resenha-4estrelas

O ícone do cinema mudo Charlie Chaplin (1889-1977) é tema de um musical teatral. O contrassenso não passa despercebido, obviamente. Com o singelo título de “Chaplin”, o espetáculo estreou na Broadway em 2012 e ficou cerca de cinco meses em cartaz – temporada que rendeu uma indicação ao Tony Award de melhor ator para Rob McClure, o protagonista. Ele, no entanto, não ganhou. O musical também não foi um enorme sucesso de bilheteria, arrecadando menos da metade do potencial das sessões. Então, sua montagem original não justificaria exportações. Mesmo assim, ele chegou ao Brasil, com uma franquia trazida por Claudia Raia (de “Crazy For You”) e Sandro Chaim (de “Crazy For You”), sob o título de “Chaplin – O Musical” (por aqui, se adora colocar o aposto indicador do gênero). Para vendê-lo ao público, tem-se apenas o atrativo de “musical da Broadway”, que sempre cola, além da força do nome do retratado.

(Foto: Reprodução)
(Foto: Reprodução)

Faz-se essa introdução para entender a presença de Marcello Antony (de “Macbeth”) no elenco, como o irmão do biografado. É sabido que “atores da Globo” sempre ajudam a atrair público, principalmente quando o musical não se vende sozinho, e esse é o caso. O protagonista, Jarbas Homem de Mello (de “Crazy For You”), não é um rosto televisivo, e não tem popularidade suficiente para atrair plateias pelo Brasil, no caso de uma turnê. Anthony, sim. A experiência de ver o artista no palco, no entanto, é longe de ser satisfatória. Anthony, infelizmente, prejudica todos os números musicais dos quais participa, com canto inaudível. É impossível assisti-lo sem lembrar que há muitos atores mais bem preparados para o papel de destaque na trama. É um caso claro de escolha comercial em detrimento do artístico.

Dito isso, pode-se afirmar: esse é o único problema grave da produção. “Chaplin – O Musical”, com versão brasileira de Miguel Falabella (de “Crazy For You”) e direção do argentino Mariano Detry, é um bom espetáculo, sim. Representante internacional do filão de biografias musicais, ele se diferencia por trazer o mais interessante de qualquer biografia que se preze: aquilo que o biografado não gostaria que os outros soubessem. Mais do que uma ode ao cineasta inglês, o espetáculo se torna um retrato mais crível dele, egocentrado e repleto de defeitos. O texto de Thomas Meehan (de “Hairspray”) e Christopher Curtis, que também assina as letras e músicas, humaniza o artista ao mostrá-lo justamente em momentos desumanos. A palavra genial, por exemplo, com frequência atrelada ao Chaplin, não aparece nenhuma vez na peça. Arrogante e mulherengo, sim. Quem não conhece sua história se surpreende com a maneira como ele finge inexistir a mãe doente ou como ele não dá suporte à mulher quando ela pare o filho natimorto. Em vez e ir ao hospital, Charlie Chaplin opta por posar para fotos para imprensa, porque “seu público precisa mais dele”. Dramaturgicamente, então, é uma biografia de interesse acima da média.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

A parte musical – o contrassenso mencionado – também é boa. Como justificativa, diz-se logo no início que, na infância, Charlie Chaplin cantava no teatro, quando acompanhava a mãe artista. Então, no espetáculo, não soa absurdo ver Jarbas Homem de Mello cantando muito. Sua concepção de Chaplin, aliás, é extremamente carismática – o que segura a conexão com a plateia, apesar de todos os desvios de conduta do personagem. Com direção musical de Marconi Araújo (de “Crazy For You”), a banda conta com dez músicos, quase sempre invisíveis à cena, e com uma sonoridade tão limpa, que às vezes soam como uma base pré-gravada, o que certamente é um elogio. Chama atenção, também, o coro, que dá um show. No elenco de , os destaques são Giulia Nadruz (de “As Bodas de Fígaro”) e Paula Capovilla (de “Evita”), nos papeis respectivos de esposa e jornalista opositora de Chaplin. Os solos delas são lindos, com timbres extremamente agradáveis.

E isso tudo vem embalado com uma infraestrutura bonita para os olhos. O cenário de Matt Kinley é bem acabado e se reinventa ao longo do musical, com entradas e saídas de suportes, aberturas e fechamentos de paredes, descidas e subidas de projeções, enfim. Já os variados figurinos de Fábio Namatame são muito teatrais e eficazes na função de retratar a cultura britânica e norte-americana da época. Há ainda o visagismo de Dicko Lorenzo, fundamental para marcar a passagem de tempo e o envelhecimento dos personagens, com destaque para o protagonista. “Chaplin – O Musical” é hipnótico esteticamente, viciante biograficamente e bonito musicalmente, Marcello Antony à parte. Diverte e emociona. Vale as 2h30.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

_____
SERVIÇO: qui, 21h; sex, 21h30; sáb, 18h e 21h30; dom, 17h e 20h30. R$ 40 a R$ 170. 140 min. Classificação: 14 anos. Até 30 de agosto. Vivo Rio – Avenida Infante Dom Henrique, 85 – Parque do Flamengo. Tel: 2272-2901.