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Vencedor da sétima edição do concurso Seleção Brasil em Cena, o texto “A Tropa”, do jornalista e dramaturgo Gustavo Pinheiro, ganhou como prêmio uma montagem no CCBB, estrelada por Otávio Augusto (de “Rock’n Roll”) e dirigida por Cesar Augusto (da Cia. dos Atores). O espetáculo acompanha a hospitalização de um ex-militar reclamão e autoritário, após sofrer uma queda e bater com a cabeça. Internado em um quarto particular, ele recebe, a contragosto, seus quatro filhos, avisados pelo primogênito, que se encarrega sozinho dos cuidados com ele.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Não é exatamente um argumento original. O americano Nicky Silver fez algo similar em “Família Lyons” (2011), ao tratar da reunião de uma família desgarrada em prol do patriarca moribundo no hospital. Em “A Tropa”, os personagens também são desconectados, cheios de divergências e ressentimentos entre si. A primeira diferença que se nota é a ausência da mãe na peça brasileira: ela já morreu. É pura testosterona em cena, sem nada de feminilidade: nenhuma enfermeira para acalmar os ânimos. Outra diferença, a principal e primordial para o que é “A Tropa”, se trata da importância do pano de fundo da política nacional. As relações entre o pai e seus filhos é permeável pela história do país, desde a ditadura militar até os escândalos democráticos envolvendo governo e empreiteiras na Operação Lava Jato: provável reflexo da formação de Gustavo Pinheiro, que é pós-graduando em Sociologia Política, além de jornalista.

Na história, os filhos trazem suas próprias especificidades: Humberto é dentista militar aposentado; João Batista é o frágil caçula, desempregado, abalado pela morte da mãe e envolvido com drogas; Ernesto é um jornalista desempregado, que roda o mundo vivendo sua sexualidade longe dos olhos do pai; e Artur é um rico empresário de uma empreiteira investigada por corrupção. Eles são interpretados respectivamente por Alexandre Menezes (de “Vida Útil”), Daniel Marano, Rafael Morpanini (de “Comum de Dois”) e Edu Fernandes, todos com boas atuações. Daniel, especialmente, chama a atenção pela sensibilidade e introspecção do papel. Mas é Otávio Augusto o grande astro, em seu retorno ao teatro após sete anos longe dos palcos. O pai, interpretado por ele, tem más palavras para todos os filhos, e os confrontos são constantes com cada um deles. É uma relação árdua e custosa para os personagens, e entretida para os espectadores. A peça não perde o ritmo nem por um segundo, e não deixa ninguém se distrair, intercalando momentos de humor e de tensão.

Toda a trama se passa nesse quarto de hospital, com o público ao redor, em formato de arena. O cenário criado por Bia Junqueira é de largura retangular e estreita profundidade, o que permite que os irmãos se mantenham distantes da cama do pai e muito próximos da plateia. Há, no entanto, uma espécie de sala de espera, ao lado, onde os atores ficam quando estão fora de cena – uma decisão tão estranha quanto desnecessária do encenador. Este acerta com escolhas para os flashbacks, que ganham atmosfera especial com a iluminação de Adriana Ortiz. Já os figurinos de Ticiana Passos prezam por cores escuras, em contraste com o cenário verde claro, e contribuem para definição das personalidades dos personagens, diversas. O resultado é realmente um bom espetáculo.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes da Cena.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Texto: Gustavo Pinheiro
Direção: Cesar Augusto
Assistente de direção: Raquel André
Elenco: Otávio Augusto, Alexandre Menezes, Daniel Marano, Edu Fernandes e Rafael Morpanini
Produção local: João Eizô
Preparação corporal: Raquel André
Preparação vocal: Breno Motta
Cenografia: Bia Junqueira
Iluminação: Adriana Ortiz
Vídeo-registro: Diogo Fujimura
Figurinos: Ticiana Passos
Trilha Sonora: Cesar Augusto e Rodrigo Marçal
Fotos: Elisa Mendes
Escolas de Teatro Participantes: CAL-Casa das Artes de Laranjeiras, UNIRIO, Nós do Morro, Universidade Candido Mendes, Escola de Teatro Martins Penna

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SERVIÇO: qua a dom, 19h30. R$ 10. 90 min. Classificação: 14 anos. Até 1º de maio. Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro. Tel: 3808-2020.