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(Foto: Caike Luna)
(Foto: Caike Luna)
“Tudo em excesso faz mal. Menos segurança.” É. Minha avó sabia das coisas. Mas não entendia muito de teatro. Porque se o assunto for teatro, segurança em excesso faz mal sim. Muito mal. Principalmente se for teatro musical.

Fazer dramaturgia com música não é fácil. Arrisco até a dizer que é mais difícil do que se fazer dramaturgia sem ela. Primeiro porque o formato do teatro musical já pressupõe uma quebra de linguagem que torna mais difícil o fluxo da ação de um personagem em cena. Se o jogo “parar-de-falar-e-começar-a-cantar” não for muito bem arquitetado, um quebra-mola gigante surge no meio do caminho e a cabeça do espectador bate no teto do carro.

Justamente por isso, o teatro musical precisa se lembrar o tempo todo que antes de mais nada ele é teatro. E precisa ser vivo. Precisa ser diverso e mutante. Ele precisa estar um pouquinho na corda bamba.

Faz um ano que me mudei para Nova York. E depois de ver dezenas de espetáculos eu digo: a Broadway sofre de excesso de segurança. Veja bem. Isto não quer dizer que o que se faz não tenha qualidade. Mas quer dizer que se perde uma das características mais gostosas do teatro. Aquela que te faz arregalar os olhos, cravar as unhas no braço da poltrona, dar três pulinhos sentado como se você tivesse oito anos de idade. A Broadway não tem risco.

“O teatro comercial está limitando os musicais.” disse o lucidíssimo Steven Sondheim, mês passado, em Londres. “Eu queria ver mais variedade. A Broadway tende a produzir os mesmos tipos de musicais porque são populares. Se eles não são, desaparecem.”

Ele está coberto de razão. Se você assiste a mais de cinco shows na Broadway, você já começa a ficar com dejà vu. E eu vou citar aqui então cinco exemplos que eu vi neste último ano.

BEAUTIFUL

“Beautiful” é clássico exemplo do musical jukebox (com músicas já conhecidas de um compositor). A peça conta a trajetória da cantora e compositora Carole King. No início é a coisa mais emocionante do mundo. Você ouve músicas lindas, com cantores lindos, arranjos lindos, é tudo lindo. Mas depois de meia hora de peça, você percebe que TODAS as músicas entram da mesma maneira. Elas não se engendram na dramaturgia da história. É a mesma fórmula. Ruim? Mal-feito? Desinteressante? Não. Excitante, inovador, diferente de tudo o que você já viu e te faz sair do teatro achando que a vida ganhou novos rumos? Também não.

SOMETHING ROTTEN

Na trilha do sucesso de “Book of mormon” e com algo de Monty Python, “Something Rotten” faz algum sucesso e é de fato muito criativo e muito divertido. O espetáculo conta a história (totalmente inventada) do surgimento do primeiro musical: um autor frustrado do teatro elizabetano tenta derrubar o onipresente Shakespeare. Ele vai atrás de um vidente que prevê que um tipo de peça que mistura falas e músicas vai fazer muito sucesso no futuro. E aí a história se desenrola com uma tentativa de se fazer musical na Inglaterra do século XVI.

O problema é o “como”. Porque ela se desenrola exatamente “como” se desenrolam a maioria dos musicais. Tem piadas inteligentes? Tem. Músicas gostosas? Sim, Mas com menos de dez minutos de espetáculo, você já sabe tudo que vai acontecer (prevê?). É uma sucessão de números que segue à risca a cartilha. E a inteligência das piadas e o gostoso das músicas não são suficientes pra fazer de “Rotten” uma peça memorável como “Book” conseguiu ser. Porque “Book” ousa até dizer chega. O risco é enorme.

TUCK EVERLASTING

No final da primeira apresentação pública de “Tuck everlasting” (o primeiro preview) um espectador atrás de mim falou “Será que vai ser um novo ‘Wicked’?”. Uma amiga que foi comigo (produtora da Broadway vencedora de dois Tonys) mandou baixinho pra mim “Nunca.” Eu devolvi: “Mas é exatamente isso que eles querem.” Mais uma vez a fórmula.

O espetáculo é baseado num livro que conta a história de uma família que não envelhece. O tema é bem lúdico, uma luva para os musicais. O cenário é lindo. A coreografia é precisa. É um musical moderno com ares de clássico. Só tem um problema. Ele não é clássico. No meio da peça eu me peguei pensando em “Violinista no telhado.” Com saudade da montagem que tinha visto um mês antes a poucos quarteirões dali. Porque se for pra ver um “clássico”, eu realmente prefiro um clássico. Com alma e sem aspas.

FUN HOME

Tem peças que fazem sucesso e realmente são diferentes da maioria das produções da Broadway. Como “Fun home”, vencedor do último Tony. É uma história ousada: a trajetória de uma criança que se descobre lésbica narrada em três planos de sua vida. Mas sob o medo de “confundir” o grande público (como aconteceu com o musical “If/Then”), o cruzamento de planos é bem tímido. E a composição musical é bastante convencional.

Como não existe cenário ou figurino suntuosos pra encher os olhos nem números de dança que façam bater o coração, a atenção toda vai pra música. E a música, apesar de bem feita, não é diferente da de uma dezena de musicais em cartaz nos teatros em volta dele. No segundo ato você sente que está ouvindo um mesmo som há muito tempo.

O excesso de segurança da Broadway tem um motivo: dinheiro. Acontece que a produção de musicais por lá é quase uma bolsa de valores. Só 20% das produções recuperam o dinheiro investido e revertem em lucro. O risco (olha ele aí!) é grande.

Tirar dólar do bolso para botar num musical muito fora da casinha (lá não tem Rouanet!) afugenta os investidores. Por isso, eles buscam peças que se pareçam com peças que já fizeram sucesso. E acabamos tendo uma sucessão de espetáculos parecidos: todos com o cinto de segurança afivelado bem apertado durante duas horas e meia de apresentação.

OS BAMBAS

É claro que tem alguns que conseguem sair da norma. Como “Hamilton”, um musical que conta a história do primeiro secretário de tesouro do governo americano através de rap e do hip hop. A peça estreou ano passado e já é considerado um dos maiores musicais de todos os tempos. Infelizmente não posso falar muito porque não vi. É que o ingresso está custando uns mil dólares e, ah, sabe, prefiro gastar esse dinheiro num copo de vodka tônica. 😉

Mas tem outro espetáculo que promete dar uma chacoalhada no teatro comercial americano que eu vi e posso falar. Se chama “Natasha, Pierre & The Great Comet of 1812”. É um musical baseado numa passagem do romance “Guerra e Paz” de León Tolstoi. Assisti dentro de uma tenda montada num estacionamento que reproduzia um restaurante uns dois anos atrás. E o musical acontecia no meio das mesas. Mas não é isso que o torna tão interessante e sim, a música. É essencialmente teatro musical, com as características e vicissitudes do gênero. Mas boa parte da composição tem música eletrônica. E o resultado é, no mínimo… arriscado.

O espetáculo vai estrear na Broadway no próximo semestre. E eu torço muito por ele. Claro que, como toda grande produção, ele vai ter lá suas seguranças. Mas uma “ópera eletro-pop” que conta a história de um jovem aristocrata russo em crise existencial tem todas as qualidades pra colocar a dona Broadway, um pouquinho que seja, para andar na corda bamba.

Rodrigo Nogueira é ator, diretor e dramaturgo.