(Foto: Leonardo Torres)
(Foto: Leonardo Torres)

Nem o orçamento declarado de R$ 10 milhões impediu que o musical “BarbarIdade” enfrentasse problemas de percurso, típicos de quem trabalha com teatro. Antes da estreia, a ficha técnica da superprodução da Aventura Entretenimento – não divulgada integralmente e oficialmente – sofreu uma série de mudanças. Mas a mais gritante foi a de direção. O diretor José Lavigne (de “Maroquinhas Fru Fru”) abandonou o projeto na reta final (por problemas pessoais, alega-se) e coube ao coreógrafo Alonso Barros, que já havia dirigido “Se Eu Fosse Você, o Musical”, assumir a função de última hora. Ele teve apenas dez dias para reconstruir a peça, que estreia nesta quinta (19/3), no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, com Susana Vieira (de “A Partilha”) como principal destaque.

– A gente teve que retrabalhar tudo. Uma loucura. Teatro, né? – Alonso diz ao Teatro em Cena, quatro meses após ter confessado sua vontade de voltar a dirigir – Foi pura coincidência, obra do destino. Mas foi muita correria, tendo que trabalhar em dobro. No “Se Eu Fosse Você” foi assim [duas funções: diretor e coreógrafo], mas eu tive mais tempo. Aqui, eu já entrei como coreógrafo com o processo adiantado. Quem ia fazer era Dalal [Achcar], mas houve conflito de agendas e me chamaram. Eu estava prestes a tirar merecidas férias depois de “Chacrinha” e topei, então não participei do processo de pré-produção.

A significativa mudança na direção, após meses de ensaios, claro, trouxe um impacto no projeto. O nome do Alonso, por exemplo, só foi anunciado para a imprensa na coletiva, realizada dois dias antes da estreia. Até então, era José Lavigne o creditado em todas as notícias. Na reportagem de capa do Segundo Caderno do jornal O Globo, publicada no domingo anterior à estreia, lê-se: “José Lavigne assina a direção, mas se desligou da produção há uma semana”. No release, entregue aos jornalistas dois dias depois, seu nome já não consta.

Marcos Oliveira, Edwin Luisi e Osmar Prado formam elenco principal do musical (Foto: Juliana Cerdeira)
Marcos Oliveira, Edwin Luisi e Osmar Prado formam elenco principal do musical (Foto: Juliana Cerdeira)

Curiosamente, “BarbarIdade” é um espetáculo metalinguístico, que mostra justamente os bastidores da produção de um musical. Na trama, três autores são contratados para escrever um musical sobre a terceira idade, mas não entendem nada do assunto – apesar da idade. O projeto da Aventura também foi mais ou menos assim. Luis Fernando Veríssimo, Ziraldo e Zuenir Ventura foram convidados para escrever um musical em parceria com o dramaturgo Rodrigo Nogueira (de “Chacrinha – O Musical”), mas não foi isso que aconteceu. Os três viraram uma espécie de conselheiros, apoiadores da peça, mas não botaram a mão na massa – ou no teclado. O texto final é assinado apenas por Nogueira. Outra mudança de rumo do processo criativo, então.

– Na verdade, eles deram o conceito da coisa, porque para escrever um musical… Eu penei com o “Rock in Rio”, o meu primeiro. Então, foi uma decisão deles quando sentamos para conversar. Acharam mais fácil eu pegar material que eles já tinham escrito e falar, conversar com eles para transformar isso em um musical. Ia ser mais dinâmico e melhor para todo mundo, por isso a gente chegou a essa decisão, que veio deles. Eles ficaram como musos inspiradores.

Essa mudança, no entanto, foi contornável. Os três escritores continuaram envolvidos no espetáculo e são trunfos de sua divulgação, participando ativamente das entrevistas. Elenco e produção não poupam elogios ao trio, que chegou a participar de um workshop com os atores e responder uma série de questionários do dramaturgo, que pôde beber na fonte. Até Veríssimo, que é mais caladão, cumpriu a agenda de encontros com a imprensa e se esforçou para dar respostas além de monossílabos.

Autores dão entrevistas para divulgar peça (Foto: Leonardo Torres)
Autores em encontro com jornalistas para série de entrevistas (Foto: Leonardo Torres)

– Eu nunca pensei em escrever um musical. Já escrevi uma peça, mas fora isso, nunca tinha feito nada para teatro. Eu não estranhei o convite porque a ideia foi do Zuenir. Quando o procuraram para fazer um musical sobre velhice, ele convocou a mim e ao Ziraldo para ajudar. – contou dias antes da estreia, depois de ter visto um dos ensaios – A ideia é passar uma outra imagem da velhice: que ela pode ser divertida, que depende de como a gente a encara. No caso, somos três velhinhos que convivem bem com a velhice, sem achá-la uma tragédia ou uma coisa dramática.

Assim como os musos inspiradores, são três os protagonistas em cena – não necessariamente um representante de cada. Os atores escolhidos para os papeis são Marcos Oliveira (de “Biografia Não Autorizada”), Edwin Luisi (de “Tango, Bolero e Cha Cha Cha”) e Osmar Prado (de “A Corrupção Que Vale a Pena”), mas nem sempre foi assim. Marcos foi outra mudança impactante no desenrolar da produção. Quem estava previsto para ocupar seu papel era Claudio Tovar (dos Dzi Croquettes originais). Mas, por razões particulares, ele optou por sair de cena já com os ensaios iniciados (e noticiados) e ocupar apenas a função de figurinista. Essa, ele cumpriu, e está listado na ficha técnica. Tovar só não apareceu na coletiva para falar sobre o trabalho.

Cadeira vazia para Claudio Tovar na coletiva de imprensa (Foto: Leonardo Torres)
Cadeira vazia para Claudio Tovar na coletiva de imprensa (Foto: Leonardo Torres)

De qualquer forma, “BarbarIdade” chega com entusiasmo ao Oi Casa Grande, para uma temporada prevista de três meses. O elenco conta com 18 atores, que atuam, cantam e dançam em 30 canções (com medleys), que vão de Anitta à Frank Sinatra. O espetáculo conta ainda com músicas inéditas – um diferencial para a produtora, que sempre trabalhou com repertório consagrado. O número de abertura é “Ser Velhinho”, composta por Ziraldo, Zuenir, Luis Fernando Veríssimo e seu filho Pedro. Confira:

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 60 a R$ 170. 120 min. Classificação: livre. Até 14 de junho. Oi Casa Grande – Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon. Tel: 2511-0800.