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De vez em quando, aparecem boas surpresas no teatro, e “Um Estranho No Ninho” certamente é uma delas. Adaptação do livro de Ken Kesey assinada pelo americano Dale Wasserman (de “O Homem de La Mancha”) e trazida ao Brasil pelo ator Tatsu Carvalho (de “Timon de Atenas”), a peça utiliza-se do ambiente fechado de uma clínica psiquiátrica para tratar de questões mais amplas e abrangentes, como a liberdade, o poder, as regras, os questionamentos e os limites. Tudo acontece no salão de um manicômio, para onde R. P. McMurphy (Tatsu), condenado pelo estupro de uma garota de 15 anos, é transferido após fingir ter transtornos mentais para escapar do trabalho braçal da cadeia. A história já foi vista no cinema, em um filme de 1975, vencedor de cinco troféus no Oscar, incluindo o de melhor ator para Jack Nicholson.

(Foto: Felipe Diniz)
(Foto: Felipe Diniz)

Tatsu Carvalho não tem o mesmo carisma do americano, o que torna seu trabalho ainda mais habilidoso. No filme, o detento conquista o espectador desde a primeira aparição. No espetáculo, isso acontece em um crescente mais lento. Comparações são inevitáveis, mas o brasileiro cumpre a função com competência e talento. Todo o elenco está impecável, na verdade. São 16 atores em cena e chama a atenção o trabalho corporal verossímil dos intérpretes dos internos. Ricardo Ventura (de “O Homem Travesseiro”) é um encanto, mas todas as atuações são muito perspicazes. Helena Varvaki (de “O Diário de Anne Frank”), a enfermeira-chefe com quem McMurphy trava um embate pessoal, não perde a postura rígida em uma inspiração sequer.

O texto de Dale Wasserman confirma sua atemporalidade e convida o espectador a entrar naquele mundo pouco lúcido (ou muito lúcido, vai saber), com humor, sem ser comédia. A direção de Bruce Gomlevsky (de “Timon de Atenas”) consegue explorar o talento dos atores e as particularidades da dramaturgia, e resulta em bons momentos. Há uma cena na qual o protagonista recebe choques elétricos e ela poderia ser um horror, mas é forte na medida certa, teatral.

Contribuem para um resultado elogiado o cenário de Pati Faedo, bastante realista, a iluminação de Elisa Tandeta, fundamental em várias cenas, e os figurinos de Alessandra Padilha e Jerry Rodrigues, que parecem gastos e retirados de pacientes de uma clínica real. “Um Estranho No Ninho” é, por si só, um convite para ir ao teatro.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: sex a dom, 19h. R$ 30. 130 min. Classificação: 14 anos. De 1º de março até 3 de maio. Centro Cultural Justiça Federal – Av. Rio Branco, 241 – Centro. Tel: 3261 2550.