5 lições deixadas pela crítica teatral Barbara Heliodora

(Foto: Reprodução)

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Morta na sexta (10/4), com 91 anos e suspeita de pneumonia, a crítica teatral Barbara Heliodora deixa um grande legado para o teatro brasileiro. A análise dos seus textos, publicados nas últimas décadas no jornal O Globo (onde foi substituída por Macksen Luiz em 2014), por si só já revela um panorama dos altos e baixos do teatro brasileiro. Sua postura firme e durona, nada condescendente, virou sua marca e lhe trouxe respeito e credibilidade com os leitores e com a classe artística.

Muitos podiam evitá-la, outros tantos detestá-la, e quase todos temê-la, mas a importância do trabalho da Barbara Heliodora era reconhecida com unanimidade. Com certeza, era a dama da critica teatral brasileira, influência para várias gerações de críticos. Por isso, o Teatro em Cena organizou uma lista de cinco lições básicas pregadas por ela:

1) Crítica é para o público, e não para os artistas
Parece óbvio, mas é fácil se perder. Barbara Heliodora ressaltava que suas avaliações eram um serviço para os leitores. Quando alguém se propõe a escrever críticas de arte, deve-se ter em mente que é o público o seu destinatário, e não o ator em cena, o diretor, o dramaturgo… “Crítica não é para virar amigo de artista”. Se for por esse lado, será um desserviço.

2) Críticos têm que gostar muito de teatro (até mais do que os artistas)
Um crítico teatral assiste a mais espetáculos do que qualquer outra pessoa, incluindo a própria classe artística. Com a função de apontar o que vale a pena assistir, este profissional com certeza verá muita peça que não vale o tempo e o dinheiro gastos. Então, ele realmente tem que gostar muito de teatro. “O crítico tem que ter muita paixão, porque vê coisas horríveis, e continua acreditando no teatro”, já disse Barbara.

3) É balela a gentileza de “não fazer crítica baseada na estreia”
Há uma espécie de consenso de que estreias não valem para críticas – mas Barbara Heliodora era contra essa postura. Muitas vezes, diretores e produtores pediram que ela não fosse às estreias, porque deixaria os atores ainda mais nervosos, e isso poderia comprometer seu desempenho. Nessas situações, ela comprava o ingresso e ia assim mesmo. Sua explicação era: “Se não está pronto, não tem que estrear! Porque os críticos não podem ver, e o público pode pagar para ver algo mal feito?”

4) Crítico não é artista frustrado
Nada de “quem sabe faz e quem não sabe escreve sobre”. Barbara Heliodora sempre disse que não tinha a menor vocação para a vida artística. Ela chegou a fazer poucos trabalhos como atriz, mas eles serviram mais como experimentos para que ela tivesse certeza de sua posição: “O ator tem que ter um grande prazer em pisar no palco, e eu não tenho”.

5) Estudar sempre
Até o fim da vida, Barbara Heliodora estava estudando. Ela participava de um grupo de debate da obra de William Shakespeare – seu xodó. Considerada a maior especialista brasileira no dramaturgo, ela sempre relia seus textos e trabalhos a respeito de sua obra. Coisa de docente: ela também foi professora do Conservatório Nacional de Teatro e do Centro de Letras e Artes da UniRio.