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Tudo chama atenção em “Paparazzi”, texto inédito no Brasil, escrito pelo romeno Mátei Visniec, e montado aqui com direção de Adriana Maia (de “Hamlet ou Morte!”). Primeiro, a programação: a peça é apresentada todos os dias da semana, menos terça-feira, quando o CCBB, onde está em cartaz, não abre. É um fato raro. Segundo, o local – embora o centro cultural tenha três teatros, o espetáculo ocupa uma das salas de exposição do segundo andar. Terceiro, a recepção: quando você entra na sala, os atores estão por ali indicando os assentos. É um Leonardo Vieira (de “Arlequim”) dizendo que você pode dar a volta e se sentar do outro lado, ou uma Malu Valle (de “A Porta da Frente”) te convidando para ocupar um lugar mais próximo do palco. Quarto, o cenário, de Mina Quental: dizer que se parece com uma passarela de desfiles de moda é a melhor descrição que encontro – mas é uma passarela de papelão de caixotes de produtos. E, quando você vai ao teatro e sente na primeira fila de um desfile, isso é pleno de interpretações.

(Foto: Isa Lobato)
(Foto: Isa Lobato)

“Paparazzi”, ao contrário do que o título possa indicar, não trata da superficialidade das celebridades ou das revistas especializas. O tema é o fim do mundo. Na história, o sol sofre uma implosão e passa a diminuir aceleradamente, tornando-se impossível vê-lo da Terra, fadada à escuridão. O clima é de fim do mundo e o governo pede que ninguém entre em pânico, e que todos fiquem em suas casas e economizem água e eletricidade. Mas Mátei, em vez de mostrar o alvoroço da sociedade com o apocalipse, pincela personagens que estão alheios ao fim do mundo, isolados e desinteressados. Os paparazzi do título estão lá: são dois – um (Leonardo Vieira) cobrindo de longe a festa na casa de uma celebridade, e o outro (Rafael Queiroz, de “Sonhos de um Sedutor”) registrando crimes e flagras nas ruas. Nenhum se dá conta da inutilidade de sua função no que podem ser suas últimas horas de existência. O chefe deles, tampouco, preocupado com a capa do dia seguinte – que não haverá.

O mesmo se repete em outras situações, como matadores querendo executar um rival, sem atinar que o mundo está acabando, e um casal tentando comprar passagens de trem para “o mais longe possível”. Mas os personagens mais interessantes talvez sejam os minimamente conscientes. Há um mendigo (Alexandre David, de “Vida É o Quê?”), que não está nem aí para o apocalipse, mas interpreta o momento como a oportunidade de fazer o que bem entender, e uma cega (Malu Valle). Ela é o contraponto para todos os que não querem enxergar: solitária, usa seu telefone para ligar para números aleatórios, buscar um pouco de atenção, e pedir que descrevam o que veem. Em todos os telefonemas, pergunta como está o céu. Todos olham, mas não veem. É uma construção interessante – e Alexandre David e Malu Valle apresentam interpretações especialmente cativantes.

(Foto: Isa Lobato)
(Foto: Isa Lobato)

O elenco muda e desmuda de personagens com rápidas trocas de figurino (de Adriano Ferreira), que pontuam bem cada vertente da história. O que incomoda um pouco é a ocupação do espaço, nas duas pontas da passarela. Como em desfiles, é necessário que o espectador estique a cabeça para frente ou para trás para ver algumas cenas. É desconfortável, embora a opção da cenógrafa e do diretor sejam atraentes. Além disso, chama a atenção a sonoplastia, com direção musical de Alexandre Elias.

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SERVIÇO: qua a seg, 19h. R$ 10. 90 min. Classificação: 14 anos. Até 24 de agosto. Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2052.