“Se Eu Fosse Você, o Musical” chega ao Teatro Oi Casa Grande com o dever de repetir o sucesso dos musicais anteriores que ocuparam o espaço: “Elis, a Musical” e “Tudo Por Um Popstar”. O que os três têm em comum? São produções da Aventura Entretenimento, empresa que já estabeleceu um padrão de qualidade próprio. Todo o aspecto técnico é perfeito – resultado do investimento declarado de R$ 8 milhões e contratação de profissionais renomados. Só peca-se na parte artística, um pouco.

Claudia Netto e Nelson Freitas respectivamente como Cláudio e Helena. (Foto: Divulgação)
Claudia Netto e Nelson Freitas respectivamente como Cláudio e Helena. (Foto: Divulgação)

Os cenários do Paulo Corrêa são um caso à parte. A parafernália que entra e sai de cena, é abaixada e suspendida, deslizada para os lados, e corrida para frente e para trás, dá dinamismo ao espetáculo. Algumas cenas trazem interações dos atores com um telão, à la turnê da Beyoncé, como uma partida de futebol em que os gols estão previamente gravados (videografismo de Rico Vilarouca) e o elenco se movimenta com uma bola imaginária. É esteticamente belo. Ninguém erra, todos milimetricamente coreografados por Alonso Barros, que faz sua estreia na direção.

Os figurinos, assinados por Marcelo Pies, estão em sintonia com os cenários e, no caso do elenco protagonista, são sempre muito teatrais – no melhor sentido do adjetivo. Os personagens ganham vida com as roupas coloridas, em contramão à paleta de cores mais fria e cinza dos dois filmes do Daniel Filho, que assina a supervisão artística. É o que se espera de uma comédia musical.

Os incômodos ficam por conta do roteiro e da trilha sonora – entrelaçados. Flavio Marinho optou por iniciar a peça com a notícia de que Bia (Lua Blanco) está grávida de Olavinho (Bruno Sigrist), e tem que tomar coragem para contar a novidade para os pais – Helena (Claudia Netto) e Cláudio (Nelson Freitas). É a primeira cena, seguida de uma divergência entre o casal principal, por causa de uma viagem de lua de mel constantemente adiada há 20 anos. Como a trama é conhecida pela maioria do público (o segundo filme, na época, bateu um recorde histórico de bilheteria), é inevitável sentir que se demora muito para a troca de corpos acontecer. É só na oitava performance musical que Helena e Cláudo, por fim, invertem de corpos. Oitavo! É quase um ato inteiro para a história começar. As risadas do público, ávido pela comédia, só aparecem com força a partir daí. Quando a troca ocorre, o espetáculo eleva o nível.

Lua Blanco e Claudia Netto em cena: filha e mãe/pai. (Foto: Divulgação)
Lua Blanco e Claudia Netto em cena: filha e mãe/pai. (Foto: Divulgação)

Nelson Freitas está impagável na pele de Helena. Seus trejeitos, é verdade, são um pouco gay, mas funcionam. A cena em que ele aparece no vestiário masculino com a toalha enrolada até a altura dos seios é hilária – assim como a dele fazendo compras no shopping com a personagem de Kacau Gomes (que tem um solo impressionante em “Mutante”). O ator tem um timing de humor indiscutivelmente eficaz. Claudia Netto, por sua vez, está tão convincente como o Claudio, um machista estressado, que não gera risos simplesmente por ser uma mulher a fazer um homem. Ao contrário de Nelson, que leva a plateia à gargalhada apenas por sua aparição, ela instiga as risadas em momentos pontuais. Mas o número mais bonito de todo o musical é seu solo em “Balada do Louco”, quando Claudio, no corpo da Helena, tem um ataque histérico. É dramático e bom para os olhos e para os ouvidos. A atriz, aliás, dá show durante as três horas de peça. Merece destaque também Fafy Siqueira, a avó maconheira, que ganha aplausos efusivos antes mesmo do fim do seu número com Lua Blanco em “Ovelha Negra”.

:: Exclusivo: veja um trecho do espetáculo!

Nada a se declarar quanto à trilha sonora com músicas exclusivamente da Rita Lee. É lógico que a vasta discografia da cantora é ampla e oferece material suficiente para várias peças. Isso de forma alguma seria um limitador. O problema, na verdade, é a inserção de hits que nada têm a ver com a trama. Há diversos números criados especialmente e unicamente para apresentar tais músicas, como “Doce Vampiro”. Esta, especificamente, aparece em uma performance sensual, fruto de um sonho erótico dos protagonistas. Só um sonho para justificá-la. Nesses casos, fica forçado.

No mais, a direção do Alonso Barros é uma feliz surpresa. Ele conseguiu imprimir uma velocidade interessante para a peça, principalmente naquela primeira parte, em que tarda-se tanto para o acontecimento da troca de corpos. Os números musicais também não são tão grandes, ganhando mais espaço apenas no segundo ato, quando a história já está bem definida. Guto Graça Melo fez um trabalho elogiável, e a banda também merece os parabéns.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

“Se Eu Fosse Você, o Musical” ficará no Teatro Oi Casa Grande até julho. Os ingressos variam entre R$ 40 e R$ 180, e as sessões ocorrem de quinta a domingo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.