Qual a importância de publicar em livro um texto dramatúrgico? Paulo de Moraes tem a resposta com muita clareza: “preservação da memória cultural”. Por isso, ele e o parceiro Maurício Arruda Mendonça estão publicando, em parceria com a editora Kan, a íntegra dos espetáculos “A Marca da Água” e “O Dia Em Que São Morreu”, montados pela Cia. Armazém. “Esses textos contam a história recente do Brasil”, Paulo declara ao Teatro em Cena.

Patrícia Selonk em cena de "A Marca da Água"
Patrícia Selonk em cena de “A Marca da Água”

“A Marca da Água” acompanha Laura, uma mulher de 40 anos, que é surpreendida pelo aparecimento misterioso e surrealista de um peixe enorme no seu jardim. A aparição perturbadora traz de volta sintomas de uma doença neurológica causada por um acidente na infância. A partir daí, ela passa a ter acesso profundo e muito nítido às suas mais antigas memórias. A peça venceu o Prêmio Shell de Teatro 2012 na categoria Melhor Autor e também foi reconhecida no Fringe First Award 2013, no Festival de Edimburgo, na Escócia. “Os temas que decidimos pesquisar são resultados da nossa inquietação sobre a vida contemporânea”, ressalta o dramaturgo.

“O Dia Em Que Sam Morreu”, por sua vez, retrata a falta de ética, abuso de poder e crise moral no universo da medicina, com foco nos hospitais. No espetáculo, o cirurgião-chefe Benjamin aplica métodos nada ortodoxos para subir na carreira, incluindo altas doses de fármacos para aplicar filtro próprio em sua realidade. A situação muda quando o jovem Samuel invade o hospital armado com uma pistola e disposto a confrontar Benjamin e o sistema. A peça marcou a estreia do ator Jopa Mores – filho do Paulo com a atriz Patrícia Selonk, também em cena. “Como sempre escrevemos nossos textos com os atores do Armazém em mente, isso também traz um grande conforto pra gente”, diz o dramaturgo. Novamente, o espetáculo recebeu o Fringe First Award no Festival de Edimburgo, além de receber o Prix Coup de Coeur (em Avignon) e ser indicado ao Prêmio Cesgranrio na categoria Melhor Autor.

O estreante Jopa Moraes com Otto Jr. em cena de confronto (Foto: Juliana Hilal)
O estreante Jopa Moraes com Otto Jr. em cena de confronto (Foto: Juliana Hilal)

Os lançamentos dos livros fazem parte do Projeto Memória, desenvolvido pela companhia desde 2002. Também foram publicados “Para Ver Com Olhos Livros”, com a história da Cia. Armazém em fotografias e pequenos textos, e “Espirais”, com textos analíticos sobre os 20 anos da companhia, completados em 2007.

“A Marca Da Água” venceu o Prêmio Shell de Melhor Autor em 2012 e “O Dia Em Que Sam Morreu” está indicado na mesma categoria no Cesgranrio. Qual o segredo da dramaturgia de Paulo de Moraes e Maurício Arruda Mendonça?
Paulo de Moraes – Não existe nenhum segredo. Na verdade, nossos textos são resultado de uma pesquisa que se inicia com os atores do Armazém. Os temas que decidimos pesquisar são resultados da nossa inquietação sobre a vida contemporânea. E o tempo que levamos produzindo material sobre esses temas vão dando pra gente uma grande intimidade com a pesquisa. Como sempre escrevemos nossos textos com os atores do Armazém em mente, isso também traz um grande conforto pra gente.

Recentemente, também foram publicados os textos das peças “Incêndios” e “Conselho de Classe”. Essa tendência reflete uma valorização da dramaturgia nacional ou uma melhora de qualidade em si? Qual a sua opinião?
Paulo de Moraes – As duas coisas. É um momento no qual ótimos textos vêm sendo escritos. Um monte de gente talentosa tem se aprimorado cada vez mais na dramaturgia e existe uma curiosidade grande sobre essa produção.

Você enxerga pré-requisitos para que espetáculos sejam distribuídos como livros? Qualquer peça pode ser publicada?
Paulo de Moraes – Qualquer boa peça deve ser publicada. Conhecer a obra em minúcias é sempre importante.

Qual a importância de lançar textos dramatúrgicos em formato de livro no Brasil?
Paulo de Moraes – Preservação da nossa memória cultural. Esses textos contam a história recente do Brasil.

A que público se destinam essas obras?
Paulo de Moraes – Ao público apaixonado por teatro, pela palavra, pela poesia.