Há um certo distanciamento na relação do brasileiro com o noticiário das guerras internacionais. A ausência de um equivalente no país não provoca empatia com as vítimas de outras nações. Mas será mesmo que a sociedade brasileira está tão distante dessa realidade ou aqui ela se apresenta de forma mascarada? Foram 50 mil homicídios em 2013, de acordo com o Anuário de Segurança Pública. Desse total, 70% foram vítimas de arma de fogo. O número é maior que o de países asiáticos e europeus que enfrentaram conflitos armados intensos nos últimos 100 anos. Isso dá um espetáculo. Pelo menos, foi o que pensou Iuri Kruschewsky, da Cia. Sala Escura de Teatro. Ele e o grupo estão montando uma peça sobre o mercado ilegal de armas, chamada “3 Dias ou Menos” e baseada em fatos reais. Para isso, recolhem depoimentos de pessoas que conheceram alguma vítima de arma de fogo. Os relatos farão parte da dramaturgia do espetáculo, que tem previsão de estreia para o 1º semestre de 2015.

arte - 3 DIAS OU MENOS

É importante destacar que “3 Dias ou Menos” não será totalmente documental. É uma ficção, inspirada no material colhido nessa pesquisa. “Acredito que conseguiremos um resultado impactante a partir desses depoimentos e da dramaturgia que estou desenvolvendo, repleta de reviravoltas”, Iuri comenta em entrevista ao Teatro em Cena. Ele já tem uma sinopse básica, na qual vai encaixar as histórias que vierem dos colaboradores. Descrita como um suspense, a trama acompanhará como a vida de cinco jovens se conecta por meio de um revólver circulando ilegalmente pelo país. A arma será o fio condutor da história, desde sua fabricação, passando pelos crimes cometidos com ela, até chegar às mãos de uma mulher que a compra para se defender. A ideia surgiu após tragédias acontecidas na vida do próprio dramaturgo. Iuri já perdeu pessoas próximas por causa de tiros. “Das mais variadas formas: amigos de comunidade vítimas de bala perdida; familiar morto em assalto; amigo morto na porta da boate depois de uma discussão…”, lembra. “Os índices no Brasil só aumentam, e principalmente o índice de jovens que entram nessas estatísticas”.

jovens

A facilidade para comprar uma arma será um dos pontos abordados. Na peça, a personagem principal compra um revólver pela Internet e isso desencadeia diversos problemas. Tudo bem diferente da Trilogia dos Sonhos, que a companhia finalizou neste ano, com os espetáculos “É Culpa da Vida Que Sonhei Ou Dos Sonhos Que Vivi”, “Memória Inventada No Sonho de Alguém” e “Pesadelo”. A temática onírica está de lado para o enfrentamento da dura realidade brasileira. O objetivo é abraçar o público jovem, depois que a Sala Escura de Teatro descobriu seu apelo com os espectadores entre 15 e 29 anos. “Nesse novo processo, sentimos a necessidade de ir ao encontro do público jovem. Não na forma juvenil de abordar o tema ou de realizar o espetáculo. Mas no sentido de serem eles, os jovens, o principal foco dessa epidemia brasileira”, conclui Iuri Kruschewsky.

Para participar e conceder seu depoimento para a companhia, é muito simples. Basta acessar a página da Sala Escura de Teatro no Facebook e enviar por inbox sua história sobre uma vítima de arma de fogo.