A primeira vez de Hugo Bonemer: na comédia, em turnê e a convite

Nosso encontro com Hugo Bonemer (o Martin de “Malhação”) acontece na coxia do Teatro Popular Oscar Niemeyer, em Niterói. É a segunda vez que ele e os atores Anderson Di Rizzi (de “Júlio César”) e Daniel Rocha (“Amigos, Amigos, Amores à Parte”) apresentam a peça “A História dos Amantes”, depois de um fim de semana de ensaio aberto. Simpático e receptivo, ele conduz o Teatro em Cena para o amplo camarim, onde se joga em um sofá de dois lugares, cedendo espaço para o repórter. Mastiga uma guloseima que pegou na mesa do bufê. “Quer alguma coisa? Se quiser, pode aceitar. Pode querer”. Risos. Inicia-se a entrevista. Enquanto isso, do lado de fora, fãs fazem fila para assistir ao espetáculo.

(Foto: Priscilla Campos)

(Foto: Priscilla Campos)

O ator está em alta com o público juvenil. Além de “Malhação” na TV, foi visto nos cinemas com “Confissões de Adolescentes” nas férias de fim de ano letivo. No Instagram, acumula mais de 70 mil seguidores. Mesmo assim, ele foge do rótulo de sensação do público teen. Também não é figurinha fácil em sites de fofoca. Aos 26 anos, Hugo foge do estereótipo do ator iniciante deslumbrado. “É porque eu sei que aquelas pessoas não são minhas fãs. São fãs da TV Globo e de ‘Malhação’. Quando alguém te dá parabéns, está dando parabéns para uma coisa que foi feita em conjunto, com muito suor”, observa. “A televisão exerce uma magia que é diferente do teatro, e essa magia está mais relacionada à ‘Malhação’ e à TV Globo do que a mim. É a maior fria o cara entrar em uma novela e acreditar que aquele parabéns é para ele. O parabéns é porque a pessoa gosta de assistir a novelas na TV Globo”.

Filho da coreógrafa Marcia Angeli, Hugo cresceu nos teatros de Maringá, onde nasceu e foi criado. Na infância e na adolescência, fazia de tudo para ajudar nos espetáculos da mãe: era contrarregra, puxava as cordas para levantar e abaixar cenários, e até tomava conta das outras crianças. “Crescendo nesse universo, sempre tive isso como uma coisa natural para eu fazer”. Mas ele se formou em Comércio Exterior e trabalhou em uma multinacional por quatro anos. Foi um pequeno desvio, mas não total, porque uma vez por ano fazia algum espetáculo de fim de ano com a mãe. “Minha vontade sempre foi continuar com esse cheirinho de mofo de teatro”. Já adulto, também exerceu a função de dublador das montagens de Marcia. “Como são bailarinos e o foco é a dança, nós gravamos as vozes e eles dublam as falas. Eu gravava essas vozes, e escrevia para ela o argumento. Foi bom, porque foi meu laboratório e tive a oportunidade de fazer o que queria lá”. Depois, vieram os musicais das grandes produtoras, já no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Hugo Bonemer em dois momentos: em "Hair" (à esquerda) e "Rock in Rio - O Musical" (à direita). (Fotos: Divulgação)

Hugo Bonemer em dois momentos: em “Hair” (à esquerda) e “Rock in Rio – O Musical” (à direita). (Fotos: Divulgação)

Antes de ficar famoso na televisão, o paranaense trabalhou com José Possi Neto (em “Bark – Um Latido Musical”), Charles Möeller e Claudio Botelho (em “Hair”), e João Fonseca (em “Rock in Rio – O Musical”). “Quando você trabalha com esses caras, o que acontece é: vontade de trabalhar com eles de novo”, empolga-se. “É ao mesmo tempo aterrorizante, porque são gênios e geniosos, e uma experiência única, porque é o sonho de todo mundo que faz teatro musical”. As peças também exigiram mudanças para as capitais, e a saudade da família. No início, particularmente no Rio, Hugo estranhou o jeito ‘entrão’ dos cariocas. No Sul, as pessoas são mais reservadas, ele diz. “Foi algo que tive que me adaptar, e fiz com prazer, porque hoje vejo essa abertura de uma maneira mais positiva do que nunca. Como é legal você conhecer alguém em qualquer lugar da cidade!”. Perrengue ele não passou. Considera-se um cara de sorte.

Com “Hair”, vieram os convites para testes na TV Globo e em outras emissoras. “Malhação” não foi seu primeiro. Fez outros antes, e não passou, mas não ficou abalado. Gostava de sentir que havia interesse nele. Assim, surgiu o trabalho em “Preamar”, série da HBO, na qual interpretou um universitário envolvido com negócios ilícitos. No fim da temporada de “Rock in Rio”, acertou o contrato para a tradicional novela teen. Foi quando conheceu os ônus e bônus de fazer teatro e televisão simultaneamente. “Falei: dou conta. E rolou. Fiquei maluco, mas rolou”.

Hugo Bonemer, Daniel Rocha e Anderson Di Rizzi em "A História dos Amantes". (Foto: Divulgação)

Hugo Bonemer, Daniel Rocha e Anderson Di Rizzi em “A História dos Amantes”. (Foto: Divulgação)

Ainda em “Malhação”, Hugo Bonemer foi convidado por Marcelo Serrado (de “É o Que Temos Pra Hoje”) para um trabalho especial: sua estreia como dramaturgo e diretor. É justamente “A História dos Amantes”. Os dois são amigos há cinco anos e desejavam há muito tempo uma parceria profissional. “É a primeira vez que sou convidado para um papel. Isso é muito gostoso: alguém falar ‘quero você fazendo’”. Também é a primeira vez que ele faz comédia, o que é um desafio novo. Em suas próprias palavras, o ator sempre foi o garoto com problemas, esquisito, que sofre muito, que tem dores. Dessa vez, é um músico corno, viciado em sexo, com atração por mulheres acima de 92 kg. Em algumas cenas, interpreta também personagens femininos e chega a ficar de quatro diante do público, encoxado ora por Anderson Di Rizzi, ora por Daniel Rocha. “Aqui eu tenho um personagem engraçado. Meu objetivo é fazer rir, mesmo que eu em cena não deva me sentir responsável por isso, para não ficar fazendo macaquice”. No espetáculo, Hugo ainda canta sucessos do Cazuza, dos Beatles, do Lulu Santos e da dupla Chitãozinho & Xororó. Mas a novidade é mesmo a comédia. Para se sentir mais seguro, pediu a opinião de todos que assistiram aos ensaios abertos. Os amigos mais próximos também mandaram e-mails dizendo quais piadas eram legais, e quais não. Ele acredita que, nos próximos meses, outras alterações serão feitas, intencionalmente e naturalmente.

Depois de Niterói, o espetáculo sairá em turnê, antes de iniciar temporadas fixas em São Paulo e no Rio de Janeiro. As datas de Lages (29 e 30 de março), Salvador (5 e 6 de abril) e Joinville (12 e 13 de abril) já estão confirmadas. “No sábado que vem, gravo de manhã e depois pego o voo para fazer a peça”. Ele está especialmente excitado, porque será a primeira vez que rodará o Brasil com um trabalho. “Vou conhecer o Brasil, né? Eu não conheço o país que eu moro. Só estive em Natal, Brasília, Curitiba, Rio de Janeiro, interior de São Paulo e São Paulo. Agora vou conhecer Maceió! Nunca pensei que iria a Maceió para trabalhar!”, anima-se o ator que, ironicamente, invade casas de brasileiros do Oiapoque ao Chuí de segunda a sexta. Agora, ele quer fazer isso pessoalmente. “Na TV, não tenho essa resposta imediata do que curtiram, o que sentiram, se riram, o que funcionou ou não”, explica. “Quando acaba a peça e você sai na porta, ainda vê as pessoas com a alegria e a emoção latentes por terem visto aquele espetáculo. Você tem isso muito fresco. É uma troca e uma experiência inigualáveis”. Não tem jeito. Hugo Bonemer é rato de teatro. Até o fim do ano, vai fazer o que gosta: sentir o cheirinho de mofo.