A dramaturgia nordestina contemporânea está em foco na programação de outubro do Teatro Dulcina, na Cinelândia. O local é sede da ocupação “Porta Aberta – De Olho no Nordeste”, idealizada pelo ator, produtor e diretor Tom Pires. O espaço acomoda, desde o fim de semana passado, três espetáculos adultos, dois infantis, palestra, debate e oficina.

“Um Certo Lampião”, um dos destaques da ocupação (Foto: Trivia Produções)

– Em geral, o nordestino é atrelado à figura do retirante, tão bem retratado nos romances do genial João Cabral de Melo Neto (“Morte e Vida Severina”, “O Rio”, etc.), mas somos uma região de costa marítima, banhada pelo oceano Atlântico, não somos apenas sertanejos. Temos sertões, caatingas, agrestes e praias. Nossos novos dramaturgos estão antenados a essa pluralidade e , fora o sotaque e algumas expressões locais, nossa dramaturgia é universal, porque se propõe a retratar questões existenciais do homem, independente de sua região. É claro que não vamos ver num texto do realismo russo uma citação ao bumba meu boi, nem ao frevo ou as festas juninas, mas isso é a cultura de um povo. A dramaturgia precisa ultrapassar esse lugar para atingir ao todo. Isso já está sendo reconhecido, por exemplo, no cinema feito em Pernambuco, que é reconhecido mundo afora como grande representante do cinema brasileiro. – Tom Pires diz ao Teatro em Cena.

A pluralidade é percebida nas sinopses dos espetáculos que compõe a programação. “As Bondosas”, de Ueliton Rocon, trata do cerceamento da mulher dentro do conservadorismo e da influência religiosa; “Desatinos”, de Samuel Santos, trata de loucura e esquizofrenia; e “Um Certo Lampião”, de Gilvan Balbino, é uma ficção sobre o bisneto de Lampião, que vem a público revelar segredos de sua família. Há ainda os infantis “A Cumadre Fulôzinha”, sobre uma mulher que sequestra crianças não batizadas, e “Encanta Conto”, que usa narrativas populares adaptadas ao folclore e ao nordeste brasileiro. Esses infantis têm entrada franca.

– Queremos também ratificar nossa condição plural e atualizar o olhar das pessoas em relação ao teatro feito por nordestinos, aproximando o menino sertanejo do menino do Rio, ambos preservando seus respectivos sotaques e pertencentes a uma só nação brasileira. – diz Tom – Considero relevante a contribuição da cultura nordestina na formação do povo brasileiro e tenho a impressão de que esse lugar não é reconhecido por grande parte da população, portanto, quanto mais falarmos disso, mais consciência teremos de quem somos uma nação plural do ponto de vista étnico e político-social.

“As Bondosas” (Foto: Janderson Pires)

Confira a programação completa:

AS BONDOSAS – De sexta a domingo, às 19h.
Com texto do Maranhense Ueliton Rocon, o espetáculo aponta questões sobre o comportamento da mulher numa sociedade conservadora e a influência da igreja com seus preceitos religiosos; questiona as máscaras do convívio social, a liberdade de expressão e a repressão da igreja e da sociedade como fonte opressora do livre arbítrio. Com direção do Pernambucano Tom Pires, a montagem provoca uma maior reflexão destes temas, ao colocar um discurso feminista na boca de atores do sexo masculino, no caso, os também Pernambucanos Gerson Lobo, Leandro Mariz e Sidcley Batista, e o próprio Tom Pires que se reveza entre a atuação e direção do espetáculo.

Duração: 60 minutos /Recomendação: 16 anos / Gênero: Comédia / R$ 10,00 (meia).

DESATINOS – Quartas, às 19h.
Com texto e direção do Pernambucano Samuel Santos, a peça destaca as questões que acontecem nas pequenas e diversas cidades brasileiras. A loucura e a esquizofrenia são temas colocados à margem numa sociedade que atua dentro de conceitos morais pré-estabelecidos, deliberando, sem limites, suas convicções em desrespeito e detrimento ao outro indivíduo. A peça apresenta vários aspectos das relações humanas. A intolerância com as diferenças, seja ela em qualquer condição, definindo-se em manifesto partidário contra o outro. Na peça, o ator Gerson Lobo se desdobra em quatro personagens.

Duração: 60 minutos /Recomendação: 16 anos / Gênero: Drama / R$ 10,00 (meia)

UM CERTO LAMPIÃO – Quintas, às 19h.
Com texto e direção do pernambucano Gilvan Balbino, o espetáculo aborda uma narrativa fictícia do bisneto de Lampião, que desmistifica o homem lendário, representando um povo que resiste e luta contra o poderio das classes superiores. Através da ficção, o Bisneto de Lampião vem a público revelar segredos de sua família, que nenhuma biografia jamais revelou sobre uma das figuras mais temidas e admiradas da história recente do Brasil, o rei do cangaço, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. O espetáculo, em forma de monólogo, tem atuação do ator Sidcley Batista, que apresenta vários momentos e personagens da história do cangaço.

Duração: 50 minutos /Recomendação: 16 anos / Gênero: Drama / R$ 10,00 (meia)

PALESTRA – A Dramaturgia Contemporânea Nordestina
Mediada pelo professor e pesquisador Wellington Júnior. Pernambucano que dará duas palestras tendo como tema da ocupação – a Dramaturgia Contemporânea Nordestina e oferecendo uma visão panorâmica da produção dramatúrgica no nordeste, com referencia nas três últimas décadas. A palestra se assentará na análise crítica da obra de alguns dos principais autores deste período: Ueliton Rocon, Rafael Martins, Cleise Mendes, Ronaldo Brito, Luiz Felipe Botelho, Newton Moreno, Giordano Castro, entre outros. Analisará também as diferentes abordagens do texto em cena, considerando os processos colaborativos entre coletivos e escritores. Neste sentido, serão avaliados e discutidos espetáculos de diversas companhias nordestinas, tais como: Coletivo Angu, Grupo Bagaceira, Clowns de Shakespeare, Coletivo Alfenim e Bando de Teatro Olodum.

Dia 22/10 às 20h – com Newton Moreno e mediação de Wellington Júnior
Dia 04/11 às 16h – com Newton Moreno

DEBATE – A Construção e Desdramatização da cena
Debater a Desdramatização do trabalho do ator em “As Bondosas” fazendo uma reflexão de como o dramático se traduz na cena contemporânea a partir do trabalho de narrativa do texto, a partir do trabalho de movimentação na composição da cena, e como o processo de desdramatização pode resultar num tipo novo de teatro.
Dia 27/10 às 20h00min – com Wellington Junior e Claudia Pfeiffer.

· Palestrantes convidados: Wellington Júnior, Newton Moreno e Claudia Pfeffer.

OFICINA DE TEATRO E DESENVOLVIMENTO – Quintas-feiras, das 14h às 16h. GRATUITO.
Realizada sempre as quintas, a partir do dia 11 de Outubro, com término dia 08 de Novembro, totalizando 05 dias.

OFICINA TEATRO PARA PESSOAS VIVAS – Quintas-feiras, das 16h às 18h. GRATUITO
Oficina Teatro para Pessoas Vivas, elaborada para desenvolver a sensibilização artística de todo e qualquer cidadão, focado, principalmente, nas técnicas do teatro-desenvolvimento de Augusto Boal, que visa à valorização do ser humano e a potencialização de suas habilidades individuais e coletivas. A oficina tem como encerramento uma apresentação pública onde poderá constatar o desenvolvimento artístico de cada participante. A oficina será ministrada pelo ator-diretor-produtor teatral e arte-educador Tom Pires, com longa experiência em projetos sócio-educacionais.

Espetáculos infantis – GRATUITOS

A Cumadre Fulôzinha – 08 de novembro – às 15h.
Sinopse: Duas crianças vão passar férias no sítio do avô e lá se deparam com uma figura misteriosa: uma pequena mulher que vive na mata coberta pelos próprios cabelos e por flores. Essa mulher se diverte fazendo traquinagens com os animais e sequestrando crianças que não são batizadas. Ela é popularmente conhecida como A Cumadre Fulôzinha. Fulozinha. É chamada de cumadre, pois ela batiza crianças pagãs, simbolizado através das tranças que são verdadeiros nós. Como uma das crianças não é batizada, ela o sequestra, obrigando o avô e a outra criança a enfrentar os perigos da mata e artimanhas da Fulôzinha.

Encanta Conto – Espetáculo de Contação de Histórias – 18/10 às 15h.
Em uma época marcada pela urgência da informação e pela intolerância, é de suma importância levar aos palcos contos populares que já alimentaram a imaginação de tantas gerações mundo afora. Em geral, os espetáculos infantis são baseados em contos de fadas clássicos adaptados para as telas pelos grandes estúdios de cinema norte-americanos, neste caso, o grupo O QUE CONTA O SABIÁ usa narrativas populares como, Couro de Piolho, reescrita pelo folclorista brasileiro Câmara Cascudo; Rumpelstiltskin, compilada pelos irmãos Grimm, na Alemanha e as adapta para o nordeste brasileiro, incluindo sonoridade e canções populares executadas ao som de zabumba, triângulo, violão e instrumentos de percussão.