Renato Aragão em ensaio da peça (Foto: Divulgação)
Renato Aragão em ensaio da peça (Foto: Divulgação)

Quando Renato Aragão aparece, o frisson é imediato. Os fotógrafos clicam incessantemente; os repórteres se ajeitam nas poltronas, como quem quer ver melhor; e até o Dedé Santana se aproxima da entrada lateral do palco para assistir. O eterno Didi, personagem que o consagrou há cinco décadas, ainda nem chegou ao centro do palco quando a orquestra começa a tocar. “Calma! Tão com pressa?”, brinca o ator, com a simplicidade de seus quase 80 anos, se ajeitando na cadeira na qual começa a cantar “Meu Caro Barão”, de Chico Buarque (veja o vídeo aqui). É o dia da apresentação do musical “Os Saltimbancos Trapalhões” para a imprensa, na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca. O evento começou com mais de meia hora de atraso e o número do Renato foi o terceiro dos três apresentados. Havia uma expectativa inegável no ar – desse tipo de ansiedade que poucas celebridades nacionais conseguem gerar nos jornalistas. Afinal, é o Didi Mocó Sonrizep Colesterol Novalgino Mufumbbo… – trapalhão que cativou gerações. E é a primeira vez que ele é visto no teatro.

Nascido no Ceará, em 1935, o ator iniciou sua carreira na TV em 1960. Ícone popular, Renato protagonizou diversos programas próprios e emplacou dezenas de blockbusters no cinema. Em 2008, teve sua obra reconhecida ao receber um Kikito especial no Festival de Gramado (o que dividiu opiniões, é verdade). Em épocas de vacas magras na indústria cinematográfica brasileira, ele e sua RA Produções representavam garantia de bilheteria, muitas vezes com filas rodando o quarteirão dos cinemas. Com frequência criticada, a carreira do Renato é pautada em sucessos. Qual a necessidade, então, de se arriscar no teatro musical nessa altura da vida? Porque não há outra forma de ver essa empreitada: um grande risco. Renato não canta, não dança e, caso se jogue no chão para fazer palhaçada, corre o risco de não levantar mais. Em março, ele sofreu um infarto (na peça, ele faz uma menção bem humorada ao fato: “estou bem!”). Calvo e sereno, ele tem a seu favor a vontade e o suporte para se reinventar. Os grandes artistas se reinventam sempre. “Isso aqui é um vício. Peguei o vírus do teatro agora. Não peguei aquele vírus lá no hospital? Agora peguei esse aqui. Acho que vou fazer teatro sempre, forever”, afirma o ator, que não descarta a possibilidade de adaptar outros filmes para os palcos. “Pra mim, isso aqui é a verdadeira estreia. Tem que ter muito cuidado na hora de representar no teatro. Ao mesmo tempo que estão assistindo, estão fiscalizando”.

Mussum, Didi, Dedé e Zacarias em cena do filme: sucesso de bilheteria (Foto: Reprodução / Internet)
Mussum, Didi, Dedé e Zacarias em cena do filme: sucesso de bilheteria (Foto: Reprodução / Internet)

“Os Saltimbancos Trapalhões” foi um filme de 1981, dirigido por J. B. Tanko. Visto por mais de cinco milhões de espectadores (um das maiores bilheterias do país até hoje), é, pelo seu teor político, considerado um dos melhores trabalhos dos Trapalhões – grupo formado por Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. O longa fez os críticos se renderem à comédia, e emplacou vários sucessos na MPB, compostos por Chico Buarque. “Talvez eu tenha começado a me interessar por musicais por causa desse filme. Acho que é o filme dos Trapalhões que mais assisti”, aponta o diretor Charles Möeller. “Quando o Claudio [Botelho, diretor musical] deu a ideia de fazer essa adaptação, foi ótimo. Era juntar muitos ícones: Chico Buarque, Renato Aragão, Dedé, Roberto [Guilherme]. E é um filme pré-MTV, meio videoclipe”. É importante esse adendo: a produção é resultado de diversas convergências. O filme é adaptado do musical teatral “Os Saltimbancos”, que, por sua vez, foi inspirado no conto “Os Músicos de Bremem”, dos italianos Sergio Bardotti e Luis Enríquez. Agora, em movimento cíclico, o projeto volta aos palcos com um pouco disso tudo – mantendo a trilha sonora do longa. Fazem parte “Piruetas”, “Hollywood” e “História de uma Gata”.

Foi justamente o repertório de canções que estimulou Charles Möeller e Claudio Botelho a transformarem o filme em espetáculo musical. “O desafio era pegar as músicas do Chico e colocá-las de maneira palatáveis na boca dos personagens. No filme, os números cantados são ‘Hollywood’ e a Lucinha Lins ensaiando ‘História de uma Gata’. O resto são músicas que vêm como pano de fundo”. Na peça, elas aparecem entremeadas pela história, cantadas pela trupe do circo, com performances envolvendo patins, equilibrismo, trapézio, tecido e outras técnicas típicas desse universo. Renato Aragão só solta a voz na introdução de “Meu Caro Barão”, sentadinho em uma cadeira.

Cena do espetáculo musical (Foto: Divulgação)
Cena do espetáculo musical (Foto: Divulgação)

Convencer o comediante a embarcar nessa aventura, verdade seja dita, não foi exatamente fácil. Não era como se ele estivesse louco para fazer teatro. A intermediadora foi Giselle Prattes, sogra de Lívian Aragão, uma das filhas do ator, também presente no elenco. Ela tinha feito um curso com Moeller e Botelho e os apresentou ao Renato em um jantar. “Quando a Giselle marcou, fiquei em pânico. Não sabia como sentar na frente do Renato. Não sabia como falar. Ele pega em um lugar muito particular, do emocional, do afetivo, de ver aquele personagem da infância”, destaca Möeller, com a mão de Renato apoiada em sua perna, durante a coletiva. Agora super próximos, com uma relação mútua de gratidão, eles no início tiveram que se convencer enquanto se conheciam. Renato ainda estava resistente – não pelo fato de nunca ter feito teatro. Ele tinha medo de “não estar à altura dos gênios”, como se refere aos diretores. “Eu também perguntei a eles: ‘vocês vão colocar aquele filme no palco?’ O filme é de uma diversidade de locações sem limites. Eles disseram ‘vamos’, e colocaram mesmo. Vão aparecer três leões no palco! É indescritível!”.

Uma preocupação de Charles Möeller foi dar espaço para que Renato também criasse em cima do texto. É comum que o ator faça suas piadas extra-roteiro e depois retome a cena escrita. “Tinha que continuar com o mesmo humor deles. Eu não queria transformar o Renato, o Dedé e o Roberto em personagens apáticos no musical. Fiz todo um trabalho em volta, uma manjedoura, para eles brilharem”, explica o diretor, que teve cinco semanas e meia para levantar o espetáculo. Quando Renato e Dedé começaram a ensaiar faltavam 25 dias para a estreia, e houve muita emoção no encontro do elenco com os ídolos. “Para mim, foi muito difícil não chorar todos os dias [de emoção]. Quando ele chegou, a gente chorava todos os dias – não só eu como todo o elenco. Tive que segurar minha onda para tocar aquilo. Foi um casamento muito feliz de todos nós”, explicita Möeller.

Charles Möeller, Renato Aragão, Dedé Santana e Claudio Botelho na coletiva de imprensa na Cidade das Artes (Foto: Leonardo Torres)
Charles Möeller, Renato Aragão, Dedé Santana e Claudio Botelho na coletiva de imprensa na Cidade das Artes (Foto: Leonardo Torres)

Além disso, houve um cuidado especial com a memória de Mussum e Zacarias. Os diretores optaram por nunca colocar Didi e Dedé com outras duas pessoas em cena. Aparecem em qualquer formato, menos de quarteto. “Eles são insubstituíveis. Ficou uma dupla – Didi e Dedé, como começamos”, afirma Renato, referindo-se aos dois anos de programa “Didi e Dedé” na TV Excelsior, na década de 1960. “Temos que continuar. Não vamos ficar viúvos. Como dizem, o espetáculo continua. Eu, particularmente, sinto uma falta tão grande, uma saudade, que não vejo mais os filmes que fiz com eles, porque me dá uma tristeza muito grande. E eu não posso ficar triste. Tenho que estar sempre alegre”.

“Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical” é isso: algo para animar e entreter o público. Sem melancolia. A tristeza só virá depois, quando a peça sair de cartaz. Charles Möeller acredita que vai ter “uma depressão pós-parto”, em suas próprias palavras. “Com quem vou trabalhar depois do Renato Aragão? Qual é minha próxima escalação? Não sei! Liza Minelli, sei lá!”. É uma opção.

A peça fica em cartaz na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, até 30 de novembro. Em outubro, as sessões são sempre sexta às 21h30, sábado às 20h e domingo às 18h. Em novembro, haverá variação nos dias: 8 e 9 (sábado e domingo), 12 e 13 (quarta e quinta), 18, 19 e 20 (terça, quarta e quinta), 27, 28, 29 e 30 (quinta a domingo). Terças, quartas e quintas é sempre às 20h30. Os ingressos variam de R$ 100 a R$ 150.