Adriana Falcão mergulha na fossa amorosa no texto da peça Ideia Fixa

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Texto da escritora Adriana Falcão para o teatro, “Ideia Fixa” trata da dificuldade de superar o término de uma relação amorosa, a partir de duas personagens submissas à própria fossa. Sem nomes, duas mulheres estão há cinco anos em uma sala de espera, que não sabem exatamente o que é – pode ser o limbo, o coração ou um espaço perdido no tempo no passado de um mesmo homem. As duas, esposa e amante, foram abandonadas pelo mesmo amor, e não conseguem seguir em frente, nutrindo conscientemente a esperança de que ele voltará algum dia, ao perceber que realmente tinham algo especial. Deprimente, e de fácil identificação com o público: afinal, quem nunca?

(Foto: Divulgação)

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Quem dá vida à história são Guta Stresser (de “O Casamento”) e Silvia Buarque (de “O Estranho Caso do Cachorro Morto”), com participações pontuais de Rodrigo Penna, como o homem idealizado. Assim que entra no teatro, o público vê as duas atrizes no palco, com vestidos de época, folheando revistas diversas. O cenário e os figurinos são de Ronald Teixeira, um dos pontos altos da produção. Ambos os elementos tem um quê de poesia, captando a essência do argumento dramatúrgico sem se render à mimesis. A iluminação de Beto Bruel ressalta a beleza estética da montagem. O limbo das duas é formado por um sofá, uma poltrona, uma cadeira, uma mesa de centro, um abajur e uma árvore desfolhada, rodeados por revistas espalhadas no chão que, de alguma forma, ilham as personagens. Elas não conseguem sair dali.

A história começa quando a personagem de Guta fala com a personagem de Silvia pela primeira vez em cinco anos, avisando que chegou a hora de ir embora. Mas logo ela percebe que não está 100% preparada, e que aquele homem ainda a prende em sua ausência. Juntas, as duas avançam e recuam em sua autoconfiança, relembrando momentos da história amorosa e racionalizando a necessidade de viver a própria vida, e não uma vida em função do outro. O texto de Adriana é bem humorado, mas muitas ironias e tiradas são prejudicadas pela direção afetada de Henrique Tavares (de “Obsessão”). Guta, especificamente, personifica essa afetação, fazendo de sua sofredora obsessiva pouco crível.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

A impressão é que o texto seria melhor lido. Com uma trilha sonora tímida de Rodrigo Penna e Ricco Vianna, a obra de Adriana Falcão só peca no desfecho, pouco consistente. Há ainda uma música tema do espetáculo, criada pela atriz e cantora Clarice Falcão, filha de Adriana, em parceria com Ricco Vianna: toca no fim, o que é um bom motivo para demorar a deixar a sala.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 60. Classificação: 12 anos. De 5 de novembro até 20 de dezembro. Teatro Poeira – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.