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(Foto: Thati Bione)
(Foto: Thati Bione)

Eu amo trabalhar com a arte. Seja qual for o gênero ou a modalidade, começar um trabalho novo e mergulhar num universo diferente a cada personagem é algo realmente mágico e empolgante pra mim. Sempre sou muito agradecida por poder fazer o que eu amo e ter a oportunidade de viver disso.

Mas algo que considero a maior infelicidade da nossa profissão como ator é o bendito teste. O ritual da audição, ou “audition” – como é chamado em inglês –, é um processo necessário para a escalação de um elenco porém horripilante e assustador para nós que estamos sendo julgados, selecionados ou dispensados.

Ao longo da carreira passaremos por alguns testes tranquilos que não nos abalam tanto, mas na maior parte das vezes, principalmente no início da carreira, vivemos a rotineira sequência de estudo e preparação, desespero e expectativa, dúvida e auto estima oscilante que provém da nossa eterna busca por trabalho.

O local do teste ou audição é o lugar mais tenso e traumático, principalmente se é para um trabalho que queremos muito. O coração não para de bater, o frio na barriga é constante, e ainda corremos o risco de ter nossa performance sabotada pelo nosso nervosismo e nossa vontade de passar. Quase sempre tem uma espera grande até ser chamado, o que pode só aumentar a tensão. Você olha em volta e vê toda a concorrência para o mesmo papel e começa a enumerar a probabilidade de você vencer a disputa contra esse talento todo ao seu redor. Aí te chamam e sua barriga parece que vai virar mingau de aveia e espatifar pelo chão.

“O que estão pensando de mim? Será que sou o que procuram?” Se fazer cena pra uma câmera já é ruim, imagina audicionar de frente pra uma banca inteira de diretores e produtores, alguns que você conhece e admira, tendo que cantar, atuar e, muitas das vezes, dançar! A boca fica seca, a voz trêmula… Eu já saí de testes arrasada porque eu não tinha feito nada do que tinha preparado, o nervosismo havia mudado tudo na hora.

E depois ainda tem a espera pós-teste, o passa ou não passa, as horas seguidas olhando pro celular esperando ele tocar. Às vezes ele toca, às vezes não. Às vezes você descobre que outro passou pro papel e você só será informado que foi dispensado semanas depois. Tem o baque inicial da rejeição sempre que a resposta é negativa, mas também tem o alívio: agora passou. Não preciso mais me preocupar com isso.

Levou anos pra eu domar a minha expectativa em relação ao todo que o teste representa e simplesmente estar presente no local e mostrar o meu trabalho. Quando eu comecei a passar em alguns testes, e ver que às vezes, sim, você é o escolhido, comecei a levar mais leveza pro processo seletivo. Tem tanta coisa que está fora do nosso controle, como perfil, personalidade, timbre de voz, cisma do autor, vontade pessoal do diretor, combinação com elenco já selecionado e inúmeros outros fatores que nunca ficamos sabendo, que não vale a pena ficar se preocupando com o resultado. Temos que ir, mostrar nosso trabalho, levar o que temos pra oferecer, e entregar nas mãos de Deus.

Tem muita gente que conheço que vai muito de boa para um teste. Dá risadas, brinca com os amigos na sala de espera, faz o seu e vai embora tranquilo sem pensar duas vezes no que acabou de fazer. Admiro muito essas pessoas e a confiança e tranquilidade que desenvolveram.

Já fiz um teste de vídeo em que eu tinha que encenar um monólogo. Me perdi tanto na minha cabeça que titubeei muito no texto, ao ponto do produtor de elenco perguntar se eu queria estudar um pouco mais lá fora e depois voltar pra fazer de novo.

Também já entrei pra cantar de frente pra uma banca de teatro musical com uma música linda preparada. Minha professora de canto havia elogiado muito a música na minha voz e disse que eu estava no domínio certinho. Mas eu entrei pra sala de audição querendo tanto o papel que acabei jogando a tensão toda pra minha voz. Fui interrompida pelo diretor que pediu pra eu começar de novo, porém menos gritada.

Um ano depois, um pouco mais madura, entrei pra uma outra banca e consegui cantar bem, com a voz limpa. Acho que gostaram porque pediram pra eu cantar mais. Escolheram outra música que eu não havia preparado, então peguei a melodia na hora com o pianista e cantei com a letra na mão só pra mostrar minha extensão naquela região. Saí da sala sendo elogiada.

Nunca se sabe o caminho que o teste vai levar, nunca se sabe como a pessoa assistindo vai se sentir e receber o que você leva, então não adianta se preocupar com isso, ou tentar adivinhar. Muitos anos atrás fiz um teste pra uma novela muito promissora. Essa fase do teste se tratava de um diálogo com outro ator já dentro do cenário que seria da novela. Só tinha eu, o ator e as câmeras no estúdio. Relaxei, e me joguei na cena como eu faria se já tivesse trabalhando. Quando saí do estúdio, o diretor estava na porta e me abraçou, dizendo que tinha adorado e me agradecendo. Foi aí que entendi que a tranquilidade é um dos maiores truques para um bom teste.

Mas como atingir essa tranquilidade? Uma vez eu estava me preparando para um teste importante com o meu coach – que é uma espécie de professor de teatro particular, um preparador de atores. O teste era para uma novela que eu queria muito, e eu estava tendo muita dificuldade de me envolver na cena e no texto porque eu não parava de pensar no quanto eu queria passar, e em tudo que iria mudar na minha vida se isso acontecesse.

Quando vi que não estava rolando, pedi a ajuda dele. Perguntei como eu fazia pra sair da minha cabeça e esquecer todos os fatores externos que me pressionavam e simplesmente estar na cena. Ele me ensinou algumas técnicas, como falar em voz alta tudo que você vê à sua frente, ir citando em detalhes o que te cerca pra trazer sua consciência pro presente. Depois ele me disse – e amo ele por isso, pois era tudo que eu sempre me digo, mas naquele momento eu tinha muito que ouvir de outra pessoa:

— Lua, tudo que te tenciona não existe. Ou são traumas do passado ou expectativas pro futuro, mas nem o futuro nem o passado existem. Então a única coisa que te resta é viver esta cena agora, viver a dor e a perda desse personagem agora. Depois entrega, pois não vai mais estar nas suas mãos.

— E se eu não passar? — perguntei.

— Isso não importa. Você não está indo lá pra passar, está indo pra viver uma cena. A aprovação não importa.

Levei isso no dia, e repeti pra mim mesma inúmeras vezes. De fato é uma das maiores verdades do nosso ofício. Estamos aqui para viver a nossa arte, pra representar os nossos textos, para cantar as nossas canções, e em alguns casos – não no meu – para dançar as nossas coreografias. Não vale ficar colocando o rumo da nossa carreira e as opções de trabalho à frente da nossa arte. O ofício sempre tem que vir em primeiro lugar.

Quando cheguei no tal do teste, a sala de espera estava cheia de atrizes lindas e talentosas, todas que eu já conhecia de alguma forma. Pensei em como elas também estavam passando pela mesma coisa que eu, cada uma batalhando pelo seu espaço num mercado tão disputado. Elas não eram minhas concorrentes e sim minhas cúmplices. Elas mereciam passar tanto quanto eu e estavam, assim como eu, trabalhando para acalmar o nervosismo e fazer um bom teste.

No canto da sala tinha uma atriz linda e muito simpática que já havia trabalhado com uma das minhas irmãs e eu gostava muito. Fui cumprimentar ela e acabei sentando do seu lado. Conversamos um pouco e depois ficamos em silêncio esperando. Ela tinha chegado muito antes de mim e estava prestes a entrar. Quando ela viu que estava chegando sua vez, comentou,

— Começou o nervosismo! — e foi se alongar e balançar o cabelo como fazemos quando não tem mais o que se preparar mas achamos que um ultimo ajeito adianta. Lembrei do que meu coach falou e achei que poderia ajudá-la. Então disse,

— Sabe o que você faz? Esteja aqui.

— Aqui? Como assim? — ela perguntou.

— Esteja toda aqui, dentro da sala, dentro da cena. Você tá nervosa porque você tá pensando no futuro, mas ele não existe. O que existe é o aqui, e nada aqui assusta.

Ela olhou pra mim e abriu um sorriso iluminado, acenou um sim com a cabeça e disse,

— Então vou estar aqui! — e entrou pra sala do teste.

Quando saiu, ela estava com a leveza de quem cumpriu a missão e largou essa missão na sala de vídeo. Veio se despedir de mim e disse,

— O grande lance é não pensar se vai passar ou não, e só se preocupar em fazer uma boa cena. — Eu sorri e pensei, é isso.

“Quando estamos presentes, nunca precisamos esperar por nada.” [Eckhart Tolle]

Lua Blanco é atriz e cantora.