Um repórter perguntou se Lázaro Ramos, como diretor, usaria blackface no teatro

(Foto: Annelize Tozetto)

CURITIBA – Lázaro Ramos está participando do Festival de Curitiba apenas como diretor teatral em 2018. Ele divide a direção do espetáculo “O Jornal – The Rolling Stone” com Kiko Mascarenhas. Os dois realizaram uma coletiva de imprensa na manhã de segunda (2/4), para promover o trabalho, e Lázaro foi surpreendido com uma pergunta no mínimo estranha: “você em alguma circunstância, como diretor, cogitaria usar o blackface?”. Sem entender muito bem o porquê do questionamento, o baiano imediatamente disse que não, mas o repórter insistiu: por quê não? Pacientemente, Lázaro explicou: “porque tem vários talentos que precisam de trabalho, e não preciso fazer isso. Por que eu usaria?”.

O blackface é a prática de pintar de preto o ator branco. No século XIX e nos princípios do século XX, foi uma prática “comum”, porque era excluído dos negros o direito de estar em cena – fosse no teatro ou no cinema. Houve casos na TV também, inclusive no Brasil. Com a conquista dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e discussões mundiais sobre racismo, o blackface passou a ser condenável, porque – além de excluir uma parcela da sociedade de seus devidos papéis – a trata de forma estereotipada, em geral, com escárnio. Em resumo, o blackface é ofensivo.

(Foto: Annelize Tozetto)

– Você usaria? – Lázaro Ramos devolveu a pergunta ao jornalista.

– Eu não sou diretor.

– Mas, se fosse, usaria? Qual o sentido disso hoje em dia? Se você tem vários talentos que podem estar lá. Fizemos uma oficina para selecionar cinco atores e apareceram mais de mil inscrições. Tanta gente bacana não me estimula [a usar blackface]. Acho que é bacana a gente dar novos passos, e acho que tem um outro passo que nosso teatro precisa dar que é criar novas narrativas. Não sei nem o que [o blackface] acrescentaria a uma peça como essa que a gente está fazendo. – disse o ator e diretor.

O curioso é que a pergunta sobre blackface veio justamente depois da dupla de diretores sublinhar que 100% do elenco de “O Jornal” é negro. Eles realizaram uma oficina na TV Globo para seleção dos atores. Cerca de 80 artistas foram chamadas para as oficinas. “Neste workshop, a gente fomentava discussões sobre o tema da peça, além de aulas técnicas. Foi inclusive muito difícil chegar aos cinco atores que compõe o espetáculo, porque eram tantos talentos! Foi muito bonito”, lembra Lázaro.

(Foto: Annelize Tozetto)

– Você jamais faria um papel de branco? – o jornalista insistiu.

– Que pergunta capciosa, né? – Lázaro sorriu.

– Por quê?

– Porque eu sou negro, cara. Como é que eu vou fazer um papel de branco? O que é um papel de branco? Cite-me um exemplo de personagem que eu, com essa tez, não possa fazer. Quando você achar um exemplo, tu me diz.

“O Jornal – The Rolling Stone” fez uma longa temporada no Rio de Janeiro e segue em cartaz em São Paulo. O espetáculo sequer trata de racismo. A peça se passa em Uganda a acompanha os conflitos religiosos e familiares de um adolescente gay, obrigado a manter isso em segredo, porque o irmão é o pastor da Igreja, e o jornal local está publicando fotos e nomes de homossexuais como “denúncia” para a população. Até hoje, práticas homossexuais são consideradas crime na Uganda, com penas de 14 anos à prisão perpétua.

*O jornalista viajou a convite do Festival de Curitiba.