(Foto: Marília Cabral)

O elogiado espetáculo “Curral Grande”, do Coletivo Ponto Zero, volta ao Rio para mais uma temporada a partir de sexta (6/10). Revelando uma história oculta sobre um processo de “higienização social” no Ceará durante a seca de 1932, a obra cumpre temporada até o fim de outubro no Teatro Municipal Serrador, no Centro. Lucas Lacerda (de “In.com.patíveis”), um dos atores do elenco, traça um paralelo entre a história contada e o panorama sociopolítico atual: “em 1932, o governo impedia os imigrantes de chegarem na capital para que eles não trouxessem a pobreza e a miséria para o centro econômico do Ceará, que buscava se aproximar dos moldes europeus. Hoje, temos ações de políticos com o mesmo sentido representativo através de planejamentos urbanos das cidades brasileiras que dificultam o encontro entre o subúrbio e áreas nobres e ações que parecem priorizar um camuflamento das mazelas urbanas ao invés de dedicar um olhar mais atento à necessidade de diminuição da desigualdade social e a uma democratização de acesso da população aos espaços urbanos”. Difícil cariocas não se identificarem.

Em cartaz há três anos, “Curral Grande” já foi apresentado em várias cidades do país, divulgando uma parte da história brasileira que os livros fizeram questão de apagar. São cenas curtas, escritas por Marcos Barbosa (de “Quase Nada”), e apresentadas por quatro atores – além de Lucas, Carlos Darzé (de “Enlace – A Loja do Ourives”), Brisa Rodrigues (de “Ex.troll.gênio”) e Brunna Scavuzzi (de “Próspero e os Orixás – A Tempestade”). Eles dão vida a mais de 40 personagens. O texto foi criado após o dramaturgo ver uma reportagem do “Fantástico” que tratou dos campos de concentração cearenses. “Fazer ‘Curral Grande’ representa, para mim, desenterrar esses mortos. Dar voz a essas pessoas que não aparecem nos livros de história. E não me refiro apenas aos flagelados da seca de 1932, mas de uma grande população que não nunca esteve na historiografia oficial”, declara o diretor Eduardo Machado (de “Gastrono-mico”), que assina a montagem.

Segundo Lucas, a reação da plateia varia. Há quem se identifique pela história sertaneja e quem fique espantado ao tomar conhecimento do que aconteceu há menos de um século. “Apresentamos o espetáculo através de cenas independentes que representam diferentes perspectivas sobre a história, desde cenas com flagelados a cenas de uma família abastada, cenas com funcionários públicos e militares”, explica o ator, “ao final do espetáculo, sempre realizamos um bate papo com o público e esta troca foi essencial para nós amadurecermos a encenação com mudanças práticas no espetáculo e para entendermos mais a fundo a temática abordada em profundas discussões com os espectadores”.

(Foto: Marília Cabral)

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SERVIÇO: qui a sáb, 19h30. R$ 40. 70 min. Classificação: 12 anos. De 6 até 28 de outubro. Teatro Municipal Serrador – Rua Senador Dantas, 13 – Centro. Tel: 2220-5033.