Alcemar Vieira, uma ótima razão para ver a peça Queime Isso

resenha-3estrelasemeia

Quando se lê a sinopse da peça “Queime Isso”, montagem brasileira da americana “Burn This”, escrita por Lanford Wilson, vencedor do Pulitzer, é fácil entender que os protagonistas da história são Pale (Tatsu Carvalho, de “Um Estranho No Ninho”) e Anna (Karine Carvalho, da novela “Joia Rara”). Completamente diferentes, eles se conhecem por conta de um luto em comum: o do jovem bailarino gay Robbie. Ele era irmão de Pale e parceiro de dança e roomate de Anna. Quando Pale vai buscar os itens pessoais do falecido no apartamento, ele e a moça se estranham, mas se entendem na cama. É o início de uma relação controversa, que conduz todo o espetáculo. Então, por que o público sai do teatro amando Larry, um personagem que sequer foi citado até agora?

(Foto: Felipe Diniz)

(Foto: Felipe Diniz)

Larry é interpretado com carisma por Alcemar Vieira (de “Horses Hotel”). É o outro roomante do apartamento – gay, descolado, beberrão, irônico e publicitário. Como toda a trama se desenrola em sua sala, ele assiste ao desenrolar do romance de Pale e Anna de camarote, fazendo observações hilárias e intrometendo-se sempre que possível. É um personagem cativante, mas que perceptivelmente cresce muito nas mãos de Alcemar. Sua interpretação é a tradução perfeita de roubar a cena. Independente do que Anna e Pale estejam esbravejando no centro do palco, é nas expressões de Larry que você estará prestando atenção. Se o espetáculo fosse ruim, já valeria a pena por ele. Mas não é ruim.

O texto mostra o choque e a superação de preconceitos de dois mundos diferentes a partir de um sentimento. Anna é aspirante à coreógrafa, artista. Pale é grosso, sem sutilezas. Eles se envolvem pela atração física e pela dificuldade de superar a morte de Robbie. As intenções dramatúrgicas são interessantes, mas a construção é um tanto rasa. Como em um telefilme, o espetáculo é cheio de fades, quando as luzes se apagam para indicar passagem de tempo. A cada retorno de cena, há um salto na história. Então, é difícil comprar a relação amorosa do casal em fragmentos. Larry acaba se revelando mais atrativo, o que desvia a atenção dos protagonistas. Há ainda um quase namorado de Anna, Burton (Celso André, de “O Jardim Secreto”), que se arrasta pela trama de maneira pouco convincente. A direção de Victor Garcia Peralta (de “Sexo, Drogas e Rock’n’Roll”) extrai o melhor da dramaturgia, mas não contorna os equívocos dela.

A montagem é muito digna. O cenário (de Miguel Pinto Guimarães) reproduz com realismo a sala ampla de um sobrado, com mobília mínima, para que os dançarinos possam arrastá-la e ensaiar suas coreografias (embora não exista nenhuma cena de dança propriamente dita). Os figurinos (de Alessandra Padilha) seguem a mesma linha realista, sem despertar grande atenção. A iluminação (de Felipe Lourenço), por sua vez, tem sua importância limitada aos citados fades. O conjunto de tudo é satisfatório – e tem Alcemar, que está imperdível.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

_____
SERVIÇO: qua e qui, 19h. R$ 30. 90 min. Classificação: 14 anos. Até 17 de setembro. Centro Cultural Justiça Federal – Avenida Rio Branco, 241 – Centro. Tel: 3261-2565.