(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Alessandra Maestrini não tem medo de se posicionar: assumiu sua bissexualidade publicamente no ano passado, participou do protesto contra o governo em março, e não foge das perguntas do Teatro em Cena durante uma entrevista para promover o espetáculo “Yentl Em Concerto”, em cartaz no Midrash Centro Cultural até 7 de maio. Sua postura é muito clara e não deixa dúvidas do que ela pensa ou defende, seja qual for o assunto. Mas Alessandra entende quem não é como ela e, no caso, prefere ficar quietinho na segurança do armário ou de cima do muro.

– Acho mais difícil para um ator do que para uma atriz se assumir, porque o Brasil é machista. – ela diz, dias antes da estreia da temporada carioca no Leblon – Eu acho muito bonita a postura que a classe artística tem nos Estados Unidos, que eles se colocam mais nessa questão. Por outro lado, como sou brasileira e convivo com a realidade brasileira, eu compreendo o porquê da dificuldade das pessoas se colocarem aqui. Um galã nos Estados Unidos ganha sei lá quantos milhões para fazer um filme. Depois do primeiro filme, se ele quiser se colocar, tudo bem, a vida dele está ganha. Um galã no Brasil que resolve se assumir está comprando uma briga muito maior. Quando você vê alguém se assumindo no Brasil, saiba que ele está tendo quatro vezes a coragem que precisa para um americano se assumir. Agora, isso não quer dizer que eu ache que a gente não tem que se posicionar. A gente tem que se posicionar, porque as coisas não mudam sozinhas.

(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

No ano passado, Alessandra escolheu a revista Caras para abrir uma questão pessoal, porque não aguentava mais fingir ser quem não era no dia-a-dia. Com preguiça de continuar fazendo um personagem publicamente, ela preferiu direcionar sua energia e seu foco para atividades mais construtivas do que disfarçar quem ela é. Na reportagem, fez questão de dizer que não estava se exibindo, e sim “se expressando”, porque não abriria mão de exercer sua identidade. Como pessoa pública, ela também tinha “consciência de que [sua característica íntima] afeta o todo”. O resultado foi positivo: ela garante que a grande maioria das pessoas aprovou sua atitude.

– Eu costumo usar a mesma expressão sempre que falo sobre isso: um tsunami de amor. Teve gente que gostou, e gente que não gostou. Mas digo que foi 98% de grande aprovação e muito agradecimento, de gente que falou ‘obrigada, agora é mais fácil para eu me posicionar’, ‘obrigada, agora é mais fácil para entender meu filho ou minha filha’… Tanta gente que falou ‘nossa, você quebrou minhas pernas, porque eu não sabia o quanto era preconceituoso e você falou de um jeito tão delicado que eu estou olhando para as coisas com muito mais compreensão, como eu era burro!’. Isso é maravilhoso. Eu acho que, não só sexualmente… A pessoa não fala ‘vou assumir minha sexualidade’, ela fala ‘vou me assumir’. É por isso que quando você me faz essas perguntas, e eu entendo, porque elas fazem sentido, mas eu não gosto de restringir, porque acho que é uma questão maior, de identidade mesmo. Hoje em dia, e talvez sempre, muita gente não assume a própria identidade – seja sexualmente ou não. Tem gente que não assume a profissão que quer escolher para a vida, é o que mais tem. Você poder assumir sua identidade é você poder assumir sua potencia e potencialidade.

(Foto: Divulgação / João Carlos Coutinho)
(Foto: Divulgação / João Carlos Coutinho)

É sobre isso que fala “Yentl” – o filme de 1983 produzido, dirigido e estrelado por Barbra Streisand, com uma trilha sonora que rendeu um Oscar. Assim como a americana, Alessandra produz e estrela o “Yentl Em Concerto”, com as músicas do longa-metragem. O espetáculo musical estreou em São Paulo no ano passado, dois meses após a capa da Caras, e tem tudo a ver com esse momento. A Yentl do título é uma judia que se traveste de homem para poder estudar no século XIX, porque a cultura pregava que mulheres deviam ficar em casa. Disfarçada na faculdade, ela se apaixona por seu colega Avigdor, que acredita que ela é um garoto, e se vê diante de um impasse. A personagem não é homossexual, mas sua trajetória perpassa pela questão da sexualidade e da identidade de gênero.

– O repertório do Michel Legrand é absolutamente encantador e desafiador. Eu me preparava para os meus shows e o meu CD cantando as músicas do filme, porque eu sabia que se conseguisse cantar as músicas de ‘Yentl’ eu podia cantar qualquer coisa. Eu fui treinando uma música por vez e, quando vi que tinha todas as músicas, falei: vou montar. Foi meio assim. Mas é claro que o filme me encanta, porque também consigo enxergar questões ali dentro relacionadas a quem sou. Mas isso acontece com tudo que eu faço. Tudo é um desabrochar da identidade. Meu show é isso, esse espetáculo é isso, os espetáculos que aceito fazer como atriz são isso, os que eu rejeito são porque não me identifico, todas as escolhas tem uma base de identificação pessoal. – Alessandra conta.

_____
SERVIÇO: qui, 21h. R$ 60. 70 min. De 16 de abril até 7 de maio. Midrash Centro Cultural – Rua General Venâncio Flores, 184 – Leblon. Tel: 2239-1800.