O autor de novelas Aguinaldo Silva entrevistou Luana Piovani (de “Mania de Explicação”) para seu site oficial, e a gravação de 53 minutos é capaz de proporcionar notas para sites de entretenimento por pelo menos uma semana inteira. A atriz, como se sabe, não tem papas na língua e não faz média ao dar sua opinião sobre qualquer assunto. Na entrevista, ela fala diretamente sobre sua relação com os paparazzi (comparados a “ladrões”), seu problema com Carolina Dieckmann (“só não quero mais brincar de ser amiga dela, como um dia quis“), seus ex-namorados e sobre a hipocrisia intrínseca do mundo artístico.

Há, também, muitos pensamentos saudáveis e raciocínios coerentes, que não vão ser reproduzidos pela grande mídia, pois não dão tanto ibope. Mas merecem atenção. Luana, gostem dela ou não, toca na ferida e fala o que ninguém quer falar – ou ouvir. O Teatro em Cena separou dez trechos da entrevista para quem não tiver 53 minutos disponíveis para ver o vídeo inteiro.

(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

Polêmica
“Não me acho polêmica. Eu acho polêmico o que está acontecendo hoje no Brasil. Isso para mim é polêmico. O diretor da nossa Câmara ter essas contas na Suíça: isso eu acho polêmico. O fato de eu ter uma opinião formada sobre… usar fio-dental na praia… gente, isso não pode ser polêmico. Isso é uma besteira. É uma opinião de qualquer coisa. O que eu escrevo no meu Instagram – isso não pode ser importante, não pode ser capa de site. Isso é uma besteira. O que é a rede social senão um passatempo?”.

Liberdade
“Eu sempre prezei muito pela liberdade, principalmente porque, quando eu optei por ter um contrato [com a TV Globo], tiraram minha liberdade e senti na pele isso. Quando acabou o contrato, falei: ‘não, vou continuar optando pela minha liberdade’. Então optei por não ter um contrato de longa duração, e faço contratos por obras. Por quê? Porque aí tenho a opção de escolher. Escolho fazer uma peça, um filme, uma minissérie, vou escolhendo as histórias que eu quero contar. Para mim, ator é um contador de histórias, muito mais do que uma profissão ou exatamente um ofício. Eu me dou esse direito. Para mim, tem uma coisa que acho super importante e é uma dádiva eu conseguir fazer: eu sempre me dou férias entre um trabalho e outro, coisa que eu vejo que meus colegas não conseguem fazer muito”.

Síndrome do pequeno poder
“Eu acho que o grande problema da novela não é um problema da novela, é um problema da Rede Globo, que se chama síndrome do pequeno poder. É um problema que assola, por exemplo, porteiros de boate. Porteiros de boate: todos foram picados por esse pequeno mosquito. É síndrome do pequeno poder: ele não deixa você entrar na festa, então ele manda mais do que todo mundo, mais do que o milionário que fechou o lugar e está servindo champanhe de R$ 5 mil a garrafa. É o problema da Rede Globo: síndrome do pequeno poder. Todo mundo lá dentro é muito poderoso e todo mundo acha que todo mundo tem que baixar a cabeça para todo mundo. E eu não concordo com nada disso. Eu acho que a camareira tem a mesma importância da mulher que serve cafezinho, que tem a mesma importância daquela pessoa que fica na porta do estúdio me dizendo qual é a próxima roupa que eu vou usar, assim como o diretor”.

Só se engana quem quer
“Já consegui apagar [vários perfis fakes]. Entrei em contato com o pessoal do Twitter e consegui apagar vários perfis, inclusive perfis que tinham 15 mil seguidores. Mas o que eu penso também é o seguinte: a pessoa segue lá um perfil, e eu acho que se ela quer seguir devia se dar o mínimo trabalho de checar aquela fonte. Se ela está sendo enganada, ela está sendo enganada porque ela quer. É só dar uma checada. Claro que de primeira mão você pode ser enganado. Mas, pô, você não pode seguir durante meses uma pessoa que não tem certeza que é ela”.

Incoerência e hipocrisia
“Isso para mim é muito simples. Eu não mando bem-casado para paparazzi na porta do meu casamento. Não mando lembrancinha do aniversário do meu filho para paparazzi na porta do aniversário do meu filho. Eu não entendo isso. Você não gosta de paparazzi, mas você dá oi, você manda beijo quando ele te fotografa, você manda docinho pra ele…. então você gosta!”

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Fazer social x parceria
“Eu lavo a mão de quem lava a minha. Para que eu vou ficar fazendo social com quem só faz social comigo quando convém? Claro que não, gente! Eu quero fazer parcerias na minha vida. Não quero fazer social”.

Amizade
“Eu sei cultivar amizade. Eu ligo, eu procuro, eu me esforço, eu vou visitar. Eu não deixo morrer, sabe? Eu sempre dou uma regada. Toda vez que encontro uma pessoa por quem eu me apaixono, por exemplo Irene [Ravache], que foi uma pessoa que me apaixonei e me recebeu de coração aberto. Eu falei ‘eu jamais posso deixar essa planta morrer, quero ser amiga de Irene para sempre’. Quero estar perto dela para sempre, e é isso. Eu tanto reguei, tanto fiz questão de estar perto, que somos amigas”.

Elogios
“Foi um ensinamento que a minha mãe me deu, há uns sete anos atrás, que eu acho que é um ensinamento novo: ‘não poupe elogios’. A vida está tão dura, que toda vez que eu acho que alguém merece elogios, eu vou atrás da pessoa e dou o elogio. A gente só critica, só recebe crítica. É tão bom quando alguém quer dar um elogio pra gente”.

Sobre legalização do aborto e das drogas
“Aborto é um tema difícil, porque eu acho que quem sabe do corpo da mulher é ela. É algo muito difícil de passar. Eu sofri um aborto espontâneo e sei o quão difícil é lidar com isso. Mas é uma realidade, e se é uma realidade a gente tem que enfrentar. Não adianta ficar dizendo ‘vou proibir o aborto’, como se o aborto não existisse. Eu acho que a gente tem que botar esse assunto em pauta e resolver, porque todo mundo que quer faz aborto: os menos favorecidos, morrendo de infecção, e os mais favorecidos, curando a depressão que dá passar por um aborto, em casa, tomando tarja preta. Drogas, a mesma história. Deve-se legalizar, porque existe o consumo e existe a oferta. Não me venha com mediocridade. Onde se quiser a droga que se quiser, no Brasil, se consegue. Mas tem muita gente ganhando com isso, então ninguém está interessado em legalizar. Eu falo isso politicamente, da parte da polícia também, tá todo mundo mamando na teta dessa vaca, enquanto a gente está financiando o tráfico. Eu acho que tem que ser legalizado e, sem hipocrisia, um assunto debatido”.

Violência doméstica
“É uma coisa difícil, porque as pessoas têm muita vergonha de passar por isso, então não contam as histórias, não assumem que passaram por isso, não denunciam. E aí fica tudo por isso mesmo e vira uma coisa corriqueira. Um amigo meu, uma vez, veio me contar que ouviu de um amigo nosso a seguinte frase: ‘ah, que besteira, um tapa na cara? Quem nunca, numa discussão, não tomou ou deu um tapa na cara?’. Oi? Daí você vê que tapa na cara é uma coisa que deve fazer parte da vida dele. Da minha, não fazia. Não adianta você cobrar o governo: ‘ai, violência doméstica, as leis…’. Você denunciou? Você foi lá? Deu sua cara à tapa? Você contou para alguém? Não? Então não cobre atitudes. Mas ninguém tem coragem”.