(Foto: Nityam)

Um retrato da turbulência da cidade do Rio de Janeiro. Assim é “O Insaciável Zé Carioca”, espetáculo do grupo Caravana Haole, que retorna ao Espaço Armazém, na Fundição Progresso, na Lapa, para uma nova temporada no mês de dezembro. A reestreia acontece na quinta (6/12) às 20h. A peça acompanha as diferentes reações e perspectivas a uma série de assassinatos cometidos por uma figura misteriosa no centro histórico do Rio de Janeiro. Brutalidade policial, ativismo jovem, greve de trabalhadores e decepção de turistas permeiam a trama.

– Ela se passa quase toda na Lapa carioca e a gente se apresenta bem no coração da mesma Lapa carioca. Temos ouvido muito sobre o momento que, ao saírem do teatro, as pessoas se deparam com a coisa toda acontecendo novamente em altíssima voltagem. – o dramaturgo e diretor Jopa Moraes (de “A Praia do Mel”) conta ao Teatro em Cena – Daí o ciclo se completa, aquilo que nos atravessou e nos levou a contar essa história, explode diretamente na cara das pessoas que acabaram de assisti-la. Como se a peça se colasse na realidade mais imediata daquele lugar. E acho que essa ressonância altera um monte de sentidos e adiciona camadas ao nosso espetáculo.

A história ficcionaliza o tempo e o espaço para tratar de uma cidade abandonada à própria sorte – algo que os cariocas sabem bem como é. Para dar conta da trama, criada por Jopa com Felipe Bustamante (de “A Praia do Mel”) em sala de ensaio, a direção optou pelo hiperrealismo. O elenco formado por Bruna Trindade, Felipe Bustamante, Maria Celeste Mendozi (de “Ausências”), Rodrigo Salvadoretti (de “A Praia do Mel”) e Zéza (de “O Mar Serenou… Um Conto de Clara”) veste uniformes de policiais, estudantes e garis. O palco é enchido de lixo. A atriz que faz a turista gringa realmente é de outro país, a Argentina, e o sotaque é autêntico. Tudo é reconhecível. Ao mesmo tempo, os crimes são cometidos por uma figura que circula com cabeça gigante de papagaio. Para entender melhor a proposta, o Teatro em Cena conversou com os autores do espetáculo. Confira abaixo!

(Foto: Nityam)

TEATRO EM CENA – “O Insaciável Zé Carioca” pensa a violência e a crise econômica da cidade. O que motivou a criação dessa história?
FELIPE BUSTAMANTE – O cotidiano do centro do Rio sempre foi instigante pra gente. E a Caravana Haole é “cria” da Lapa, né, podemos dizer assim. O grupo se conheceu nas redondezas do bairro bebendo cerveja e falando de poesia e quadrinhos. Então, nessas nossas conversas, percebemos que várias das questões centrais do Rio, como desigualdade social e uso ostensivo da força policial, parecem receber contornos mais vivos na Lapa. É como se este pedaço da cidade fosse uma reprodução exagerada dos desafios urbanos que enfrentamos atualmente, como comércio informal, coleta de lixo, população de rua, violência. E a forma como atravessamos esses desafios, já que o centro é historicamente palco de manifestações populares também, como festas e protestos.

TEATRO EM CENA – O que surgiu primeiro – os personagens, as situações? Como foi o processo criativo?
FELIPE BUSTAMANTE – Foram dois dramaturgos escrevendo, sendo que um deles faz parte do elenco e o outro também é diretor do espetáculo. Mas a gente começou sem nada de texto, pra falar a verdade. Fomos o primeiro dia ensaiar sem saber como seria essa peça. Sem ter nenhuma ideia concreta, nadinha. A história toda foi surgindo em sala de ensaio. O processo foi completamente pautado pelo trabalho dos atores. A maioria dos personagens e situações narradas pela trama apareceu primeiro em exercícios cênicos desenvolvidos pelo elenco. O trabalho da dramaturgia foi de conduzir e domar, de certa forma, a pororoca criativa do trabalho dos atores.

TEATRO EM CENA – Cada personagem representa uma perspectiva na história. Conte-me um pouco sobre as ideias por trás da criação de cada um deles.
FELIPE BUSTAMANTE – São personagens reconhecíveis em uma rápida volta no quarteirão. O gringo que perde o encanto com a cidade; os policiais trabalhando duro em péssimas condições; os ambulantes sobrevivendo graças ao poder da criatividade, a juventude ativista, está tudo lá. Ou melhor, tudo aqui. Fora da peça. Já dentro da trama, esses personagens representam diferentes visões de mundo que coexistem, harmoniosamente ou não, e que garantem complexidade ao pensamento promovido pela história.

(Foto: Nityam)

TEATRO EM CENA – O espetáculo estreou pouco depois do segundo turno das eleições. Acredita que isso interfere no olhar da plateia e deu novos significados ao que havia escrito?
JOPA MORAES – Mais do que o resultado do segundo turno, a peça foi profundamente transformada pela situação política e pelo acirramento das disputas ideológicas na cidade. Ensaiamos no Espaço Armazém, na Fundição Progresso, no período da noite. Muitas vezes estávamos criando cenas e exercícios enquanto ouvíamos o barulho de manifestações, comícios, festas gospeis ao ar livre acontecendo a poucos metros de distância. É preciso urgência para fazer teatro. O texto e a encenação foram levantados concomitante em menos de três meses, e esse estar criando de dentro do olho do furacão fez o espetáculo ser como ele é – direto, brutal e debochado. Se o nosso tempo transforma o olhar da plateia, é porque há ali a possibilidade de reconhecimento.

TEATRO EM CENA – Vocês ficcionalizam o Rio de Janeiro contemporâneo de maneira realista. O release diz que “quanto mais específica uma obra, mais universal ela é”. Como chegaram a essa conclusão?
JOPA MORAES – O espetáculo faz um tipo de transposição de elementos da cidade para o palco. O lixo, os uniformes, as mensagens em stencil gravadas no concreto. Mas há um elemento insólito central – uma figura com cabeça de papagaio assassinando pessoas no centro da cidade – que solapa o realismo da trama. Na nossa história, a realidade perde a sua timidez, e o que resulta disso é um realismo hiperativo, feito de excessos, que nasce da sujeira e da violência desse lugar e desse tempo. Uma das grandes referências na criação foi a série animada “Paranoia Agent”, do genial diretor e roteirista japonês Satoshi Kon. O retrato que ele faz de uma Tóquio contemporânea atravessada por eventos absurdos é bastante particular. Estão ali os tipos de uma metrópole hiper tecnológica, de uma nação colocada na corda-bamba, tentando se equilibrar entre a tradição espiritual do oriente e a obscenidade do capital global. É muito japonês, em sua essência, mas o resultado é profundamente humano. É algo que a gente tenta fazer aqui – não fugir das excentricidades, dos supostos clichês da nossa época. Exploramos eles até que achamos as coisas mais doidas e desafiadoras. Por isso era muito importante que as referências aos elementos da nossa vida carioca não soassem como uma piscadela para a plateia, como uma forma pobre de conseguir riso ou de aproximar o público. Daí nossa cena de abertura usa as inserções do Google Maps guiando a personagem pelas ruas do centro, enquanto ela descreve extensivamente o que vê no trajeto do metro Cinelândia até a Rua André Cavalcanti. Era nossa forma de dizer ao público “É isso, não tem escapatória, vamos mesmo contar uma história sobre esse lugar e esse tempo”.

TEATRO EM CENA – A cena final do espetáculo traz os garis, a limpeza do lixo e o samba. O que você quis transmitir ali?
JOPA MORAES – Não quis transmitir nenhuma mensagem específica, não acredito que seja esse o papel desse espetáculo. Mas quis terminar com uma imagem e uma sensação que creio ser muito carioca. Um jeito de seguir o baile diante das adversidades, de não perder o samba no pé. Para alguns isso pode soar patético, para outros indispensável, eu deixo a cargo do público interpretar isso aí, tá okey?

(Foto: Nityam)

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SERVIÇO: dias 6, 7, 10, 14, 15, 17, 19, 20, 21, 22 de dezembro, às 20h. R$ 40. 85 min. Classificação: 16 anos. Espaço Armazém – Fundição Progresso – Rua dos Arcos, 24 – Centro. Tel: 2516-4893.