Um latão de lixo laranja da Comlurb. Piso de quadra esportiva. Cadeiras remendadas, com pichações em corretivo escolar. Um ventilador enguiçado. Uma tabela de basquete, uma trava de futebol. Armários cinzas, pichados e destruídos. Um professor sentado, corrigindo provas e se abanando com elas. Para quem já frequentou escola pública, é difícil entrar na sala do teatro para assistir à peça “Conselho de Classe” e não ter um dejà vu.

(Foto: Divulgação)
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O cenário da Aurora dos Campos é o primeiro impacto positivo, seguido imediatamente da trilha de Felipe Storino. Naquele ambiente, enquanto o público ainda encontra seus assentos, ouve-se o barulho típico de um colégio na hora do recreio. É quase real, misturado aos sons do trânsito e da rua. Se não fosse pela hora, o espectador poderia ficar em dúvida e achar que a sala era invadida por sons externos. Mas aquilo é cênico, e impressiona novamente pelo tom realístico.

Vencedora de quatro troféus no Prêmio Cesgranrio de Teatro (direção, cenografia, texto nacional inédito e melhor espetáculo), “Conselho de Classe” concorre a mais três no Prêmio Shell de Teatro. Escrita por Jô Bilac (de “Caixa de Areia”) e dirigida pela dupla Bel Garcia (de “Inbox”) e Susana Ribeiro (de “JT – Um Conto de Fadas Punk”), a peça da Cia. dos Atores convida à reflexão. São cinco personagens em cena: quatro professoras, interpretadas por Cesar Augusto (de “O Bem Amado”), Leonardo Netto (de “Corte Seco”), Marcelo Olinto (de “Devassa”) e Thierry Trémouroux (de “Apropriação”), e um enviado da Secretaria de Educação, vivido por Paulo Verlings (de “Maravilhoso”). A trama acompanha o último conselho de classe do ano, antes do Natal, quando os alunos já estão de férias, e a escola está sem água. O representante da Secretaria comparece porque a diretora está afastada, depois de ter se acidentado durante um protesto organizado pelos alunos na quadra. O motivo? Não poder entrar na escola de boné, que não compõe o uniforme estudantil.

(Foto: Divulgação / Dalton Valério)
(Foto: Divulgação / Dalton Valério)

Falar de educação no Brasil corre o risco de chover no molhado e cair em chavões. Mas Bilac consegue fugir disso. Ele escracha os problemas do sistema e foca principalmente nas questões micropolíticas, e nos entraves do dia-a-dia. O texto não traz exatamente respostas, mas põe luz em pontos poucos discutidos, como as divergências internas de cada instituição, a tensão e a estafa do corpo docente. “Educação” não é uma unidade, como se verbaliza no senso comum, mas um mar de vertentes e choques. O roteiro é bastante atual e, pelo que se lê nos jornais, tende a continuar assim pelos próximos governos. Na trama, uma das professoras diz que gosta de ir ao teatro de vez em quando “para ver pessoas de mentira falando verdades”, já que a vida está “cheia de pessoas de verdade falando mentiras”. É emblemático.

O tom é muito político, mas sabe-se recorrer ao humor inteligentemente para suavizar a proposta. A escolha dos diretores por colocar atores homens para interpretarem mulheres também funciona. A atuação é particular. Eles não se travestem nem fazem caricaturas femininas, pelo contrário. É tudo muito sutil. O elenco dispara as falas, com adjetivos femininos, mas com voz grave e de bermudas. Isso também provoca o riso em vários momentos, até quando são discutidas questões sérias. É uma boa maneira de ouvir gente de mentira falando verdades.

A peça fica em cartaz no Espaço Municipal Sergio Porto, no Humaitá, até 30 de março. As sessões são sextas e sábados às 21h, e domingos às 20h. O ingresso custa R$ 50 e a classificação etária é para maiores de 12 anos.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.