(Foto: Annelize Tozetto)

Foi um sucesso a primeira apresentação de “Próspero e os Orixás: a Tempestade” no Festival de Curitiba. O diretor Amir Haddad e o Grupo Tá Na Rua ocuparam a Praça Santo Andrade, no fim da tarde de segunda (3/4), na porta do Prédio Histórico da UFPR. Centenas de pessoas assistiram ao evento – a grande maioria universitários sentados na escadaria da universidade. Mas muitos trabalhadores em fim de expediente e mães com filhos pequenos também estavam no público.

“Próspero e os Orixás: a Tempestade” adapta a dramaturgia de William Shakespeare (1564-1616), substituindo todos os seres mágicos por entidades das religiões afro-brasileiras. Os personagens do texto britânico contracenam, por exemplo, com Iemanjá e Zé Pilintra, ao som de samba e músicas de umbanda. Antropofagia? Amir Haddad prefere não aderir a esses conceitos.

– Não sei o que é montar antropofagicamente. Eu monto do jeito que sinto e sei montar. Não sigo escola e não estou na linha de ninguém. Não pertenço a nenhuma academia, nem a dos transgressores nem a dos conservadores. Não me enquadro em nenhuma categoria. Sou um cidadão livre que se expressa livremente. Meu teatro é filho da história, e não da ideologia. Não sigo moda, não sigo correntes. – se expressa em entrevista ao Teatro em Cena.

(Foto: Annelize Tozetto)

Quase 20 atores se dividem em diversos personagens, com incontáveis trocas de figurinos – muitas fantasias típicas de desfiles de escola de samba – e extrema movimentação. “Meus atores tem um traçado, que a gente chama de mapa da mina, mas eles têm uma liberdade de movimentação e de escolha muito grande. O tempo todo, estão diante da possibilidade de escolher, sempre diante da sensação de risco”, ressalta o diretor, que defende muito a importância do teatro de rua, sem cobrança de ingressos, “a arte é cidadania de primeira classe. Acho que não podemos vender o que temos de melhor para dar. A gente vive em um mundo que é exatamente o contrário: não podemos dar o que a gente puder vender. Vende-se a mãe, a alma, tudo. Lembra quando uma moça ofereceu a virgindade dela por R$ 2 milhões na televisão? Tão bom ela dar essa virgindade, e ela vai vender. Olha o que ela está perdendo. Eu sou uma proposta radical. Alguém tem que ser.”.

Enquanto os jovens artistas correm, sobem e descem escadas, dançam e animam o público reunido por mais de duas horas, Amir Haddad desempenha a função de narrador. “Shakespeare é filho de Ogum!”, grita o conceituado diretor, “ninguém vai alterar essa história!”. Como um coordenador de ala de escola de samba, ele dá diretrizes para o elenco o tempo todo, em tempo real. “Igual um técnico de futebol. Eu falo ‘olha o exagero, olha lá!’. É um jogo aberto. Minhas influências são o futebol, o carnaval e a cultua religiosa. Eu não bebo em nenhuma fonte psicologística protestante do Atlântico Norte. Estou rompido com eles, não falo com eles. Só falo com Shakespeare e Molière. O resto, eu jogo fora. Está acabando o império deles – o homem branco, do extremo norte, protestante, colonizador. Eu sou a contradição. Meu teatro é aberto e acessível para qualquer pessoa. Eu faço arte pública”, discursa Haddad, em encontro com a imprensa.

(Foto: Annelize Tozetto)
(Foto: Annelize Tozetto)
(Foto: Annelize Tozetto)

Shakespeare é uma mostra da relação do diretor com os clássicos. Ele também levou para o Festival de Curitiba uma montagem de “Antígona”, de Sófocles, com Andréa Beltrão (de “Nômades”). Para Haddad, os clássicos são permanentes. “Num momento de decadência da civilização ocidental, onde a produção cultural é de baixa qualidade, os clássicos são uma salvação. Sobrevivem. Num Brasil fétido como esse, de esgoto a céu aberto, doentio, como estamos vivendo, trabalhar um ano com Shakespeare e Sófocles nos salva. Salva as pessoas que vão assistir a um espetáculo de qualidade. É uma atitude de saúde pública. A cultura é o que pode nos salvar contra a baixeza política a qual estamos sendo submetidos no momento”, dispara.

O espetáculo será apresentado mais uma vez na frente do Prédio Histórico da UFRP na terça (4/4) às 17h.

*O Teatro em Cena viajou a convite da produção do festival.