Carol Castro com figurino de "Nine", assinado por Lino Villaventura (Foto: Divulgação)
Carol Castro com figurino de “Nine”, assinado por Lino Villaventura (Foto: Divulgação)

Quando Karen Akers interpretou a mulher de Guido Contini na montagem original de “Nine” na Broadway em 1982, recebeu uma indicação ao Tony Award. Quando Mary Stuart Masterson ficou com esse papel na remontagem de 2003, idem. Na versão cinematográfica de 2009, com Marion Cotillard, repeteco: nomeação ao Globo de Ouro. Certamente o papel feminino mais denso e de maior carga dramática da história, Luisa Contini é vivida no Brasil pela estreante em musicais Carol Castro, que tem como maior destaque no teatro seu protagonismo em “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (2008), o último espetáculo com o qual ficou em cartaz. Na pele da personagem, que se esforça para contornar a decadência do seu casamento, a carioca de 31 anos, que anunciou sua separação do marido Raphael Sanders há quatro meses, chora em cena noite após noite.

– A personagem é muito sofrida e eu me emociono sempre, toda noite. Às vezes, já começo o espetáculo emocionada, porque ela fica em uma situação difícil de querer a atenção do marido. Ela já esteve no lugar da musa (vivida por Karen Junqueira, de “Rock in Rio – O Musical”), pois já foi atriz dele, e também já esteve no lugar da amante (Malu Rodrigues, de “Beatles Num Céu de Diamantes”), por causa daquele calor e amor tórrido de início de relação. Então, me ponho no lugar dela e fico bem emocionada. – Carol comenta com o Teatro em Cena, após o fim da sessão de estreia no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, já tendo realizado uma temporada de cerca de dois meses e meio em São Paulo.

Para quem não conhece “Nine”, hora do parênteses. O musical de Arthur Kopit, inspirado na peça de Mario Fratti, com letras e músicas de Maury Yeston, conta a história do cineasta italiano Guido Contini, um anti-herói, que se hospeda em um SPA de Veneza para fugir do mundo exterior e tentar superar seu bloqueio criativo. Mas todos os problemas que atormentam sua cabeça – mulheres, sempre mulheres – o acompanham de alguma maneira: a esposa (Carol), a amante (Malu), a produtora (Totia Meireles, de “Gypsy”), a musa (Karen), a mãe (Sonia Clara) e a prostituta de sua infância (Myra Ruiz, de “Nas Alturas”). O espetáculo é uma adaptação para o celebrado longa-metragem de Federico Fellini (1920-1993) “8 ½”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1964. Por isso, a versão brasileira de Charles Möeller e Claudio Botelho se chama “Nine – Um Musical Felliniano”.

De “8 ½” para "Nine", o filme: trajetória de 1963 a 2009 (Fotos: Reprodução)
De “8 ½” para “Nine”, o filme: trajetória de 1963 a 2009 (Fotos: Reprodução)

O mergulho da Carol no papel da esposa deixada de lado contou com todas essas referências. Ela diz que já adorava o trabalho do Fellini e também viu o filme “Nine”. Mas o ponto alto da preparação foi uma palestra rica em curiosidades sobe o cineasta, que ela pôde assistir junto com o elenco. A atriz fala sobre o que aprendeu com verdadeiro encantamento, como fã da obra.

– Por exemplo, a atriz que fez a Carla no filme (Sandra Milo) era amante do Fellini na vida real… Foi muito polêmico na época. E ele usou a própria musa dele, que era a Claudia Cardinale, como a musa do Guido. Usou o Marcello Mastroianni para fazer ele mesmo… porque o Guido é o Fellini, né? De certa forma… – conta, empolgada – Mesmo já gostando do Fellini, aprendi bem mais com essa palestra. Mas a gente se apegou muito ao texto, porque já tem tudo ali. A direção do Charles e do Claudio é espetacular. Eles montaram tudo em cinco semanas, o que, para quem nunca fez um musical, é uma loucura. No começo, eu me descabelava, me questionava…

(Foto: Rodrigo Fonseca)
(Foto: Rodrigo Fonseca)

Pausa. Ah, é. Tem essa. “Nine” é o primeiro musical de Carol Castro e a oportunidade chegou de forma muito despretensiosa e inusitada. Em 2013, ela aceitou o convite para participar do quadro “Dança dos Famosos”, do “Domingão do Faustão”, e chamou a atenção de produtores ao sair vitoriosa. Com apresentações de tango e samba, ela ganhou o concurso contra Tiago Abravanel (de “Tim Maia, Vale Tudo – O Musical”) e Bruna Marquezine (da novela “I Love Paraisópolis”), e levou para casa um troféu, um carro e vários convites para musicais – algo que nunca tinha passado por sua cabeça. Decidiu, então, se preparar. “Sempre fui muito envergonhada para cantar, na verdade. Comecei a fazer aula de canto há um ano, visando me aperfeiçoar como atriz e, caso pintasse um teste, eu já estaria um pouco mais preparada”. Mal começaram as aulas, sete meses depois ela estava em uma sala de audição para “Nine”.

Como pegou um papel intenso, seu desafio aumentou como atriz que se dispõe a cantar. “O mais difícil é cantar emocionada, porque a garganta fecha, dificulta. Tento sempre me controlar muito e segurar a emoção para o final da música, mas nem sempre eu consigo”, diz. No espetáculo, ela tem um solo sofrido logo no início – “My Husband Makes Movies”, a parte em que chora toda noite – e também um número de destaque com Karen e Malu, com pouca roupa, em uma performance sexy, um lugar em que o público está mais acostumado a vê-la.

2008 foi o ano da capa da Playboy e de "Dona Flor e Seus Dois Maridos" no teatro (Fotos: Reprodução)
2008 foi o ano da capa da Playboy e de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” no teatro (Fotos: Reprodução)

Carol Castro ficou famosa em 2003, quando fez sua primeira novela, “Mulheres Apaixonadas”, na pele da filha sensual da empregada. Quem não lembra de Gracinha, o terror de Edwiges (Carolina Dieckmann)? De lá para cá, foram alguns personagens sexies, várias sessões de fotos com esse apelo e até um ensaio nu para a revista Playboy em 2008, quando estava em cartaz com “Dona Flor” no teatro. Nos palcos, também, um ano antes de poder viver a Virgem Maria em “Paixão de Cristo”, ela foi Maria Madalena. Então, quando ela tira a roupa e solta o cabelo em “Nine”, a plateia tem o primeiro vislumbre de algo que já conhece. Porque cantando é novidade.

– Eu sinto uma surpresa de “nossa, não sabia que você cantava!”. É algo novo para mim, então para o público é mais novo ainda. E é muito bacana quando falam “nossa, você canta!”, porque eu estou trabalhando para isso. É fruto de muita dedicação, mesmo. Eu me sinto correndo atrás de um trem em movimento, porque estou no meio de pessoas que fizeram musical a vida inteira (aponta para foto da Totia), ou como a Myra, que estudou musical em Nova York com os maiores profissionais do meio e arrasa, ou como a Malu, que faz desde os oito… Eu falo “nossa, peraí!”. Corda vocal é músculo, então não é da noite para o dia. Você tem que estar todo dia malhando ali, fazendo exercícios, e eu faço fono, faço canto… diariamente. Fico que nem uma maluca fazendo aquecimento com fone com o que gravo das professoras. Estou dando o sangue mesmo.

Com Mario Fratti em São Paulo à esquerda, e Nicola Lama à direita (Fotos: Divulgação)
Com Mario Fratti em São Paulo à esquerda, e Nicola Lama à direita (Fotos: Divulgação)

Se o trabalho não lhe render nenhuma indicação a prêmios, como rendeu nas montagens americanas, Carol Castro pode se gabar de já ter um prêmio. O criador do musical, Mario Fratti, assistiu ao espetáculo em São Paulo e adorou o que viu, o que inclui o trabalho dela. Os dois passaram a trocar e-mails e correspondência, e ele já mandou outras peças para que ela leia.

– Ele falou que já viu todas as montagens de “Nine” e que essa é a melhor dos últimos tempos. Para a gente, foi… nossa! A gente tem isso filmado, graças a Deus. Ele elogiou a classe da Luisa, a garra da Luisa, a força da Luisa. Disse que não tinha o que falar, que estava incrível, que tinha amado. Para a gente, foi um grande incentivo de que, poxa, a gente está no caminho certo, sabe? – ela diz, empolgada por estar finalmente trazendo a peça para o Rio, onde nasceu e mora – Eu acredito que o pessoal vai gostar. Eu não fazia teatro há um tempão e acabei voltando fazendo o maior desafio da minha vida, que ainda é atuar e cantar, então estou bem feliz e espero que o público carioca venha nos prestigiar.

_____
SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 90 (qui e sex) e R$ 120 (sáb e dom). 120 min. Classificação: 12 anos. De 8 de outubro até 8 de novembro. Teatro Clara Nunes – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea. Tel: 2274-9696.