(Foto: Tatiana Farache)
(Foto: Tatiana Farache)

João Meira (de “O Almirante Negro”) tem se dividido entre as funções de ator e produtor desde 2011, mas vai focar na interpretação a partir do próximo semestre, pelo menos por um tempo. Ele ganhou uma bolsa para estudar teatro musical na New York Film Academy e embarca para no dia 4 de junho para Nova York, onde passará a morar a partir do segundo semestre. Com a temporada nos Estados Unidos, ele quer aprofundar seu canto, pegar fluência na atuação em inglês e também negociar a distribuição de um filme independente. “Percebi que preciso estudar muito. Vejo amigos brilhantes que servem de inspiração para mim, como Leo Bahia, que não só admiro, como acompanhei toda sua trajetória. E tantos outros. Preciso focar e trabalhar! Acho que vai ser ótimo”, conta ao Teatro em Cena.

A sensação de João é de estar “retornando ao artístico” após bastante tempo dedicado à produção. Ele começou a trabalhar nos bastidores do teatro quando ainda estudava na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e, de lá para cá, trabalhou com diretores como Bruce Gomlevsky, Nello Marrese, Inez Viana, Vinícius Arneiro e Diogo Liberano. Também esteve por trás do projeto Porto de Memórias, que levou espetáculos para as ruas da região portuária, e de produções da Aventura Entretenimento, como “SamBra” e “BarbarIdade”. Nunca parou de atuar, mas confessa que teve menos grandes processos de criação de personagem. “Uma vez artista, sempre artista, e ficar seis meses que seja sem exercitar o ofício pode amedrontar”, ele autoavalia. “A produção é um bichinho que pega e a gente não quer largar”.

A bolsa em Nova York, de alguma forma, decidiu por ele seu próximo passo. A oportunidade surgiu a partir de uma dica do produtor Gustavo Ariani. João se inscreveu e, segundo ele, concorreu com 300 pessoas. Só dez conseguiram entrar, incluindo o próprio. Para ser aprovado, fez testes de canto, dança e interpretação. Obviamente, agarrou a oportunidade. O momento não é bom para a produção no Brasil, na opinião dele. “Perda de verbas, atraso em pagamentos de prêmios, política de patrocínio complicada, um incentivo ignóbil e uma política de assistencialismo maçante. É um momento completamente difícil de se produzir, e talvez seja exatamente o momento certo para me aventurar na capital do mundo”. Ele vai priorizar, então, o trabalho em cena.

Uma prévia disso já aconteceu no ano passado, quando ele filmou o longa “Z.A.N.”, uma ficção científica brasileira, falada em inglês. A direção é de Thiago Moysés (de “Síndrome de Pinocchio – Refluxo”), que o convidou para produzir e protagonizar a história. Foi um grande desafio, porque ele nunca tinha produzido cinema e teve que emagrecer 11 kg em um mês para o papel. Na história, seu personagem tem problemas mentais e toma 100 cápsulas de remédio por dia – “quantidade que mataria alguém facilmente”, ele frisa. “Isso me faria mais fraco, mais vulnerável para a câmera, e ainda assim não estava tão magro, pesando 77kg. O diretor queria ainda mais magro”, lembra. A história gira em torno desse jovem estranho, que revela seus dons psíquicos ao psicólogo e é encarado como alucinado. Aos poucos, porém, todos vão entendendo que ele é mais do que um ser humano.

Veja o teaser do filme:

O projeto foi apresentado na rodada de negócios do Festival do Rio para distribuidoras nacionais e internacionais, e despertou o interesse em executivos japoneses, mexicanos e americanos. Um dos chamarizes é a consultoria de Henry Preston (da franquia “Star Wars”) nos efeitos especiais. Ainda não há nada fechado, porque o filme está em pós-produção, mas existem várias negociações. “Todas as reuniões foram incríveis com as distribuidoras internacionais e não obtive sucesso algum com as nacionais. Ou seja, para mim, fez todo sentido ter rodado uma ficção científica com elementos de terror em inglês”, explica. “Queríamos tornar Z.A.N. universal, e não ficar só com uma circulação pequena no Rio, e em festivais brasileiros”. Eles visam Sundance e Sitges, por exemplo. Em Nova York, João já tem reuniões marcadas para negociações.

Assim sendo, as expectativas para a temporada em Nova York são as melhores. Ele vai passar pelo menos um ano lá nesse curso. Mais, não sabe se fica. Mas data para voltar também não tem. Apenas o desejo de aprender muito por lá e retornar com uma bagagem muito maior. “Quero poder voltar sim e fazer muita coisa aqui ainda. João Falcão, Luiz Fernando Carvalho, Karim Aïnouz, esses não me escaparão! Quero trabalhar com Andrea Beltrão, [Marco] Nanini, a Cia. Independente de Teatro, que sou apaixonado pelo trabalho. Eles nem devem saber disso, mas foi por causa deles que vim parar no Rio de Janeiro viver e estudar teatro. Sou apaixonado pelo teatro no Brasil e, claro, realizar e atuar em bons musicais brasileiros faz parte dos meus objetivos!”, conclui.