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Primeira peça da dramaturga argentina Agustina Gatto encenada no Brasil, “Buscado” é um quebra-cabeça difícil de montar. Encenado em Buenos Aires e em Havana, o espetáculo chega ao Rio de Janeiro em montagem inédita assinada pelo diretor Luiz Furlanetto (vencedor do Prêmio Shell por “Trainspotting”). A dica para o espectador é se desgarrar da busca por sentido e se deixar envolver, senão a experiência pode ser sofrida. No resumo do resumo, a “história” trata de um pai que procura seu filho, inexplicavelmente, em três metrópoles seguidas – Tóquio, Cidade do México e Nova York. A cena se repete nessas diferentes capitais e a plateia tem que interpretar o que vê e o que falta, em uma investigação pessoal.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

O programa do espetáculo afirma que “pode-se entender o que quiser” e arrisco a dizer que, inclusive, nada. Apostar em uma leitura onírica e, por conta disso non sense, parece óbvio demais e a obviedade não combina em nada com “Buscado”. A trama começa com o encontro desse pai com o filho na rua, em uma cena misteriosa que não dá qualquer norte. Nada se sabe sobre esse homem, nem sobre o filho (e, quando a peça termina, essa ignorância é mantida). Em seguida, o pai começa a vagar pelas cidades mencionadas e sempre encontrando um senhor ao piano, frequentemente invocando a mesma canção. Às vezes, parecem personagens diferentes, em cada capital, vivendo a mesma história. Mas as cenas sugerem conexões, e o público tenta traçar as ligações. O pôquer, referenciado algumas vezes, certamente é um indicador, mas de quê? Há ainda uma mulher com uma clarineta sempre zanzando por ali, como acessório ainda menos objetivo em meio ao fio narrativo não-linear, cubista. É para ir embora do teatro ainda tentando encontrar respostas. Incomoda saber tão pouco da personalidade dos personagens, e nada sobre suas motivações.

As peças desse quebra-cabeça, talvez incompleto, são Daniel Rangel (de “Inspetor Geral”), Gabriela Werneck (de “Trainspotting”), Pedro Osório (de “Trainspotting”) e Rogério Fróes (de “Família Lyons”), em atuações regulares. Rogério, recém-agraciado com o Prêmio APTR de melhor ator coadjuvante por “Família Lyons”, se apresenta deslocado em cena, sem oportunidades dramatúrgicas. Um desperdício. Esse grande ator se limita a simular tocar piano no espetáculo, constrangedoramente. Se fosse na TV, diriam que é uma figuração de luxo. Não tenho certeza se os atores sabem mais do que a plateia o que estão fazendo ali. É uma questão que ficar no ar, também.

O melhor dessa montagem de Luiz Furlanetto é a estética do videomapping – que marca todo o espetáculo. O artifício tecnológico, que constrói e destrói os cenários da trama, contribui para essa possibilidade onírica da dramaturgia e causa um efeito visualmente impressionante com a iluminação. É bonito, mesmo. Difícil é avaliar se colabora para o jogo de cena dos atores: para a compreensão dos espectadores, muito pouco. O mesmo vale para a trilha sonora, de qualidade, mas incerta de sua função dramatúrgica. É fato que a música tem uma importância na encenação, mas qual e por quê?

O material de divulgação do espetáculo cita o cineasta David Lynch, o ilusionista húngaro Houdini e o filme “Old Boy”, do coreano Chan-wook Park, como referências. Podem ser pistas para quem vai assistir. “Buscado” tem menos de 50 minutos de duração: é para quebrar a cabeça e ainda correndo contra o tempo. Ou, como disse no início, se libertar da pressão do entendimento: apreciar o videomapping, talvez. Para encontrar respostas (ou caminhos de interpretação, ao menos), pode ser necessário assistir mais de uma vez.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural e mestrando em Artes Cênicas.

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Ficha técnica
Texto: Agustina Gatto
Direção: Luiz Furlanetto
Elenco: Daniel Rangel, Gabriela Werneck, Pedro Osório e Rogério Fróes
Iluminação: Eduardo Salino
Figurinos: Ana Roque
Cenário: Luiz Furlanetto
Videomapping e set design: Jodele Larcher
Direção e edição de vídeo: Federico Bardini
Trilha Sonora: Plínio Profeta e Nado Leal
Fotografia: Desirée do Valle
Design Gráfico: Luciano Cian
Marketing Digital: Qtal Design
Idealização: Gabriela Werneck
Coprodução: Les Truites Planejamento e Produção Cultural
Produção e Realização: Nevaxca Produções

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SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 30. 45 min. Classificação: 14 anos. Até 12 de junho. Oi Futuro Flamengo – Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo. Tel: 3131-3060.