Duas produções teatrais entraram em conflito no Shopping da Gávea, e quem pagou o pato foi o público. “O Grande Sucesso”, com Alexandre Nero, no Teatro Clara Nunes e “Renato Russo, o Musical”, com Bruce Gomlevsky, no Teatro das Artes, estão com um problema de vazamento de som desde que estrearam, juntas, no dia 10 de março. Por conta de uma obra inacabada, o áudio do musical rock vaza para o Teatro Clara Nunes, que fica no andar de cima, e o público sequer consegue ouvir as falas dos atores enquanto o rock é tocado abaixo. Diante do inconveniente, Alexandre Nero disse que não subiria no palco caso o problema não fosse resolvido no sábado (18/3) e a direção do shopping optou por cancelar a sessão de “Renato Russo, o Musical” inadvertidamente, com cerca de 100 ingressos já vendidos. Assim, Nero poderia se apresentar sem barulho. Os espectadores de Bruce, porém, chegaram para ver a peça às 21h30 e foram impedidos de entrar. Houve muito estresse, e gente tentando entrar à força, com ingresso não mão.

Tudo aconteceu de maneira confusa. O anúncio do cancelamento só foi feito oficialmente uma hora após o horário marcado para início da sessão, o que deixou a plateia mais revoltada. A princípio, o teatro apenas suspendeu as vendas para o musical, sem comunicar nada a quem já havia pagado de R$ 60 a R$ 120 para ver “Renato Russo” no sábado. Roberto Silva, advogado da produção de Bruce, imediatamente recolheu documentos, foi ao plantão do Tribunal de Justiça, e o juiz Rodrigo Moreira Alves emitiu uma liminar para que a apresentação ocorresse normalmente. Por isso, Bruce também foi ao teatro se preparar para atuar e cantar. No entanto, a administração do Teatro das Artes se negou a receber a liminar, segundo contam Bruce Gomlevsky e seu advogado.

– Eles estão se valendo de uma brecha. Depois dessa decisão judicial, precisa ir um funcionário do Tribunal da Justiça intimar o teatro e avisá-lo oficialmente de que existe essa decisão. Só a partir daí que eles estariam incorrendo em um crime ao se recusar a abrir o teatro. Foi o que eles fizeram: disseram que só abririam quando chegasse um oficial da Justiça. E todo mundo sabe que ele não chegaria, porque é um sábado, à noite, e o plantão está lotado de gente com liminares para serem internadas em hospitais. Aproveitaram-se disso, na verdade. – Roberto Silva explica ao Teatro em Cena – Na segunda-feira, vamos entrar com uma ação de ressarcimento de todos os prejuízos e danos morais. Fora as pessoas que estavam lá esperando para entrar e devem entrar com ações no Juizado de Pequenas Causas contra o teatro também. Toda atitude tem consequências.

Na porta do teatro, houve tumulto, com parte dos espectadores exaltados. Coube ao ator Bruce Gomlevsky deixar o camarim, indignado com a situação, para comunicar ao público o que estava acontecendo. Ele estava lá para trabalhar, mas não conseguiu subir no palco. “Eu tive que dar uma satisfação às pessoas no foyeur do shopping, porque acho um grande desrespeito deixá-las de pé esperando por tanto tempo”, Bruce conta ao site, “eu falei com o dono do teatro por telefone mais cedo, mas é sempre uma questão de se eximir da responsabilidade e culpar as produções: ‘que o som está alto, que isso, que aquilo’. Na verdade, a gente já baixou muito o som. Fiz uma concessão de fazer o espetáculo na semana passada com o som muito abaixo do original para não atrapalhar as outras pessoas, mas hoje veio uma decisão arbitrária à nossa revelia. Tiraram nossa venda do ar sem nos comunicar”. O ator ressalta ainda que seu espetáculo, visto por mais de 250 mil espectadores em mais de dez anos em cartaz, “é um dos maiores sucessos do teatro brasileiro e não pode ser tratado assim”.

PROBLEMA REAL

“O Grande Sucesso” e “Renato Russo”: conflitos por causa de som desde o primeiro dia (Fotos: Divulgação)

O vazamento do áudio, de fato, era uma questão nas duas últimas semanas. O público saía do Teatro Clara Nunes reclamando, e a produção de “O Grande Sucesso” se esforçava para esclarecer que não era a culpada pelo problema. Tanto ela quanto “Renato Russo, o Musical” foram pegas de surpresa com o início das temporadas e a acústica comprometedora. “Não tem tratamento acústico, então se ouve tudo”, explica Bruce.

No Facebook, o crítico teatral Renato Mello, do site Botequim Cultural, fez um post na sexta (17/3) criticando os teatros: “Minha tolerância com os teatros do Shopping da Gávea terminou hoje. Hoje foi o cúmulo! Fui assistir ‘O Grande Sucesso’ no Teatro Clara Nunes, mas durante toda apresentação vazava o som do espetáculo do andar de baixo, ‘Renato Russo, o Musical’ no Teatro das Artes. Nos momentos de silêncio e maior reflexão, a ambientação era invadida por ‘Ainda é cedo, cedo, cedo, cedo…’, e outras canções do repertório de Renato Russo. Um enorme desrespeito com o público e com os artistas de ambos os teatros, que cobram ingressos caros, entre R$ 80 – R$ 100,00 e igualmente cobram altas taxas das produções pela sua ocupação, tenham uma acústica tão ordinária. Não sei se a recíproca foi verdadeira em relação ao vazamento e nem qual dos teatros ter responsabilidade maior, creio que os dois”.

Procurado pelo Teatro em Cena, Fernando Gomes, administrador do Teatro das Artes, confirmou o cancelamento da sessão de “Renato Russo, o Musical” porque “a gente estava com problemas de som”. Ele não quis dar mais detalhes sobre a confusão e a responsabilidade do vazamento de áudio porque estava efetuando a devolução dos ingressos aos espectadores: “estou no meio do tumulto ainda”. Outros representantes do teatro não foram encontrados até o fechamento desta matéria.