walace pinheiro
(Fotos: Arquivo Pessoal)

Walace Pinheiro tem o cabelo azul. Mas isso é novidade. Há um mês, o jovem de 20 anos era “bem normalzinho”. Ele trabalhava em um dos restaurantes do Copacabana Palace e usava o cabelo castanho e mais curto. Como funcionário do hotel, tinha que respeitar uma série de restrições rigorosas quanto à aparência. Mas Walace é ator e, graças a um trabalho, se viu desafiado a pintar o cabelo e deixá-lo crescer. Outro tipo de exigência. Topou na hora – e abandonou o hotel cinco estrelas. Agora é visto azulado no espetáculo “A Sonata dos Espectros”, em cartaz na sede da Cia. de Teatro Contemporâneo, em Botafogo. Em cena, também estão atores com o cabelo rosa, ruivo cenoura, ou preto com uma mecha branca enorme bem no centro da cabeça. Tudo assim muito diferente – e eles não consideraram a opção de usar peruca em nenhum momento.

Logo no primeiro contato com a diretora Renata Mafra (de “Fados e Segredos”), ela perguntou: “o corpo de vocês vai ser meu?” Era um aviso. Tanto é que ela disse que, se fosse para usar peruca, era melhor nem mexer no cabelo para a composição dos personagens. É o método dela. Alguns aceitaram o desafio, outros não. Gabrielle Cardoso, por exemplo, usava dreadlocks e teve que cortar o cabelo e pintá-lo de rosa. Uma mudança de 180º, mas que ela, Walace e os colegas de elenco consideram importante para o espetáculo, que trabalha com um conceito lúdico e expressionista.

– A Renata incitava a gente e perguntava: “Quem está disposto a fazer tudo? Qualquer mudança?”. Essa proposta, essa consciência da entrega do ator para ser veículo, sempre existiu. – conta Gabrielle, de 25 anos, uma das integrantes da Espiral Cia. de Teatro, formada por jovens estudantes que se conheceram há dois anos em um curso da Cia. de Teatro Contemporâneo, e realiza sua primeira montagem com essa peça. – Acho que o grande sentimento na hora de mudar foi excitação, por poder construir da forma mais completa o personagem, e por ser algo que traz um sentimento de estranheza. Um sentimento de curiosidade. Que casa com as intenções da peça.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

“A Sonata dos Espectros” é um texto de August Strindberg que aborda a linha tênue entre o consciente e o subconsciente e que questiona a curva entre a vida e a morte. A estética expressionista foi uma opção deles, na qual os cabelos coloridos se encaixava, assim como as cores do cenário e dos figurinos. “Procurávamos algo que causava estranheza. Atualmente, com tantas pessoas querendo se encaixar e serem ‘iguais’, são esses tipos de visuais que trazem a sensação esperada”, destaca atriz Lays Ximenes, também parte do elenco. Ela é a menina da mecha branca, e frequentemente tem que lidar com os olhares dos transeuntes nas ruas. As pessoas, no geral, estranham e tem gente que assiste à peça e acha que eles estão usando perucas.

– É uma peça para ser lida e vista mais de uma vez. A cada encontro, mais detalhes se mostram. É uma peça que não te traz respostas, ou uma história linear tradicional. Ela é proposta para mexer com aquele que a recebe de acordo com sua subjetividade, e é daí que nasce tudo. – explica Gabrielle.

As transformações

 Arnaldo Neto (Fotos: Arquivo Pessoal)
Arnaldo Neto (Fotos: Arquivo Pessoal)
Gabrielle Cardoso (Fotos: Arquivo Pessoal / Divulgação)
Gabrielle Cardoso (Fotos: Arquivo Pessoal / Divulgação)
Thiago Lemos (Fotos: Arquivo Pessoal)
Thiago Lemos (Fotos: Arquivo Pessoal)
Lays Ximenes (Fotos: Arquivo Pessoal)
Lays Ximenes (Fotos: Arquivo Pessoal)
Amanda Damasceno (Fotos: Arquivo Pessoal)
Amanda Damasceno (Fotos: Arquivo Pessoal)

Nem todos lidaram da mesma maneira que ela ou Walace com a transformação. Thiago Lemos, o mais novo da turma, com 18 anos, ignorou o conselho da mãe (“não pinte”, basicamente), mas só anda de toca na rua: “apenas as pessoas mais próximas sabem que o meu cabelo está vermelho”. A história do Arnaldo Neto é mais… triste. Outro ator da peça, ele também aceitou o desafio da diretora. Ele tinha o cabelo castanho escuro na altura do queixo e ela inventou que queria vê-lo com um moicano branco. Tudo bem, ele pensou. Começou a descolorir o cabelo sucessivas – e excessivas – vezes até chegar lá e viu seu cabelo cair. Teve que raspar com a máquina 2. O moicano virou um “caminho” descolorido, como ele mesmo define. “Essa mudança foi uma porta de entrada para o personagem”, ele pondera.

Ele, assim como todos que conversaram com o Teatro em Cena, acreditam que a transformação capilar os posiciona como artistas. “Com grande certeza. A coragem de pintar o cabelo e de fazer uma transformação como essa passa aos outros que levo com seriedade meu trabalho de ator”, destaca Walace, que em seguida é complementado por Gabrielle. “Propor a si mesmo a transformação em prol da arte é se posicionar como ferramenta da mesma. É se entregar conscientemente para aquilo que você acredita e luta para levar para frente”.

SERVIÇO: sáb, 21h; dom, 20h. R$ 40. 70 min. Classificação: livre. Até 31 de maio – Sede da Cia de Teatro Contemporâneo – Rua Conde de Irajá, 253 – Botafogo. Tel: 2537-5204.