Ary Fontoura escreve texto sobre José Wilker antes de estreia de peça dirigida pelo falecido

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O ator Ary Fontoura (de “Marido de Mulher Feia Tem Raiva de Feriado”) estreia na próxima sexta (6/6), no Teatro Clara Nunes, a peça “O Comediante”, que foi o último trabalho do José Wilker (de “Rain Man”). O artista assumia a direção do espetáculo e ensaiava o elenco em abril, quando morreu vítima de um infarto, e foi substituído por Anderson Cunha (de “Tambores na Noite”). Para marcar o momento emocionante, Ary Fontoura escreveu um texto sobre sua parceria profissional e pessoal com o amigo. Segue abaixo na íntegra:

As voltas que a Vida dá!
Conheci Wilker pelos idos de 1964 e nos tornamos grandes amigos. E contestadores, também! Discordávamos muito, discutíamos sobre nossa profissão, mas sempre alegremente. Ultimamente, com o “saco cheio” (palavras textuais) de tanta polêmica, aplicava a síntese em tudo, com observações irreverentes, sempre diretas, com seu admirável mau humor, cheio de malícia. Era um cínico adorável!
Um dia, nem sei por que, manifestei o desejo de ser dirigido por ele no teatro. Aconteceu! Teatro dos Quatro – anos 80 – “Sábado, Domingo e Segunda”, de Eduardo de Fillipo, com grande elenco e ele à frente do grupo.
Em vez de contestar, optei por fazer tudo sem me opor, até a cena final da peça, onde o casal vivido por mim e Yara Amaral se reconciliava após uma tremenda crise de ciúme. O Wilker achava que eu deveria fazer um monólogo, onde explicava a minha mulher sobre o ciúme que tinha, dando voltas em torno dela, e não estático como eu achava. Era incômoda para mim a forma sugerida por ele. Achava que a cena e a emoção se esvaziavam. Depois de tantas tentativas para me convencer, ele se levantou da plateia, exausto, e me disse: “Sabe de uma coisa, seu jegue empacado? Faça como você quiser. Eu desisto! Não pactuo com você! Mas saiba que estas voltas todas têm um significado que a sua cabecinha não quer registrar. Ary, a vida não para! Os sentimentos fluem! Os amores vão e voltam! As uniões se aprimoram! É dando voltas que modificamos a vida, no seu mais amplo sentido!”.
Fiz como ele queria e ganhei o prêmio de “Melhor Ator do Ano”! E as voltas que dei na vida ele sempre soube, porque eu não lhe escondia nada. Sorrindo, ele dizia: “Gira, Fontoura, gira!”.
Hoje, penso na volta que a vida dá para esquecê-lo. Isso você não me ensinou, Wilker, nem quero aprender! Todos nós, envolvidos neste trabalho, tentamos reproduzir o que você queria. É a nossa homenagem!
Beijos do Ary Fontoura.

Segundo Cunha, seu trabalho se limitou a seguir o que Wilker já havia estabelecido para a peça. O primeiro esboço de quase todo espetáculo estava pronto, e ele tentou ser o mais fiel possível à criação do falecido. Para ele, a montagem não deixa de ser uma homenagem ao ator e diretor.

“O Comediante” conta a história de um ator esquecido, condenado a voltar no tempo, trazendo à tona traumas como o confinamento em um manicômio. Tudo por causa do lançamento de uma biografia, arquitetada para chamar a atenção da mídia. O texto é de Joseph Meyer (“A Escolha”).

A temporada vai até 28 de setembro, com sessões de quinta a sábado às 21h30 e domingo às 20h, no Teatro Clara Nunes, que fica no Shopping da Gávea.