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“Race” é a segunda peça de uma trilogia de David Mamet que a CiaTeatro Epigenia quer concretizar. A primeira foi “Oleanna”, cuja temática o diretor Gustavo Paso (o mesmo de “Race”) definia como “estupro de natureza intelectual ou, mais especificamente, de natureza emocional”. Embora as duas peças tragam contextos e narrativas distintas, em “Race” (foi mantido o título em inglês pela falta de correspondente em português que indicasse tanto raça quanto corrida), de fato, há um estupro – sexual. É ele o ponto de partida do espetáculo, que discute sobre racismo e justiça sem papas na língua. Na história, um homem rico e branco é acusado de assédio sexual por uma mulher negra e busca o escritório de uma dupla de advogados, um branco e um negro, para armar sua defesa. A cor da pele de nenhum dos personagens seria citada aqui em qualquer outra situação, mas a dramaturgia gira em torno disso, de modo que a etnia de cada um se torna extremamente importante para o desenrolar dos fatos.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

A acusação de estupro logo se revela um caso de homem branco x mulher negra, com o branco na posição de réu. É uma percepção imediata dos advogados, por entenderem que, por mais que não verbalize, o júri, representante da sociedade, está entranhado de conceitos raciais – em tese, todos são racistas em maior ou menor grau. Se o homem cometeu o crime ou não, acaba sendo o de menos, enquanto a defesa constrói o que chama de “espetáculo” para a plateia, no caso, o júri. Não há qualquer utopia de justiça: é um jogo de quem tiver a melhor história no tribunal. Importa não o que aconteceu, mas o que os outros vão acreditar que aconteceu. O texto de Mamet, traduzido por Leo Falcão, é ágil, agressivo, direto, em estado constante de confronto. É como se os advogados, por terem que manipular tanto a linguagem nos tribunais, se despissem de qualquer cortesia nos bastidores do caso no escritório, o que é interessante de se ver. A dramaturgia constrói percepções para desconstruí-las em seguida, revelando nuances e incitando o público a pensar se realmente é 100% isento de atitudes e pensamentos de teor racista. Há uma personagem feminina, uma espécie de estagiária do escritório, que é fundamental para esse aspecto. O contraponto dela com o advogado negro aponta uma discriminação existente dentro da própria etnia.

A montagem de Gustavo Paso é sofisticada. A encenação acontece entre duas plateias, uma de frente para a outra, vendo os atores de perfil a maior parte do tempo. Tudo acontece na sala desses advogados. A cenografia , criada pelo diretor e Luciana Falcon, traz uma mesa, quatro cadeiras, telas de TV no teto, um vestido vermelho de lantejoulas pendurado (roupa que a acusadora usava na cena): é pouco e proporciona um efeito visual refinado. Os figurinos, também de Luciano Falcão, são sóbrios e realistas. A iluminação, de Paulo Cesar Medeiros, em determinados pontos de escuridão, cria fragmentos especificamente bonitos.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

O elenco, formado por Gustavo Falcão (de “Matador”), Heloisa Jorge (de “Amêsa”), Luciano Quirino (de “Jair em Disparada, o Musical”) e Yashar Zambuzzi (de “Blackbird”), também faz um trabalho atraente. O clima de tensão e de conflito que eles e o diretor conseguem construir, respeitando todas as dúvidas do texto, é cativante. Um ponto negativo é a velocidade dos diálogos, principalmente no início do espetáculo, quando Gustavo Falcão fala tão rápido que é difícil acompanhar. Em duas cenas na sessão assistida, na verdade, tanto ele quanto Luciano travaram a língua de tão rápido que disparavam o texto. O ritmo é por vezes excessivamente acelerado. É uma opção da direção – visto que os personagens de Yashar e Heloisa não verbalizam da mesma forma – mas às vezes compromete o entendimento.

O espetáculo desperta inquietudes e incômodos ao botar o racismo na mesa. O fator étnico se sobrepõe à discussão do estupro. Tal temática faz muito sentido no Brasil. Ainda que se trate de um texto americano, com peculiaridades americanas, comunica diretamente com o espectador. Ao fim da sessão, ainda há, uma conversa do elenco com o público na sala, o que torna a experiência mais rica.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 50. 75 min. Classificação: 14 anos. Até 20 de dezembro. Teatro Poeirinha – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.