A reunião de irmãos ou irmãos muito diferentes no leito de morte do pai ou da mãe é um tema corriqueiro na dramaturgia mundial. O tal “acerto de contas”. O canadense Daniel MacIvor (de “In On It”) apresentou sua variação do tema em “Marion Bridge”, peça de 1998, que virou um filme em 2002 e ganhou uma montagem brasileira neste ano sob o título de “A Ponte” e a direção de Adriano Guimarães (de “O Imortal”). Na trama, três irmãs voltam para a casa da mãe, acamada e impossibilitada de falar, para ajudá-la em seus últimos dias. Enquanto esperam o inevitável, ajudam também umas as outras, em questões que elas mesmas não tinham intenção de abrir entre si. Os papéis são de Bel Kowarick (de “Dueto Para Um”), Debora Lamm (de “5x Comédia”) e Maria Flor.

Ninguém interpreta a mãe. Ela é apenas uma alusão e um pretexto, enclausura em um quarto que o público não vê. A peça transcorre inteira na cozinha da casa e começa com a chegada de Agnes (Debora Lamm), a atriz fracassada e alcoólatra, que evidentemente não está satisfeita de voltar à cidade e enfrentar antigos traumas e mágoas. Ela logo se desentende com Theresa (Bel Kowarick), a irmã mais velha e beata que vive em uma comunidade religiosa em uma fazenda afastada. Agnes está mais interessada em saber sobre Louise (Maria Flor), a caçula e esquisita, que gosta mais de sua televisão do que do contato humano e que é quase infantil em suas interpretações literais do mundo. As três personagens são ótimas, começam a história de um jeito e terminam de outro, acertando contas consigo mesmas. Debora Lamm está visceral e dominante em cena. Maria Flor escapa da caricatura com precisão em todas suas falas e contidão em seus gestos. Bel é tão convincente que Theresa parece realmente existir.

A concepção de Adriano Guimarães para a peça é fora da curva. Há uma tela no cenário em que são mostradas, ao longo de toda a apresentação, rubricas como “Theresa desliga a televisão” ou “barulho de caminhão estacionando”. O convite constante à imaginação soma para a experiência do espectador. O artifício é usado também comicamente, sobretudo quando mostra os diálogos da série de TV non sense que Louise gosta de ver. É uma camada a mais. O diretor também põe sua assinatura no cenário, junto com Ismael Monticelli. A cenografia é repleta de subtexto e símbolos. A cor predominante é o vermelho, por si só já cheio de significados, presente em todos os objetos. Louças ficam no chão, impondo marcações não convencionais às atrizes. Há ainda uma grande cruz acima de tudo, sublinhando a culpa, o pecado, o medo e a morte.

O vermelho também aparece em parte do figurino de Louise. Nos figurinos criados por Ticiana Passos, cada irmã tem uma cor predominante dentro de uma paleta de cores harmônica com o todo: Theresa, branco; Agnes, preto. Completando os atributos da montagem, a iluminação de Wagner Pinto coopera com a noção de passagem do tempo. A dramaturgia se passa ao longo de vários dias – toda uma temporada em que as irmãs passam naquela casa. É uma peça grande e a encenação dura duas horas – sentidas. Mas é um ótimo espetáculo. Merece ser visto.

Por Leonardo Torres
Mestre em Artes da Cena e especialista em Jornalismo Cultural.

Ficha técnica
Texto original | Daniel MacIvor
Elenco | Bel Kowarick, Debora Lamm e Maria Flor
Direção | Adriano Guimarães
Dramaturgia | Emanuel Aragão
Cenografia | Adriano Guimarães e Ismael Monticelli
Tradução | Bárbara Duvivier
Figurino | Ticiana Passos
Iluminação | Wagner Pinto
Direção de movimento | Denise Stutz
Direção de produção | Adriana Salomão

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SERVIÇO: qui a seg, 19h30. R$ 30. Classificação: 12 anos. Até 12 de agosto. Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) – Teatro II – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.