Cia. dos Inquietos apresenta amoralidade de Limpe Todo o Sangue Antes Que Manche o Carpete

Ed Moraes na pele de Wilson. (Foto: Reprodução / Internet)

Ed Moraes na pele de Wilson. (Foto: Reprodução / Internet)

É a primeira vez que a paulista Cia. dos Inquietos abre uma temporada no Rio de Janeiro – e traz um espetáculo que a plateia carioca já conhece: “Limpe Todo o Sangue Antes Que Manche o Carpete”. Sua montagem para a tragicomédia do Jô Bilac (de “Conselho de Classe”) chega à cidade sete anos após a versão original. Se naquela época o autor era um nome promissor, agora é consagrado, o que torna o espetáculo imperdível para quem ainda não viu.

A peça fala de ética, competição e (falta de) escrúpulos ao tratar da ambição desenfreada e da busca pelo sucesso. São quatro personagens em cena, e quem conduz a história é Wilson (Ed Moraes, de “Oliver”), que disputa com Pierre (Daniel Tavares, de “O Livro dos Monstros Guardados”) uma vaga de emprego em uma empresa importante. O tom dado pelo diretor Eric Lenate (de “Um Verão Familiar”) à encenação é irreal, e funciona muito bem para tratar de situações e ações cruéis. O humor empregado em cada cena atenua o peso da trama – que não deixa de ser uma tragédia exagerada e extremista.

João Paulo Bienemann e Rita Batata em cena. (Foto: Reprodução / Internet)

João Paulo Bienemann e Rita Batata em cena. (Foto: Reprodução / Internet)

Na trama, Wilson, literalmente com a corda no pescoço, persegue seu concorrente com o objetivo de tirá-lo de jogada. Paralelamente, sua namorada Sabrina (Rita Batata, de “Wotan”) convence a amiga Geda (João Paulo Bienemann, de “Oliver”) a ajudá-la em um golpe. Ela é enfermeira particular e cuida de uma senhora morta há dias, sem avisar o falecimento à família. Não quer perder o emprego e, ainda por cima, desfruta do cartão de crédito da cliente em compras estapafúrdias. Chama a atenção a atuação de Rita Batata, que está excepcional no tom blasé da personagem, que diz os maiores absurdos com a cara mais imóvel possível. Ela não perde o tom em momento algum.

O texto do Jô Bilac, na verdade, proporciona ótimos momentos para todos os atores. Há diálogos simples e duros, como um da Geda e da Sabrina, que é mais ou menos assim: “Você é feliz?” / “Sou” / “Não é nada. Olha sua cara!” / “Sou sim. Ninguém é feliz o tempo todo. Sou feliz quando dá”. Apesar disso, a impressão é que a peça termina antes do fim, como se pudesse dizer algo a mais e não dissesse. Mas é compreensível que o autor não quisesse entregar uma “moral da história”. Como a vida, a peça termina de maneira amoral, como a nudez frontal do Daniel Tavares.

O espetáculo fica em cartaz até 4 de maio na Caixa Cultural, no Centro, com sessões de quarta a domingo, sempre às 19h. Os ingressos custam R$ 20, e a classificação etária é para maiores de 16 anos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.