O teatro musical brasileiro cresceu, viu produtoras se multiplicarem e diversos atores correrem atrás de cursos de canto e dança para explorarem essa fatia do mercado. Atualmente, o Brasil é o terceiro maior mercado de musicais teatrais do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da Inglaterra. E, como esses outros países, ele também tem seus altos e baixos, suas surpresas, suas derrapadas, e suas polêmicas. A escalação de atores famosos para atrair público, em detrimento de outros por vezes mais talentosos, é algo que sempre dá o que falar no meio. Há muita gente que realmente torce o nariz (embora não resista e vá assistir mesmo assim).

Nomes como Claudia Raia, Miguel Falabella, Möeller e Botelho e até Danielle Winits já são corriqueiros em grandes produções – sejam originais ou franquias de originais da Broadway e do West End. Mas e quando o teatro musical é invadido por Juliana Paes? Edson Celulari? Paloma Bernardi? Renato Aragão? Susana Vieira? São nomes reconhecidamente inusitados para essas fichas técnicas – e às vezes dão certo, outras vezes não. O Teatro em Cena preparou um retrospecto do que julga serem as escalações mais improváveis do século XXI.

Marcelo Médici: Sweet Charity (2006)

sweet charity marceo medici claudia raia
Esse musical marcou o primeiro encontro profissional de Claudia Raia com os diretores Charles Möeller e Claudio Botelho, mas a escalação do Marcelo Médici também deu o que falar. Na época, ele fazia muito sucesso com a comédia “Cada Um Com Seus Pobrema” e era conhecido pelo personagem Sanderson/Zóinho, o corintiano. Ninguém sabia que ele cantava – e foi uma feliz surpresa.

Juliana Paes e Vladimir Brichta: Os Produtores (2007)

os produtores juliana paes miguel falabella vladimir brichta
Para a montagem brasileira de “Os Produtores”, Miguel Falabella colocou nos papeis principais dois globais: Juliana Paes e Vladimir Brichta. Eles atraíram público, por causa de sua força na TV, mas dividiram opiniões. Depois desse musical, nunca mais cantaram em nenhum outro.

Herson Capri: A Noviça Rebelde (2008)

herson capri a novica rebelde
Após a experiência com Médici, Möeller e Botelho se arriscaram com outro ator que nunca tinha cantado em cena: Herson Capri. Ele interpretou o Capitão Georg von Trapp na famosa história e ganhou a seguinte manchete na revista Istoé Gente: “Um fiel desafinado”. Na reportagem, o próprio ator declarou: “É óbvio que não sei cantar. Desafino até em ‘Parabéns pra Você’. Faço ensaios vocais todos os dias para pagar o mínimo de mico possível”.

Edson Celulari e Arlete Salles: Hairspray (2009)

hairspray musical
Miguel Falabella voltou a reunir nomes famosos da TV para atrair público no teatro em “Hairspray”. O elenco trazia Danielle Winits, Jonatas Faro, Simone Gutierrez e – o que chamou atenção mesmo – Edson Celulari e Arlete Salles. O então marido da Claudia Raia deu infinitas entrevistas na época (todos estavam interessados em seu trabalho travestido de mulher, mais do que cantando), e em uma delas confessou: “Eu não sabia que era tão difícil fazer musical. ‘Que saudade do Shakespeare, do Beckett’. Por que fui me meter nisso?”.

Paula Lima: Cats (2010)

paula lima cats
A montagem brasileira do musical da Broadway, produzida pela Time For Fun, trouxe a cantora de soul Paula Lima no papel da gata Grizabella. Neste caso, era o caminho inverso: uma cantora que estreava como atriz, dirigida por Richard Stafford. Seu parceiro de cen, Saulo Vasconcelos, elogiou o trabalho dela ao site Terra: “No começo, ela estava muito assustada porque não é a praia dela. Mas agora posso dizer que ela já é uma profissional de teatro musical. Está super aprovada, tem presença como atriz e uma voz que combina com a personagem”.

José Mayer: Um Violinista no Telhado (2011)

jose mayer violinista no telhado
Resultado de uma parceria entre a Aventura Entretenimento e a Conteúdo Teatral, a montagem brasileira de “Um Violinista no Telhado” trouxe José Mayer em sua estreia em uma superprodução musical. Interpretando Tevye, ele se tornou o primeiro ator a receber a Medalha Albert Sabin na Semana Judaico-Brasileira, e também faturou foi consagrado o melhor ator do ano no Prêmio Contigo de Teatro, por votação popular. “Minha vivência em musicais ainda era pequena. Cantei em duas peças, mas este é o primeiro grande musical que eu faço. Desta vez, a exigência vocal é muito pesada, precisei de uma dedicação integral em todo o processo. Tevye é um belo personagem, um homem rude com alma sofisticada. Sem dúvida, meu maior papel no teatro”, declarou.

Maria Clara Gueiros: As Bruxas de Eastwick (2011)

maria clara gueiros bruxas de eastwick
Para “As Bruxas de Eastwick”, Möeller e Botelho – em parceria com a Time For Fun – repetiriam o que fizeram em “Sweet Charity” e botaram um comediante para cantar. Aqui, foi a vez de Maria Clara Gueiros. Ela fez aulas de canto para a empreitada e, na coletiva de imprensa, contou: “Eu tenho um bom ouvido musical e estou bem confortável, não tem nada que eu não consiga fazer, até porque o Claudio Botelho me protege muito pelo fato de eu não ser cantora… Sou uma atriz que está começando a cantar”. Deu certo, porque depois ela repetiu a parceria com os diretores em “O Mágico de Oz”.

Francisco Cuoco: Judy Garland – O Fim do Arco-Íris (2011)

judy garland francisco cuoco
Francisco Cuoco para homenagear Judy Garland? Foi realmente inusitado. O ator participou do musical, protagonizado pela competente Claudia Netto, e obviamente deu o que falar no papel do pianista homossexual. “O resultado é uma coadjuvância absolutamente perfeita: com personalidade, executando suas funções narrativas, conferindo níveis mais profundos, propondo novos caminhos para a história, possibilitando novos sentidos e sempre com muito carisma”, escreveu o crítico Rodrigo Monteiro.

Rodrigo Sant’Anna: Shrek – O Musical (2012)

rodrigo santanna shrek
Já muito popular por causa da personagem Valéria Vasques do “Zorra Total”, o comediante aceitou o convite da produtora Kabuki e emprestou seu carisma para o Burro de “Shrek, o Musical”, dirigido por Diego Ramiro. “O convite veio de forma inesperada, e minha primeira reação foi dizer que não cantava”, o próprio ator disse na época. E não cantava mesmo. Todas as críticas ressaltaram isso (o espetáculo, aliás, foi massacrado). Mas ele agradou o público com seu bom humor. O Burro era divertido.

Paloma Bernardi: Fame – O Musical (2012)

paloma bernardi fame
A atriz protagonizou um dos momentos mais constrangedores da história recente do teatro musical brasileiro. Paloma não cantava – mesmo – e ninguém disse isso para ela. Principal nome à frente do musical “Fame”, ela atraiu a atenção da imprensa e, nas primeiras sessões da peça, recebeu uma chuva de críticas. Paloma desafinava e saía do tom com facilidade, o que causou um enorme burburinho e seu consequente afastamento da produção da 4Act Entretenimento, dirigida por Billy Johnstone, com direção musical de Paulo Nogueira.

Lúcio Mauro Filho e Heloísa Perissé: O Mágico de Oz (2012-2013)

lucio mauro filho o magico de oz
Para “O Mágico de Oz”, ainda com a Aventura Entretenimento, Möeller e Botelho convidaram Lúcio Mauro Filho para o papel do leão e ele teve que soltar o gogó. No teste, ele estava totalmente rouco, e mesmo assim foi aprovado. Para a temporada paulista, Heloísa Perissé entrou no lugar da Maria Clara Gueiros como a Bruxa Má do Oeste. Mas ela não precisou cantar: “Eu aceitei o papel mesmo sabendo que a bruxa não cantava ou dançava. Então, na verdade, estou um pouco frustrada com isso, de fazer musical só com texto. Mas mais para frente, certamente terei a oportunidade de fazer isso. Pelo menos, espero que sim”. Por enquanto, ainda não aconteceu.

Luiz Fernando Guimarães e Gregorio Duvivier: Como Vencer na Vida sem Fazer Força (2013)

como vencer na vida gregorio luiz feranndo
Nenhum dos atores tinham cantado em cena antes, e os dois foram os protagonistas desse espetáculo, que foi o segundo de Möeller e Botelho após romperem com a Aventura Entretenimento. Era mais uma vez o uso de usar atores famosos e queridos para atrair público. Gregorio já era um sucesso com o Porta dos Fundos na época. Em cena, os dois exploravam ao máximo a comicidade da história, e Luiz Fernando Guimarães não se importava em disfarçar seu cansaço após os números musicais. Mesmo assim, Lionel Fischer escreveu que ambos “em nada comprometem as passagens em que dançam e cantam” e Macksen Luiz considerou que “ainda que não sejam tecnicamente dotados como cantores, a participação de ambos como atores-comediantes suprem as dificuldades”. Gregorio já está reservado para outra produção de Moeller e Botelho.

Mel Lisboa: Rita Lee Mora ao Lado (2014)

rita lee mora ao lado
A eterna Anita, goste ou não disso, chamou a atenção no teatro musical paulistano ao interpretar Rita Lee no biográfico “Rita Lee Mora ao Lado”. Mel Lisboa chegou a abandonar uma novela no ar para fazer o espetáculo, que era um projeto antigo dela, com direção de Débora Dubois e Márcio Macena, mas admitiu em todas as entrevistas sua falta de habilidade para cantar. Ao programa “De Frente com Gabi”, ela disse: “Chegava dos ensaios chorando e me descabelando por achar que eu não ia conseguir fazer. Até hoje sofro horrores. Nunca achei que eu cantava, sempre me incomodou a minha voz. Voz é impressão digital, não tem jeito. Mas é possível se aproximar. Todos os dias eu desafino, mas tento compensar no visual. Não sou cantora e nem pretendo ser. Sou uma atriz que está cantando.

Renato Aragão (e a turma do Didi): Os Saltimbancos Trapalhões – O Musical (2014)

renato aragao os saltimbancos trapalhoes
Aqui, foi diferente. Möeller e Botelho decidiram homenagear Renato Aragão com a adaptação de um dos filmes dos Trapalhões para o teatro musical. Colocaram o comediante em cena, mas cantando apenas a introdução de uma música. Junto com ele, entraram no elenco Roberto Guilherme, Tadeu Melo e Dedé Santana, todos da “Turma do Didi”. A crítica, de um modo geral, poupou. Renato Aragão, por sua vez, disse que quer fazer isso mais vezes.

Stepan Nercessian: Chacrinha – O Musical (2014)

chacrinhaomusical
A ideia foi da atriz Fernanda Montenegro: Stepan Nercessian para interpretar Chacrinha no musical biográfico da Aventura Entretenimento. O genro dela, Andrucha Waddington, cineasta estreando no teatro, acatou a sugestão, e o resultado agradou a crítica, a mídia e o público. Embora definitivamente não cante, Stepan arranca elogios em cada sessão como o Velho Guerreiro (que tampouco cantava). A crítica da Folha de S. Paulo avacalhou com a peça, mas salvou o ator: “O personagem, na verdade, só ganha estofo graças à caracterização de Stepan Nercessian, no andar, nos movimentos. Sua voz rouca obviamente não foi preparada para o canto, mas até nisso o ator soa genuíno, fiel ao original, de timbre tão parecido”.

Fabiana Karla: Nessa Mesa de Bar (2014)

fabiana karla nessa mesa de bar
Em turnê desde o ano passado, a comédia musical com o repertório do Reginaldo Rossi traz a atriz famosa como grande chamariz. É outro caso de “ninguém sabia que ela cantava”. Mas aqui há uma desculpa dramatúrgica: o espetáculo é ambientado em um bar com karaokê. “A gente não tem a pretensão de ser cantor. É um grande karaokê e a gente pede que todo mundo cante [junto]. É uma festa”, a atriz falou ao “RN TV”.

Bruno Gissoni: Dzi Croquettes Em Bandália (2015)

bruno gissoni ciro barcellos dzi
Outra escalação inusitada. O jovem galã da Globo “se convidou” para trabalhar com Ciro Barcelos durante o “Dança dos Famosos” – do qual foi logo eliminado. A parceria ficou no ar, ele correu atrás do diretor no Facebook, insistiu, e conseguiu: entrou para o elenco da geração contemporânea do Dzi Croquettes – cantando, dançando e tirando a roupa. “Acho que o Dzi Croquettes é o momento mais importante da minha carreira, por todos os desafios”, ele disse ao Teatro em Cena.

Susana Vieira: BarbarIdade (2015)

barbaridade susana vieira
Alvo de piadas até hoje pelo fiasco de sua apresentação com “Per Amore” no “Domingão do Faustão” em 2010, a escalação de Susana Vieira para o musical da Aventura Entretenimento deu o que falar assim que foi anunciada. Com o início da temporada e a divulgação de vídeos dela cantando, vieram ainda mais críticas. Mas, na coletiva de imprensa, ela se demonstrou satisfeita com o que alcançou em cena. “Tomara que agora eles parem de falar que eu canto mal, porque eu não estou cantando mal, tá bom?”, defendeu-se.

Diogo Nogueira: SamBra (2015)

sambra
Mesmo caso de Paula Lima em “Cats”, Diogo Nogueira estreou como ator nesse musical que tinha tudo a ver com ele: contando a história do samba. A produção da Aventura Entretenimento, com direção do Gustavo Gasparani, gerou um burburinho positivo com relação a ele, embora se comente que o cantor se afastará do elenco nas futuras apresentações. O motivo seria sua própria agenda de shows.

Marcelo Anthony: Chaplin – O Musical (2015)

marceloanthony-chaplinomusical
Produzido por Claudia Raia, com Jarbas Homem de Mello no papel principal, esse espetáculo trouxe o inesperado Marcelo Anthony no elenco, como o irmão do protagonista. Nas entrevistas de divulgação, ele disse logo: sempre cantou, as pessoas só não sabiam. “Fiz parte de alguns grupos musicais de teatro. Isso não será um problema. No teste de elenco, cantei e logo me aprovaram. O desafio mesmo foi o ritmo louco dos ensaios. É muito trabalhoso e cansativo. Ficamos das 13h às 23h passando as cenas”, explicou ao site Todo Dia.

Letícia Birkheuer, Carol Castro e Beatriz Segall: Nine – Um Musical Felliniano (2015)

beatriz segall carol castro nine um musical felliniano
Möeller e Botelho apostaram em um elenco bastante ousado para sua montagem mais recente, que estreou o Teatro Porto Seguro em São Paulo. Letícia Birkheuer, Carol Castro e Beatriz Segall são nomes que, sozinhos, já causariam estranhamento no teatro musical, mas juntos são um verdadeiro choque – para o bem ou para o mal. Carol vem recebendo elogios por sua interpretação, mas a Folha escreveu que ela “canta com dificuldade, trêmula, levando à angústia da espera de um deslize de afinação”. Já o Setor VIP disse que “Letícia Birkheuer não tem algo que a defenda” e que Beatriz Segall “não sabe a letra das canções que participa (balbucia quaisquer palavras apenas para não ficar de boca fechada)”. Está só no início da temporada, então tudo isso ainda promete dar muito o que falar.

Murilo Rosa e Fernando Caruso: Jovem Frankenstein (2015)

murilo rosa domingao
Depois do Rodrigo Sant’Anna em “Shrek – O Musical”, a produtora Kabuki escala Murilo Rosa e Fernando Caruso para a montagem de “Jovem Frankenstein”. O espetáculo ainda está em pré-produção, mas os nomes dos atores já causam burburinho no meio. Murilo chegou a cantar em um filme, não exatamente impressionantemente, e esteve no palco do “Domingão do Faustão” cantando as músicas da trilha. Na época, ele se gabou por dispensar as aulas de canto. “Eu falei para o diretor que queria tentar cantar ao vivo. A primeira cena do filme foi um show para 30 mil pessoas em Uberlândia. Estou adorando”.