios APCA e Machado de Assis.

(Foto: Gerson Dias)

Falcão estava afastado dos palcos há três anos, e sentia muita vontade de voltar a atuar. Com amigos na mesma pilha, marcou reuniões semanais para leituras de textos teatrais e livros, até que sua parceira Lucianna Magalhães (de “Gato Branco”) chegou com o livro de Ruffato. Era aquilo que eles buscavam: o consenso foi unânime, e o grupo passou um ano trabalhando na dramaturgia. Publicado em países latinos e europeus, o livro de ficção é composto por 69 “episódios” independentes, todos passados ao longo de um mesmo dia na cidade de São Paulo. O romance trata da polifonia urbana.

– Às vezes, a motivação do ator está em um personagem que deseja interpretar e às vezes está no que ele deseja falar. No nosso caso, o discurso do livro foi o que nos pegou. – pontua o ator e produtor em entrevista ao Teatro em Cena – Quando lemos “Eles Eram Muitos cavalos”, vimos vozes de pessoas que moram em uma grande metrópole, e o quanto elas se aproximam de nós. Seja através de um nordestino imigrante, seja através do cunho político de alguns textos. Para o Coletivo dos Vagabundos montar esse espetáculo é levar a voz da resistência para os palcos.

(Foto: Gerson Dias)

O processo de adaptação coletiva foi muito livre. O autor não fez nenhuma exigência, e incentivou que se apropriassem do texto. Ele só vai assistir ao espetáculo no próximo sábado (22/4), quando participará de um debate após a sessão. Sem supervisão, os atores puderam viajar. “Foram inúmeras alterações. A cada ensaio, mudávamos a ordem ou o próprio conteúdo. Só encerramos, de fato, quando o Alexandre Lino chegou para nos dirigir”, conta Pablo. O diretor, que vem desenvolvendo uma pesquisa sobre teatro documental, ainda não tinha lido o livro quando recebeu o convite, mas ficou profundamente interessado:

– Há na obra de Ruffato uma quase transcrição da realidade e uma intimidade tão grande em suas palavras, que só alguém que tenha vivido ou revivido de alguma forma aqueles eventos poderia ser capaz de transformá-los em literatura viva. – considera Alexandre – Enxerguei ali um eco no que tange ao olhar para o movimento migratório, a questão do pertencimento e o resultado proveniente das escolhas. Isso me perturbou de forma assustadora. Dirigir esse espetáculo é sem dúvidas um dos maiores desafios de minha trajetória, mas também um dos mais potentes.

A temporada vai até o dia 30.

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SERVIÇO: sex a dom, 19h30. R$ 40. 70 min. Classificação: 16 anos. Até 30 de abril. Teatro Municipal Serrador – Rua Senador Dantas, 13 – Centro. Tel: 2220-5033.