*Este texto pode contar spoilers sobre o espetáculo “#Meninos e Meninas”

Douglas Sampaio e Matheus Tederiche protagonizam esquete sobre amor entre dois garotos (Foto: Arquivo Pessoal)
Douglas Sampaio e Matheus Tederiche protagonizam esquete sobre amor entre dois garotos (Foto: Arquivo Pessoal)

Se o cantor Sam Smith escreveu um álbum inteiro narrando sua paixão platônica por um heterossexual na Inglaterra, a história não é muito diferente no Brasil. O espetáculo teatral “#Meninos e Meninas”, em cartaz no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea, tem um esquete exatamente assim: um adolescente gay é apaixonado pelo melhor amigo, heterossexual, e tem medo de declarar seu amor e perder a amizade. O final, sim, diverge. Sam Smith continuou sozinho na vida real (mas recebeu seis indicações ao Grammy Awards!). Na ficção, os atores Douglas Sampaio (de “Bodas Pelo Avesso”), de 21 anos, e Matheus Tederiche (de “Estúpido Cupido”), de 18, selam a trama com um beijo – que pega muita gente de surpresa, mas geralmente provoca aplausos na plateia. Desde sua estreia, em junho do ano passado, Matheus já presenciou todo tipo de reação entre os 22 mil espectadores que viram as 74 sessões da peça até o momento do fechamento desta matéria.

– Acho bacana porque conseguimos perceber que a galera tá mais desencanada e aberta para aceitar as diferenças. Lembro de uma vez que eu percebi um sinal reprovador, mas na mesma hora a plateia se manifestou pedindo silêncio. Eu, particularmente, acho importante qualquer tipo de manifestação. Só assim abrimos espaço para discutir o assunto e quem sabe abrir a mente de pessoas preconceituosas mostrando que o amor deve sobrepor a qualquer coisa. – diz o jovem ator que, antes da entrada do Douglas no espetáculo, fez a cena com Lucca Diniz (da novela “Malhação”) e Biel Portela. Já foram muitos beijos e três parceiros diferentes.

Cena do beijo na 1ª temporada da peça: Lucca Diniz e Matheus Tederiche (Foto: Reprodução / Graça Paes)
Cena do beijo na 1ª temporada da peça: Lucca Diniz e Matheus Tederiche (Foto: Reprodução / Graça Paes)

“#Meninos e Meninas” tem a assinatura da dupla Afra Gomes e Leandro Goulart, a mesma de “Garotos”, outro espetáculo voltado para adolescentes. Na estreia, há sete meses, Goulart ressaltou a importância de tratar da homossexualidade com naturalidade e sem hipocrisia. Como o espetáculo visa a formação de público, esse caráter é ainda mais acentuado. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia, 7% das vítimas de assassinatos por homofobia no Brasil são pessoas de até 18 anos. Esses são os casos extremos. Frequentemente, surgem notícias sobre agressões na saída de festas ou práticas de bullying em colégios de todo o país. Um simples beijo entre pessoas do mesmo já foi motivo para expulsão de igrejas, shoppings e bares. Fora o que nunca é dito. Diante disso, ainda em 2015, há adolescentes e jovens adultos que reprimem sua sexualidade por medo, vergonha, culpa e, principalmente, tabu.

– Existem muitos adolescentes que não tem coragem de se assumir por causa da família ou dos amigos. Mas, no texto, o personagem demonstra justamente o oposto. Ele tem muitos amigos, e todos sabem que ele gosta de meninos. E isso pra ele não é um problema! O importante da cena, na verdade, é mostrar que toda forma de amor vale a pena. – defende Matheus.

Douglas Sampaio acredita que peça ajuda a mostrar que preconceito é "coisa do passado" (Foto: Reprodução)
Douglas Sampaio acredita que peça ajuda a mostrar que preconceito é “coisa do passado” (Foto: Reprodução)

Seu parceiro de cena, Douglas é conhecido pelo público teen desde que fez a novela “Malhação” em 2011. O ator, pai de um menino de quatro anos, é sarado, bonitão e faz sucesso com o público feminino. Na Internet, não é difícil encontrar fotos dele em ensaios sensuais só de sunga, o que comprova esse apelo. O papel na peça, então, é uma novidade na carreira, para ele e para seu público. Na saída do teatro, ele ouve algumas meninas em tom de desapontamento pelo beijo em Matheus.

– Algumas brincam, mas sempre de uma forma tranquila. O beijo gay não é algo vago, jogado à toa. Tem história, tem conteúdo e acaba que, no fim, todos torcem para que aconteça! O que mais ouço dos que vão pela primeira vez é “Fiquei surpreso com o conteúdo do espetáculo. Vou voltar!”. E voltam.

Há ainda os gays que se aproximam dos atores no fim da peça para compartilhar suas histórias. Matheus já ouviu vários espectadores dizerem que também se apaixonaram por amigos heterossexuais, como seu personagem. “Inclusive, já vieram me perguntar se o beijo era de verdade! Claro que é!”, ri o ator. Mais novo, ele não nega que ficou um pouco apreensivo quando soube que faria esse papel no espetáculo.

"A orientação sexual das personagens é o que menos importa ali", diz Matheus Tederiche (Foto: Divulgação)
“A orientação sexual das personagens é o que menos importa ali”, diz Matheus Tederiche (Foto: Divulgação)

– Achei que minha mãe não fosse aceitar e tudo mais! Mas tivemos uma preparação muito bacana e depois isso passou a ser encarado de forma muito natural, que é como deve ser mesmo, já que faz parte do meu ofício. Sou ator, e meu corpo e minha voz são meus instrumentos para compor qualquer tipo de personagem. No final das contas, a orientação sexual das personagens é o que menos importa ali: a cena fala sobre o amor, com todo o romantismo e a delicadeza que tem por trás desse sentimento.

Orientação sexual também é o que menos importa para Douglas quando o assunto é seu filho Bernardo. Da mesma maneira que seu personagem, ele defende a felicidade ao invés de rótulos.

– Eu me importo que ele seja feliz, cabe a ele seguir o que sente. Sempre terá meu apoio! Preconceito é coisa do passado!

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SERVIÇO: sáb, 18h; dom, 17h. Sessões extras em janeiro: seg, 21h. R$ 60. 75 min. Classificação: 14 anos. Até fevereiro. Teatro das Artes – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 / 2º andar – Gávea. Tel: 2540-6004.