Pedro Bial: autor de "Chacrinha - O Musical", novidade da temporada de fim de ano (Foto: Divulgação / TV Globo)
Pedro Bial: autor de “Chacrinha – O Musical”, novidade da temporada de fim de ano (Foto: Divulgação / TV Globo)

Sem saber, Pedro Bial (aquele mesmo, da televisão) se tornou central em uma discussão apaixonada quando aceitou escrever o texto de “Chacrinha – O Musical”, que estreia nesta semana no Teatro João Caetano. Muito em alta no teatro brasileiro, e principalmente no Rio de Janeiro, as biografias musicais dividem opiniões em conferências, salas de aula e coxias. Esse foi um dos principais pontos, por exemplo, de uma das mesas do II Seminário Carioca de Teatro Musical, realizado em julho. Sucesso inegável de público, o formato é considerado, por muitos, como mero caça-níqueis. Mas o jornalista e apresentador de TV não sabia disso. Não que agora se importe, tampouco. Questionado sobre o tema pelo Teatro em Cena, ele disse: “Nunca li nenhuma crítica desse teor. Você está me trazendo isso agora. Acho que chamar qualquer espetáculo de caça-níquel não é uma ofensa. É um elogio. Estamos aqui para ganhar dinheiro mesmo. Essa é a ideia”.

Esse é um ponto. Mas não o único. Em um vídeo postado no Youtube, o jovem dramaturgo Tauã Delmiro, autor do inédito “O Anti-Musical, o Musical”, destaca a superficialidade e repetição de lugares comuns nos musicais biográficos. Apostando no bom humor, ele canta que quer se tornar um musical biográfico quando morrer. Os versos dizem “Vou cheirar, f****, matar / E isso será ocultado / Irei ver minha obra / Virar um lixo no palco” e “Quero atores que nem saibam minha história / Mas passaram no teste / Odeiam MPB / Votam no PMDB / Mas dirão em entrevistas que me amam”. Em outro momento, Tauã, que é aluno de Artes Cênicas na UNIRIO, é ainda mais direto: “Quando eu morrer / Quero virar musical / De uma produtora caça-níquel / Que nem sabe o que é teatro”.

Ele não é o único crítico do subgênero. Há quem chame as biografias musicais – quase sempre de ícones falecidos – de “teatro espírita”. A consagrada dupla Charles Möeller e Claudio Botelho, por exemplo, não vê com bons olhos esse filão do mercado. Eles quase nunca tocam no assunto em público, mas, em uma entrevista de 2013 ao site Mr. Zieg, Charles sintetizou o sucesso da fórmula da seguinte maneira: “começa com a morte do artista, depois passa pela infância e por todos os seus feitos. A biografia é uma febre, porque é uma segurança para o público, que sabe que vai ouvir músicas conhecidas”. Ele e Botelho nunca se renderam ao formato – embora tenham explorado, de outra maneira, as discografias de Chico Buarque e Milton Nascimento em espetáculos como “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos” (2014) e “Milton Nascimento – Nada Será Como Antes” (2012).

O próprio João Fonseca, que dirigiu as biografias musicais de Tim Maia, Cazuza e Cássia Eller, admitiu que não era grande fã dessa vertente antes de trabalhar com ela. “Eu falava mal pra caramba. Achava sem graça, oportunista, tudo o que falam sobre meus espetáculos hoje em dia”, diz o diretor teatral, que foi sucesso de bilheteria em todas as sua experiências com biografias. Segundo ele, elas também têm seu mérito, porque ampliam o número de espectadores de teatro como um todo. “Elas conseguem romper com a resistência de quem odeia musicais. As pessoas vão porque são fãs das músicas ou do artista e podem se encantar”.

Pedro Bial e o time de "Chacrinha", que inclui Aniela Jordan, Andrucha Waddignton, Alonso Barros e Stepan Nercessian (Foto: Leonardo Torres)
Pedro Bial e o time de “Chacrinha”, que inclui Aniela Jordan, Andrucha Waddington, Alonso Barros e Stepan Nercessian (Foto: Leonardo Torres)

Aniela Jordan, uma das três sócias da Aventura Entretenimento, que investiu R$ 12 milhões no musical do Chacrinha, destaca ainda diferenças dentro do universo da biografia musical. “Chacrinha”, para ela, corre por fora, por não ser centrado em um cantor e sua obra fonográfica. O espetáculo conta a história de um comunicador, com as músicas que fizeram sucesso em seu programa – interpretadas por artistas diversos. “Acho que as pessoas têm o hábito de pegar fórmulas: ‘então vamos fazer espetáculos sobre cantores’. Aí 500 pessoas fazem a mesma coisa. A gente tem que ser mais criativo que isso e pensar outras coisas”, aponta ela, que subiu no palco do 8º Prêmio APTR, em abril, para receber o prêmio de Melhor Produção por “Elis, a Musical” – a contribuição da empresa para esse filão. O espetáculo, aliás, está em sua segunda temporada no Rio, o que prova a adesão do público.

Sempre dividindo opiniões entre os pensadores do teatro brasileiro, as biografias musicais são queridas pelos espectadores cariocas (se as sessões esgotadas são um atestado disso). Neste ano, passaram pelos palcos Elis Regina, Cazuza, Cássia Eller, Emilinha e Marlene. Atualmente, há também um espetáculo de pequeno porte sobre Agnaldo Rayol no Centro Cultural Correios. Para o ano que vem, já está sendo preparada uma peça sobre Wilson Simonal – que vai inserir a empresa Planmusic no mercado teatral. Ao que parece, amantes e críticos dessa vertente ainda terão muito o que debater.