Colete Azul – Por Igor Cosso

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(Foto: Divulgação)

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Eu não acredito na lenda do saci pererê. Nem no centauro da mitologia grega ou que alguém já conversou com um ET. Nem que uma mulher de branco falou “O Alberto está te traindo” pra minha tia na estrada, em Minas, e logo depois sumiu. Acho que minha tia bebeu demais naquele dia. Também não sei se a mulher de branco seria tão fofoqueira assim. E nem que ela saberia que o marido da minha tia se chamava Alberto. Não foi bacana da parte da mulher de branco. Afinal, jogar essa bomba pra minha tia e sumir? Que covardia! Apareça pra mim agora pra ver só!

O tema mais complicado que existe no mundo se chama religião. Eu sei, não é uma novidade, vide guerras mil no Oriente Médio. Mas hoje esse tema está ainda mais presente no meu dia a dia. É difícil entender como pode o outro acreditar tanto em algo que você não acredita. Como uma coisa que pra um é sagrado, pro outro é uma bobagem. Pra um é pecado, pra outro a própria natureza. Pra um é real, pra outro lenda. Pra um é astral, pra outro baixou um santo bem legal.

Um garoto estava andando na rua quando foi surpreendido: “Desculpa lhe interromper, você está com algum problema na vida?”. Era um homem que vestia um colete azul. Logo o garoto notou que havia várias pessoas na rua usando o mesmo colete. “Por quê?”. “Porque o Senhor quer falar com você e vou lhe apresentar o Espírito Santo. Você tem alguma religião?” O garoto não soube responder. Ele não queria falar com o Senhor. Não naquela hora. Não através de terceiros. No meio da rua, atrasado pro ensaio, ele nem sabia ao certo que religião se enquadrava. Ao responder a última pergunta com uma negativa, deu a deixa para uma longa explicação sobre o que, para o homem de colete azul, era uma verdade absoluta.

Bom, é claro que o garoto estava com algum problema. Todo mundo tem problema não é mesmo? Viver dignamente já é um problema. Mas o garoto entendeu a tática publicitário do homem. Quanto mais as pessoas têm problemas, financeiros, pessoais, de saúde etc, precisam de fé para crer que tudo vai melhorar, e, assim, recorrem a uma religião.

Numa conversa com uma grande atriz, ganhadora de prêmio Shell, o tema polêmico surgiu e aquele garoto confessou: “Por enquanto vivo muito bem, cultivo minha relação pessoal com Deus. Mas acho que quando passar por um problema sério na vida, irei atrás de uma religião.” A atriz então olhou para o garoto e disse: “Comigo isso nunca vai acontecer. Eu já tenho religião: o teatro. Quando estou no palco, todos os meus problemas desaparecem.”

Você deve estar pensando que é só mais uma frase clichê, mas calma, ela foi questionada pelo garoto e continuou: “Sabe aquele exato momento em que você está em cima do palco e todos os olhares e corações estão voltados pra você? Aquele momento de suspensão no teatro quando você toca e transforma alguém de alguma forma? Quando olham no fundo dos seus olhos? Isso é Deus. O que está entre você e o outro. Entre mim e você agora, contando essa história. Aqui está Deus. Nós, atores, somos privilegiados. Na igreja, padres e pastores têm um púlpito e cadeiras viradas para atrair a atenção dos fiéis. Nós, atores, temos o palco.

Agora, quando alguém vestindo colete azul parar o garoto na rua e lhe perguntar qual é sua religião, ele já sabe o que dizer: “Eu faço teatro”.

Igor Cosso é ator e dramaturgo.