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É a subversão que causa o riso na comédia “Pequenos Poderes”, escrita por Diego Molina (de “Fabulamente”) a partir de uma ideia apresentada originalmente no Clube da Cena. Como uma caricatura, a peça leva cenas comuns do dia-a-dia ao extremo e inverte situações para apontar equívocos humanos, como o preconceito. O fio condutor do espetáculo, que é dividido em esquetes independentes, é o questionamento do fator limitador dos impulsos radicalistas: a lei, a religião, a ética ou a simples ausência de poder? Cada cena se dedica a explorar um elemento, de forma bem atual, ao encontro do que a mídia vem discutindo nos últimos tempos.

(Foto: Maya Zalt)
(Foto: Maya Zalt)

O início, por exemplo, é uma situação de bullying no colégio. Um menino chama o outro de “paraíba filho da puta” e os dois vão parar na diretoria. Lá, a professora – a representação do poder – mostra que também tem seus preconceitos instituídos e, em vez de dar o exemplo, tira sarro de ambos, um por ter origem nordestina e o outro por apresentar comportamento homossexual, reforçando a discriminação. É uma cena hilária, e não pelo humor raso de tirar sarro de minorias, mas sim por escrachar o absurdo do que é encenado. Funciona.

Fruto de uma produção independente levantada via financiamento coletivo, o espetáculo tem como ponto alto a criatividade da cenografia (do próprio Diego Molina). É tudo muito básico e eficaz. Com algumas cadeiras e uma mesa, o espetáculo convence quando ambienta as cenas na escola, em uma agência bancária, em um programa de TV sensacionalista e em um tribunal. Com apoio da iluminação (de Aurélio de Simoni e Ana Luzia M. de Simoni), da trilha sonora (de Armando Babaioff) e do forte elenco, você nem nota que é sua imaginação que complementa o que os olhos não veem. Isso é ótimo.

Há algumas derrapadas, no entanto. Embora a peça seja curta, com apenas 60 minutos, ela tem excessos no texto, com esquetes que poderiam terminar antes, sem perda de sentido e/ou humor. E, às vezes, perde-se a mão na piada. Há muitas tiradas com homossexuais, por exemplo, mas sempre de uma maneira crítica, que é possível encaixar com a proposta expressa no programa: refletir sobre a perspectiva apoiada na tradição escravocrata, homofóbica, machista e aristocrática. Mas a última cena, que busca o riso com piadas a uma personagem sem braço, parece gratuita. Tudo acontece em um tribunal, onde o réu confesso defende o assassinato de um morador de rua, um menor infrator e um índio como um ato corajoso de extermínio. É ele que ri da promotora deficiente e, embora o discurso discriminador esteja na boca de um personagem criminoso e esdrúxulo, não contribui em nada para o todo. É agressivo. A cena seria melhor sem isso. Não duvido da intenção de Diego Molina, que integrou o grupo Os Inclusos e os Sisos, defensor da acessibilidade total no teatro, mas a ideia é mal construída nessa cena e a reflexão não se faz presente.

(Foto: Maya Zalt)
(Foto: Maya Zalt)

Os atores estão ótimos. Andy Gercker (de “O Retorno ao Deserto”), Bia Guedes (de “Surto”), Mariana Consoli (de “Terapia do Riso”) e Zé Auro Travassos (de “Meu Ex Imaginário”) entenderam bem a proposta da dramaturgia e agregam valor com suas interpretações minuciosas. A direção de Breno Sanches (de “POP – 15 Minutos de Fama”) soube explorar o melhor de cada um, de modo que os quatro têm seus momentos de destaque de maneira razoavelmente equânime. Zé Auro, no entanto, é especialmente engraçado e impressiona pelas diversas nuances ao longo da encenação. Vale ver para rir e, dependendo de quem for você, repensar suas posições.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: sáb a seg, 20h. R$ 30. 60 min. Classificação: 16 anos. Até 17 de agosto. Sede das Cias – Rua Manoel Carneiro, 12 – Lapa. Tel: 2137-1271.