(Foto :Sergio Santoian)
(Foto :Sergio Santoian)

Um DJ da periferia em “Malhação” (2010). Um jogador de futebol em “Avenida Brasil” (2012). Um pescador em “Flor do Caribe” (2013). Um universitário em “Em Família” (2014). Já confirmado em “Babilônia” (2015), Bruno Gissoni é um nome popular. Ele tem mais de um milhão de seguidores no Instagram, onde se define como “carioca e flamenguista”. O futebol, aliás, é uma paixão – e ele tentou a carreira nos gramados antes de se tornar ator. Mas, desde que trocou os treinos pelos ensaios, não ficou fora do ar nenhum ano sequer. Sempre interpretando mocinhos românticos e apaixonados em novelas da TV Globo, ele surpreendeu a todos no ano passado quando anunciou sua entrada no elenco de Dzi Croquettes – o famoso grupo de contracultura dos anos 1970, que voltou à ativa em 2012, com nova formação, liderada pelo membro original Ciro Barcelos. O público dele talvez não saiba o que isso signifique, mas os mais informados entendem rapidamente: é um trabalho completamente diferente de tudo que ele já fez antes. “É bom porque vai mudar um pouco a forma como me veem”, diz ao Teatro em Cena, no intervalo de um dos ensaios, em um estúdio no Leme, uma semana antes da estreia no Theatro Net Rio, em Copacabana. “Sai um pouco daquele ator que só faz papel de bonitinho e vai para uma coisa…”. Bruno perde alguns segundos buscando a melhor palavra e, sem a certeza de ter encontrando-a, continua. “Uma coisa mais ousada, não sei. Estou saindo dessa zona de conforto”.

Ousadia é uma boa palavra, sim. O Dzi Croquettes fez fama quando a nudez ainda causava alguma polêmica… lá para o século passado. Em seus espetáculos, o grupo, formado apenas por homens, se vestia de mulher, com roupas sensuais, e exibia pernas e axilas peludas. Seu cartão de visitas era essa transgressão e brincadeira entre o que é feminino e masculino – informação demais para os espectadores, embebidos por performances de canto e dança, com coreografias de Lennie Dale, e mensagens políticas no auge da ditadura militar. Para quem não conhece, o premiado documentário de 2009 (de Raphael Alvarez e Tatiana Issa) é uma ótima sugestão. Foi esse filme que motivou Ciro a atualizar e homenagear seu próprio grupo, em 2012, com a peça “Dzi Croquettes Em Bandália”. É nela que Bruno está, na reestreia deste ano. Em resumo: ele vai atuar, cantar, dançar, mostrar a bunda, se travestir e desmunhecar. Entendeu? “Botar maquiagem é mais difícil, porque tenho nervoso com o olho, aí na hora do rímel é complicado”, ele diz. “E o salto alto dá aquele medinho, pela falta de costume, mas está sendo divertido”.

Bruno Gissoni conheceu Ciro Barcelos nos bastidores da "Dança dos Famosos" (Foto: Divulgação / TV Globo)
Bruno Gissoni conheceu Ciro Barcelos nos bastidores da “Dança dos Famosos” (Foto: Divulgação / TV Globo)

Namorado da modelo e atriz Yanna Lavigne, Bruno Gissoni é a escalação mais improvável do Dzi Croquettes. Não é que ele seja apenas muito masculino, porque ele é, mas o ator é também… duro. Quando participou do “Dança dos Famosos” no ano passado, foi para a repescagem e ouviu comentários como “faltou molejo”, “tem que caprichar na eletricidade” e “muito tenso, travado”. Ciro Barcelos, um dos jurados do concurso, chegou a pedir atenção para as “falseadas de pés” do ator. Mas, nos bastidores, eles se entenderam. Bruno declarou ser fã do Dzi e foi convidado para um dos ensaios. Ciro achou que ele não fosse, mas o ator o procurou no Facebook e insistiu que queria ir. “Comecei a pentelhar e consegui um teste. Aí, na semana seguinte, já estava ensaiando”. Ciro tomou para si, então, a missão de ensinar tudo pra Bruno – e isso englobava mais do que não falsear os pés. “É preciso muita coragem para abraçar a filosofia do grupo”, diz o diretor. “Bruno é um ator muito profissional e querido. Todos nós do Dzi temos por ele um grande carinho e nos revezamos ensinando-o a dançar, cantar, andar de salto, enfim, ser um Croquette”.

Os ensaios estão acontecendo desde setembro, todos os dias de semana, das 18h às 23h. A preparação é intensa. Bruno mudou a alimentação e passou a ir à academia diariamente, “porque fica sem camisa praticamente o tempo todo na peça”. Além disso, teve que desenvolver sua feminilidade, que vai muito além de um par de cílios postiços e uma roupa apertada. “Eu acho que todo mundo tem essa feminilidade, mas tem homem que tem medo de descobri-la e de acessá-la”, observa o artista, que cresceu rodeado de figuras masculinas. Além de ter dois pais, um biológico e um de criação, Bruno também tem dois irmãos – os atores Felipe e Rodrigo Simas (que venceu o “Dança dos Famosos” dois anos antes). Para fugir um pouco desse universo de futebol e capoeira, ele assistiu ao filme “Cabaré” (1972) com Liza Minelli. Queria ver o que serviu de inspiração para o próprio Dzi. “Não é só um espetáculo no qual me visto de mulher. A atitude também é feminina. Essa linha entre o macho e a fêmea tem que ser bem fina. Se eu for muito feminino, perde a essência. Se for muito masculino, também. É uma coisa bem dividida”.

Em sua carreira curta e recente, Bruno Gissoni fez outras quatro peças de teatro: “Capitães da Areia”, “Os Melhores Anos das Nossas Vidas”, “Romeu na Roda” e “A História dos Amantes”. A mais próxima do que ele se propõe no Dzi, e ainda assim muito distante, foi essa última, uma comédia montada no ano passado. Em dada parte do espetáculo, Bruno interpretava um clitóris, mas era algo sem qualquer sutileza. “Acho que o Dzi Croquettes é o momento mais importante da minha carreira, por todos os desafios”, analisa o ator de 28 anos. “Eu não tenho uma formação acadêmica, então busco no teatro a minha faculdade e minha formação. Esse processo que estou fazendo aqui equivale a uma escola técnica de artes cênicas. É muita informação, muita experiência boa, e isso é o mais importante para mim”. Ao longo da entrevista, ele repete algumas vezes as palavras redescoberta e experimentação. É como está encarando o projeto. “Não sei se estou me provando. Estou experimentando, me desafiando. Essa prova não sou eu que tenho que fazer”.

Tranquilo demais, Bruno não é de muitas palavras nas entrevistas. Essa é a segunda vez do Teatro em Cena com o ator, e nunca é exatamente fácil arrancar dele respostas mais detalhadas. Mas é perceptível seu agradecimento ao Dzi pela oportunidade de fazer algo ímpar. Seu discurso é repleto de gratidão. Ao grupo, no entanto, ele também colabora com visibilidade. A reestreia do musical recebeu uma atenção especial da mídia pela presença dele no elenco. É inegável. Quando a curta temporada iniciar, a repercussão será ainda maior – com a divulgação das fotos de cena. Questionado sobre a nudez no palco, ele se diz muito tranquilo. “Faz parte desse universo. É uma coisa muito natural, uma forma de dizer que é como a gente veio ao mundo e não tem que ter pudor com relação a isso”, e ele se empolga na resposta, em uma das raras vezes nos dez minutos de conversa. “O espetáculo é mais do que isso. Se prestarem muita atenção na bunda de fora, é porque tem alguma coisa errada com a cena. O foco não é esse. Eu queria me redescobrir e não tem lugar melhor para fazer isso do que aqui no Dzi Croquettes”.

Elenco completo de "Dzi Croquettes Em Bandália" versão 2015 (Foto:  Andre Albuquerque)
Elenco completo de “Dzi Croquettes Em Bandália” versão 2015 (Foto: Andre Albuquerque)

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SERVIÇO: seg e ter, 21h. R$ 80 a R$ 100. Classificação: 14 anos. De 2 a 10 de fevereiro. Theatro Net Rio – Rua Siqueira Campos, 143 – Copacabana. Tel: 2147-8060.