(Foto: Carolina Calcavecchia)

– A Polícia Federal reportou atividades suspeitas suas.
– Que atividades suspeitas?
– Que você estava abordando as pessoas.
– Eu só falei com o homem do lava-jato, catei lixo com um senhor e conversei com o Tiago, morador de rua. Isso é atividade suspeita?
– Na verdade, o suspeito não era você. Era aquele cara que estava aqui falando com você. A gente veio, ele foi embora, você viu?
– Qual a atividade suspeita dele?
– Pedir dinheiro para as pessoas. Ele estava pedindo dinheiro para um monte de pessoas.
– Pedir dinheiro na rua é atividade suspeita?
– Depende.
– De quê?
– Eu não sei se ele está com uma arma branca. Ele veio falar com você, você é homem, mas e se fosse uma mulher?
– Tudo bem. Mas como você sabia que tanto eu quanto ele estávamos falando com as pessoas por aí?
– Se liga, rapaz. Você está no Centro do Rio de Janeiro.

O diálogo acima aconteceu, segundo o diretor Ricardo Cabral (de “Eu Vou Aparecer Bem no Meio do Seu Sonho”), no dia em que ele foi abordado e revistado por dois guardas municipais durante suas aventuras urbanas – ou performances – para desenvolver seu novo espetáculo, “AMAZONA”. Foram sete meses de proposições nas ruas reinventando a relação com o espaço público – o que gerou abordagens mais ou menos incisivas ou agressivas. “O problema era que eu estava fazendo na praça algo mais além de passar. Eu estava falando com estranhos. Mas praça é só pra passar? Faixa de pedestre é só pra atravessar? Algumas forças conservadoras hoje operam pra que a rua seja apenas lugar de passagem. Brincar com a rua abre espaço pro que mais pode a rua”, diz o artista, que estreia na quarta (17/10) o espetáculo itinerante que leva o público pelas ruas do Centro do Rio. Ele agora convoca as pessoas a participarem. Não há cobrança de ingressos: a contribuição é voluntária.

No processo criativo, artista costurou na roupa o lixo que encontrou na Avenida Rio Branco (Foto: Carolina Calcavecchia)

Durante o processo criativo, Ricardo e o elenco perceberam que a presença do artista na rua causava incômodo, além de estranhamento. Houve reações adversas. Durante um ensaio, por exemplo, teve gente que passou com o carro e gritou nome de político, como quem quer dizer algo mais. Não é exatamente um momento feliz para os artistas como um todo. Parte da sociedade critica veementemente os (escassos) investimentos em arte, chamando produtores culturais de “mamadores das tetas do Estado”. Existe uma onda forte de rejeição e até ódio à classe. Ver cenas como Ricardo regando o concreto na Praça Tiradentes e no Largo da Carioca – o que de fato aconteceu – gera mais raiva do que curiosidade em algumas pessoas. E as aventuras nas ruas incluíram ainda uma artista que cruzou a Avenida Rio Branco costurando na roupa os lixos que encontrava pelo chão, e um aulão de subida em árvore no canteiro central da Avenida Presidente Vargas.

– Há um fascismo correndo solto que vem oprimindo os corpos desviantes na rua. Infelizmente, fazer teatro na rua hoje virou ação radical. Precisamos da ajuda do público. Precisamos de uma rede de apoio dando suporte pra que a peça aconteça, pra que nós possamos contar a história até o fim. – o diretor abre o jogo.

“AMAZONA” acompanha uma guerrilha de mulheres, que abrem mato sobre o asfalto esperando o dia em que a natureza vai tomar de volta a cidade. O espetáculo faz parte da pesquisa “Aventuras Estranhas” que Ricardo desenvolve em seu mestrado na UFRJ. É a terceira peça de uma trilogia sobre espaço e itinerância, e a primeira que ganha as ruas. A decisão não è a toa. “Colocar o corpo na rua na contramão dessa circulação imposta faz a gente lembrar que é possível abrir brecha no concreto, que é possível construir um mundo diferente”, diz o diretor, que escolheu a Igreja da Candelária como cerne da itinerância, de quarta a sexta, sempre às 19h. A escolha do local faz referência ao massacre de 1993, quando oito meninos de rua foram mortos a tiros enquanto dormiam em frente à igreja.

– Marielle [Franco] foi executada e sentíamos que estar na rua era uma obrigação. A rua é o lugar da política, é o lugar por excelência do encontro com as diferenças. – Ricardo diz ao Teatro em Cena -As trajetórias, as visões de mundo, os esbarrões, tudo é um exercício ético. Posicionamento e escuta ao mesmo tempo. Foi um jeito também de fazer as pazes com a cidade, ou melhor, de ganhar coragem pra estar na rua. O discurso da violência gera uma sensação de insegurança que esvazia a cidade e só gera mais insegurança. Descobrimos que a cidade pode ser muito mais nossa do que normalmente imaginamos.

(Foto: Carolina Calcavecchia)

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SERVIÇO: qua a sex, 19h. Contribuição voluntária. 70 minutos. Classificação: livre. Espetáculo de rua itinerante. Rua da Quitanda, Centro. Tel: 99106-2335.